Gustavo Mendes, da infância pobre até fenômeno ao imitar Dilma

“Fazer humor está fácil, a política é piada. E difícil porque as pessoas estão raivosas”


  • 26 de janeiro de 2018
Foto: Divulgação


Por Redação

Natural de Guarani, cidade com 8 mil habitantes, no interior de Minas Gerais, desde criança Gustavo Mendes via aquela “magia” das apresentações no único teatro local e se imaginava um dia no palco. Apesar da infância pobre, o humor acabava amenizando um pouco os problemas da família. “Minha avó foi o primeiro divórcio da cidade. Com 9 filhos, nos anos 70! Ou se deixava ser escória ou tomava à frente da situação. E conseguiu isso com o humor, era engraçada e eu sempre a observava”, lembra.

As suas observações deram tão certo que, atualmente, Gustavo, de 28 anos, lota teatros pelo Brasil afora. Seu “carro-chefe” de imitações é a ex-presidente Dilma Rousseff, que surgiu de uma brincadeira com amigos, depois fenômeno no YouTube e, logo em seguida o convite para o Casseta & Planeta – Vai Fundo. Na atração, ele interpretava também os apresentadores Cassandra Anemberg e Sérgio Chapelin.

Agora, ele tem divertido os internautas de seu canal com a imitação hilária da primeira-dama Marcela Temer. O próximo político, ainda não sabe quem será, até porque, ao encarnar personagens desse meio, admite já ter perdido campanhas publicitárias. Gustavo recebeu a equipe do Portal ArteBlitz para um papo descontraído, divertido e, pasmem, sério, em alguns momentos. O humorista está em cartaz no sábado, dia 27 de janeiro, e domingo, 28, em Bangu, e na segunda, 29, no Theatro Net Rio, com o show Gustavo Mendes 'ainda mais' Atrevido. Além das imitações, ele surpreende cantando.

"Humor é o grande refúgio do pobre. Venho de uma família muito, muito pobre. Mas cresci vendo o humor da minha avó, ela era muito engraçada. Foi a primeira divorciada da cidade de Guarani, interior de Minas, e com 9 filhos."

Foto:  Divulgação

- Como e onde começou na carreira artística?

Numa cidade pequena do interior de Minas Gerais, próximo de Juiz de Fora, que chama Guarani. E tinha um teatro, sempre teve, era uma magia grande porque você via o padeiro, a costureira, o açougueiro, trabalhadores comuns durante o dia, e à noite, se transformavam em estrelas do teatro, com cenários incríveis. E eu sempre quis ser aquilo.

- E de que forma foi parar no humor?

Humor é o grande refúgio do pobre. Eu venho de uma família muito pobre. Minha avó foi o primeiro divórcio na minha cidade. Imagina, uma mulher divorciada, naquele tempo, final dos anos 70. E, com 9 filhos! Mas ela, ou se deixava ser escória, como as mulheres eram tidas, ou tomava à frente de liderança e virava a dona da situação. E conseguiu isso com o humor! Cresci vendo humor, observando, ela sempre muito engraçada, até que com 9 anos assisti ao primeiro show de humor da minha vida. Nem podia entrar pela idade, mas consegui. Era show do Pedro Bismarck, o Nerso da Capitinga. E vi que se podia ganhar dinheiro com aquilo. O humor entrou em mim e nunca mais saiu. Foi a forma que encontrei de tirar a melhor nota na escola, porque, às vezes, não fazia o trabalho, mas apresentava, era engraçado, e tirava nota boa. Uma vez a minha mãe queria me dar uma palmada, o que não é correto, mas eu contava uma piada, ela ria, perdia a coragem, não me batia. O humor me ajudou em tudo.

- Fazer humor no Brasil está mais fácil, até por atrocidades na política, dia a dia?

Tá ficando mais fácil e mais difícil! Fácil porque virou uma grande piada, a política é uma grande piada. Por outro lado, está acontecendo um movimento nas revistas, jornais, demissões em massa de grandes profissionais de comunicação. E o que aconteceu? Virou uma onda de fake news. Todo o mundo escreve o que quer, sem fonte, mentira. Aí isso gera um ódio na sociedade grande, porque as pessoas se baseiam em manchetes falsas. Então, ficou mais difícil fazer humor pelo lado público, as pessoas estão muito raivosas, não estão rindo mais. Então, como sorrir, se por um lado tem a piada fácil, por outro tem o público difícil. Uma pena, mas mudaremos isso.

Foto: Divulgação

- O que significou para a sua carreira interpretar a ex-presidente Dilma?

Foi a grande revolução. Nunca imaginaria que eu faria sucesso, entraria para a televisão fazendo uma personagem. Sempre quis ser de cara limpa. Eu nunca quis ser comediante, queria ser apresentador de TV, não queria ser Chico Anysio, queria ser Faustão. A Dilma surgiu de modo muito natural, em uma brincadeira, e virou um fenômeno. Porque acho que quando ela era ainda ministra e, no começo do governo, era muito recolhida, falava pouco, aparecia pouco. Então, virei meio que o porta-voz extraoficial da presidenta. Eu falava aquilo que as pessoas gostariam de ouvir ela falando. E eu acho que eu falava o que ela gostaria de dizer também. E fiquei muito querido dos jornalistas de política. O pessoal do entretenimento foi me conhecer depois. Aí abriu todas as portas, consegui pagar todas as contas. E consegui conquistar também o coração de um jovem empresário de Brasília, o Jorge, que junto com a sua esposa e a sua filha, disse, vamos criar esse artista, dar a ele notoriedade, bons contatos...

- Agora você tem feito muito sucesso com vídeos em seu canal imitando a Marcela Temer... Quem será o próximo?

O próximo eu não sei... Estou aguardando os próximos capítulos. A Marcela Temer foi uma coisa engraçada. Não queria mais fazer personagem político. Porque em 2013 ia fazer uma grande campanha de uma marca de automóvel famosa. Assinei contrato, milionário, estava rico, megafeliz, gastando por conta... Dois dias depois houve a primeira manifestação do 'não é pelos 20 centavos'. E aí caiu o contrato inteiro, e eu já tinha feito dívida. Ali percebi que a minha vida, carreira, estava na mão de uma pessoa que não sou eu. Quando um artista faz merda, é responsabilidade dele, mas eu não era eu, era o que estava acontecendo na política. Aí falei, não vou mais fazer personagem político. Até que um dia estava em um restaurante em São Paulo e chegou um senhor elegante, dizendo que era meu fã. E ele disse: 'você deveria fazer a Marcela Temer'. Mas eu respondi, ninguém a conhece, ela não aparece. Ele respondeu, por isso mesmo, ela pode ser o que você quiser. E aquilo me abriu os olhos. Ela é a minha queridinha do momento. Adoro fazê-la porque explica as coisas às avessas, fala de comunismo. Para ela, o primeiro comunista foi Adão, porque achava que todo o mundo tinha o direito de comer qualquer fruto do paraíso. Então, fica essas lendas do que o povo não entende muito bem, e ela faz piada com isso.

- Já teve algum grande problema com suas imitações nessa área política?

Nenhum, pelo contrário. Todos adoram! A Marcela Temer, não tive um feedback direto dela, mas sei que, depois dos meus vídeos, ela passou a fazer vídeos na internet. Então, acho que ela gostou. A Dilma sempre falou que gosta. Encontrei recentemente com o presidente Lula e ele também adora. As cantoras que imito, sou fã, todas viraram minhas amigas, a Ana Carolina, a Alcione. Ainda não conheci o Roberto Carlos, mas se eu conhecer, pode ser que eu infarte e morra. Sou apaixonado por ele. E a Maria Bethânia, também amo.

- Você também já fez novela, se vê fazendo drama, tem vontade?

A definição francesa de ator e comediante é a seguinte: ator é aquele que faz um tipo de coisa só, comediante é o que faz todas. Eu sou um ator, sei fazer drama, faço bem, aliás, você só vai fazer drama bem, se você fizer comédia bem. Todo o bom comediante é um bom ator. Nem sempre todo o ator é um bom comediante. Mas não tenho essa necessidade de vaidade, de querer provar que sei fazer, chorar. Na verdade, comédia é para quem assiste, para quem faz, é drama.

"A Dilma surgiu de modo natural, uma brincadeira, e virou um fenômeno. Foi a grande revolução da minha carreira, consegui pagar todas as contas. Como era muito recolhidac, acho que eu falava o que as pessoas gostariam que ela falasse."

- Fale um pouco agora do espetáculo Gustavo Mendes Atrevido. O que as pessoas vão ver de diferente, o que você traz de novidade?

É o melhor espetáculo da minha carreira, onde consigo juntar tudo aquilo que queria, sonhava, mas eu era pobre, não conseguia. Até que veio esse meu empresário e mudou a minha vida. Ele foi em Las Vegas, com o Cirque de Soleil, pesquisou, trouxe coreógrafos... O 'ainda mais atrevido' junta música ao vivo, as imitações, tem os personagens, piadas clássicas, stand up. Eu me divirto, adoro esse show e eu nunca perdi nenhum.

Tem mais projetos para esse ano?

Agora em abril estreia a terceira temporada do Treme Treme, no Multishow. Amo fazer! É um programa que lança talentos, quisera eu ter tido essa oportunidade no começo da minha carreira. O Xilindró terceira temporada começo a gravar em março. E vem show novo aí, esse ano quero fazer cinema de qualquer maneira. E sempre em busca de novos formatos na internet. Ah, quero perder 25 quilos. Esse é o grande objetivo para 2018. Todos os outros, os contratos, já amarrei em 2017, mas esse depende desse ano. Me ajudem!

Gustavo Mendes Atrevido. Dias 27, sábado, às 21h, e 28/01, domingo.às 19h. Theatro Bangu Shopping. Rua Fonseca, 240, Bangu. De R$ 30,00 a R$ 40,00. Classificação: 12 anos

Gustavo Mendes Atrevido. Dia 29/01, segunda, às 21h. Theatro Net Rio. Rua Siqueira Campos, 143, 2º piso, Copacabana, Rio. De R$ 60,00 a R$ 80,00. Classificação: 14 anos



Veja Também