Gabriella Potye: De promessa à atriz revelação em clássico teatral

Elogios de Rodrigo Lombardi e Sergio Mamberti, de Um Panorama Visto da Ponte


  • 07 de março de 2019
Foto: Christian Baes


Por Luciana Marques

Anotem este nome: Gabriella Potye. Aos 23 anos, e em sua segunda peça profissional, ela encarou o desafio de dar vida à Catherine, no clássico Um Panorama Visto da Ponte, de Arthur Miller, que tem sua segunda montagem no Brasil. Com direção de Zé Henrique de Paula, a produção venceu o Prêmio APCA, em São Paulo, como o Melhor Espetáculo de 2018. Entre os nomes com os quais divide a cena no drama, os grandes atores Rodrigo Lombardi e Sergio Mamberti.

E eles rasgam elogios à jovem atriz: “A Gabi nos conquistou na primeira leitura, ficamos emocionados. E durante a temporada cresceu meteoricamente em cena! Não vai demorar para o Brasil descobri-la... Mas nós fomos os primeiros!”, avisa Lombardi. “Gabi fez de sua Catherine uma presença vibrante e luminosa nesta temporada tão vitoriosa do nosso Panorama. Deixou de ser uma promessa para se tornar uma atriz pronta para novos desafios”, disse Mamberti.

Escrita em 1955, a trama trata de temas atuais como imigração ilegal, machismo, homofobia, intolerância, delação, paixões. Segundo a atriz, a personagem a aproximou do feminismo. “Me fez mais consciente da minha força como mulher”, diz. Neste fim de semana, nos dias 9 e 10 de março, Um Panorama Visto da Ponte estará em cartaz no Theatro Vallourec, em Belo Horizonte. E o nosso papo com a Gabriela está imperdível!

Gabriella Potye com os colegas Rodrigo Lombardi, Patricia Pichamone e Sergio Mamberti, à frente. Foto: Ale Catan

Desde a sua formação, você vem fazendo teatro. Mas como foi para você ter recebido este convite do Zé Henrique para atuar em Um Panorama Visto da Ponte ?

Se for pra comparar com meus colegas de cena, não dá nem pra dizer que, na época, eu tinha alguma bagagem de teatro. O Sergio vai fazer 80 anos e tem 63 de palco! Receber esse convite do Zé foi um sonho realizado. Eu sempre admirei o trabalho dele de longe, até que me inscrevi em uma oficina no Núcleo Experimental. Fiz dois meses de curso e, no final, ele me convidou para uma leitura. Lembro de estar escolhendo limão no supermercado quando recebi a mensagem. Chorei com a moça do caixa (risos).

No início bateu algum receio, frio na barriga, tipo, será que eu vou dar conta?

Acho que sempre quando nos deparamos com um novo desafio esse tipo de pensamento passa pela cabeça. Principalmente pra algo desse porte. Mas logo nos primeiros ensaios eu percebi que poderia confiar nos meus parceiros, me senti acolhida e respeitada para me jogar na maravilha que seria descobrir a Catherine. Mais do que tudo, eu aprendi muito. Nesse processo de um mês e meio de ensaios, tive que mergulhar completamente em uma técnica nova de atuação, chamada Action, da Inês Aranha, nossa preparadora de movimento, estudar todas as obras de Miller, os conflitos sociais que a peça trata... Por isso foi um processo muito mais voltado para o aprendizado de algo novo do que de me apoiar em minhas bases teatrais passadas.

 

 

Você atua com dois grandes nomes da dramaturgia, Rodrigo Lombardi e Sérgio Mamberti. O que mais tem aprendido com eles e que levará para sempre na sua carreira?

Nossa, aprendi tanto! Principalmente, o respeito e a dedicação com que encaram o ofício. Sérgio com suas incríveis histórias de vida, com sua generosidade de, com 63 anos de teatro, se jogar completamente em técnicas novas, sem julgá-las. E o fato de ele ainda se encantar com os momentos genuinamente - seus olhos estão sempre brilhando. Eu e Rodrigo contracenamos durante quase toda a peça e nossas personagens tem muita intimidade. Logo nos primeiros ensaios vi a tamanha responsabilidade com que ele encara o fazer teatral. Eu chegava mais cedo, e ele estava sempre lá, antes de todos. Sua humildade perante uma nova personagem, entrega e profissionalismo são aprendizados que vou levar pra sempre. Fora isso, posso dizer que colhi um pouco de cada um desses incríveis atores que compõem o elenco. É muito bom estar cercada de pessoas tão talentosas e inspiradoras.

O que mais instiga você ao viver a Catherine?

Entender, sem julgamentos, essa menina presa em um regime patriarcal, e me encontrar, como personagem e como atriz, nesse lugar de transição de menina para mulher independente foi algo que me instigou muito. Eu, muitas vezes, no processo, me indignei com a submissão das duas personagens femininas, com o machismo, mas está aí o porquê, o texto é um clássico. Mesmo escrito em 1955, ele continua denunciando essas situações tão veladas nos lugares cotidianos, e que, ainda bem, estão sendo cada vez mais questionadas.

Catherine (Gabriella Potye). Foto: Ale Catan

Por que você acha que o espetáculo foi tão bem aceito não só pelo público, mas pela crítica, vencendo o APCA como melhor espetáculo, e tendo várias indicações ao Shell?

Um Panorama Visto da Ponte é uma peça que trata de temas universais. A imigração ilegal, machismo, homofobia, delação e as paixões, são o centro da narrativa e causam identificação a todos que assistem. Estampar essas questões foi algo preciso que Miller fez para denunciar uma situação que ocorria em 1955 e que continua dolorosamente atual. Acho que isso foi determinante para a maneira como fomos recebidos. O momento presente parece condensado pelas palavras do autor. Cada notícia de imigração ilegal nos jornais, cada feminicídio, parecia que trazia outra interpretação para a peça, fazendo com que cada dia de apresentação fosse único e preenchido pelas situações que enfrentamos.

Todo o ator diz que aprende algo com os personagens ou com as ações dos personagens, sejam boas ou más. O que você tem aprendido com Catherine?

Catherine me aproximou do feminismo. Me fez mais consciente desse movimento e da minha força como mulher. Citando Clarissa Pinkola Estés, autora do livro “Mulheres que Correm com os Lobos” - “Sermos nós mesmos faz com que acabemos excluídos pelos outros. No entanto, fazer o que os outros querem nos exila de nós mesmos”. Cathie, menina que vive em um regime patriarcal, quebra essa barreira para seguir suas próprias paixões, vontades, e se libertar do que antes era absoluto para ela, encontrando, assim, um lugar para amadurecer e se reconhecer como mulher independente.

Foto: Divulgação

Você começou nova, ainda no teatro amador, com 8 anos. Como tem sido a sua caminhada, porque não é uma carreira fácil, né?

Eu acho que a minha caminhada esta só começando. O que eu já sei é que tem que ter calma e ao mesmo tempo fervor de fazer acontecer. É uma profissão que exige resiliência e disciplina. Mas que, vez por outra, permite que vivamos momentos de êxtase, fazendo tudo valer a pena!

Muitos jovens atores já querem começar a carreira na TV, você iniciou no teatro. Acha que TV é uma consequência, já busca muito isso ou tudo tem o seu tempo?

Tudo tem seu tempo. Cada artista tem a sua história e caminhada. Me sinto honrada pelas oportunidades que tive até agora, e ansiosa pelo que virá. Faço o que amo e, só isso, já é um privilégio!



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