Fagundes e o sucesso Baixa Terapia: "Fracassos fazem a gente pensar na vida. Eu pensei bastante"


  • 05 de novembro de 2017
Foto: Divulgação


Por Ana Júlia

São mais de 50 anos de carreira, trabalhos emblemáticos na TV, no cinema, mas, definitivamente, é no palco que Antonio Fagundes, de 68 anos, se sente mais à vontade, inteiro, feliz. “O teatro é a pátria do ator, é lá onde ele erra, alça voo, ousa, arrisca, se sente humilde”, diz. E é em mais uma investida nos palcos, como ator e também produtor, que ele vê a comédia dramática Baixa Terapia se tornar o maior sucesso da atual temporada teatral. Desde abril, 60 mil pessoas já foram ao Teatro Tuca, em São Paulo, assistir ao espetáculo que fica em cartaz até dezembro. “A peça tem uma dramaturgia impecável. É teatro na veia!”, define.

Na irônica comédia do argentino Matias del Federico, com adaptação de Daniel Veronse e direção de Marcos Antônio Pâmio, três casais que não se conhecem, se encontram em um consultório para sua habitual sessão de terapia. O inusitado é que, dessa vez, descobrem que a psicóloga não estará presente e deixou envelopes com instruções de como deverão conduzir a sessão. Além do texto singular, outro prazer para Fagundes é atuar com sua “grande família”. No elenco, estão a ex, Mara Carvalho, o filho Bruno Fagundes e a atual mulher, Alexandra Martins. Completam o time de feras, os já “quase parentes” Ilana Kaplan e Fábio Espósito. No bate-papo exclusivo com o Portal ArteBlitz, o ator elogia o teatro argentino e admite que os fracassos em algumas das quase 50 peças também valeram muito à pena porque “o fizeram pensar bastante na vida”.

"A peça tem uma dramaturgia impecável. Digo que é teatro na veia!"

Como ator e produtor, qual o motivo de tanto êxito da peça?

Antes de mais nada é uma comédia fantástica, hilariante, o público realmente não para de rir o tempo todo, aplaude em cena aberta. Fora isso, tem um elenco maravilhoso defendendo aqueles personagens de uma maneira única, comediantes de primeira linha.

O que mais instiga você nessa produção?

A peça fala de três casais que fazem terapia, não se conhecem e, ao chegarem numa sessão habitual, percebem que a terapeuta não foi. E que ela deixou oito envelopes com informações sobre o que devem fazer. Aí você imagina o que não sai daí, um dando pitaco na vida do outro. Então, a situação já é engraçada. Além disso, o Matias Federico soube montar essa estrutura de forma magnífica. Dramaturgicamente a peça é muito bem resolvida com situações muito engraçadas e piadas muito boas dentro dessas situações. Acaba sendo impagável e com um final surpreendente.

"Os sucessos a gente acha que mereceu, os fracassos fazem a gente pensar um pouco mais na vida. E eu pensei bastante na vida, tive bastante fracasso."

Você tem dito nas entrevistas que o que acontece em cena é teatro puro, pode explicar isso?

Primeiro, a peça tem uma dramaturgia impecável. O autor criou uma situação dramática muito engraçada, o fato desses três casais se encontrarem sem se conhecerem com a ausência da terapeuta. Mas dentro dessa situação maior, ele criou situações menores, que são também interessantes e engraçadas. Cada vez que eles vão discutir um assunto é como se fosse uma peça dentro da peça, com piadas pontuais muito boas. E para fechar essa boa dramaturgia, ele criou um final surpreendente, que a plateia curte bastante. É por tudo isso que eu digo que é teatro na veia.

Hoje em dia as relações estão bastante superficiais, acha que, apesar de ser comédia, o texto aprofunda assuntos dos quais as pessoas fogem e faz com que repensem após a peça?

Eu acho que, por ser comédia, as pessoas acabam se vendo obrigadas a repensar porque se envolvem, dão risada, acham hilariante, se identificam. Mas até por causa dessa virada final do espetáculo, o público acaba repensando, sim, tudo o que ouviu e o fez rir. Naturalmente, são assuntos que levam muito do nosso cotidiano. O público não tem como fugir de uma identificação, pelo menos em algum aspecto que a peça levanta. Outro dia, de brincadeira, a gente levantou 25 itens que a peça cita e discute sobre as relações interfamiliares. É claro que você não vai sair imune apesar de ter rido durante uma hora e meia.

"É um prazer atuar em família. Mas nosso camarim é tão bom quanto nosso trabalho em cena. São todos comediantes de primeira linha." 

Você descobriu o texto na argentina, consegue acompanhar o teatro de lá, o que acha que estão trazendo de diferente?

Sempre que posso dou um pulinho a Buenos Aires, eles fazem um teatro de altíssima qualidade. Mas o que eu acho que tem na Argentina e que ainda falta no Brasil é um esclarecimento para o público do que ele vai ver. Lá tem uma avenida principal, a Corrientes, onde estão os espetáculos que o público menos exigente com relação a temáticas, pode buscar e vai sair feliz entrando em qualquer teatro. No Brasil, você nunca sabe onde está aquilo que quer ver. E não há informação através da mídia. Outro aspecto é que a Argentina desenvolveu uma dramaturgia própria voltada para os argentinos com o intuito de aumentar, criar público de teatro interessado em ver boas peças. Isso também está faltando aqui, um movimento que nos una nesse sentido. Mas, no mais, a gente está caminhando para isso.

Estar em família no palco traz um prazer ainda mais especial?

Sem dúvidas! A gente tem uma relação muito harmoniosa fora de cena. Mas isso não quer dizer nada, porque a gente poderia ter uma relação boa fora de cena e não se dar bem no trabalho. Mas não é o que acontece. A gente carrega com muito prazer essa harmonia para dentro do trabalho, então o camarim é extremamente divertido. E ainda mais com a Ilana Kaplan e o Fábio Espósito, duas pessoas que não fazem parte da família, mas agora já estão fazendo. São todos muito bem-humorados. Então, nosso camarim é tão bom quanto nosso trabalho em cena.

"São uns 25 itens que a peça levanta sobre as relações interfamiliares. O público não tem como fugir de uma identificação, sair imune, apesar de ter rido durante uma hora e meia."

Você sempre fala com paixão e amor do teatro. O que significa para você estar no palco?

Eu sempre falei que o ator tem no palco a sua pátria, o teatro é a pátria do ator, é lá onde ele erra, alça voo, ousa, arrisca, se sente humilde. Afinal de contas, ele tem ali uma plateia atenta ou desatenta a sua frente e é capaz de ver isso. Acho que o teatro é essencial para quem quer ser ator, sem tirar o mérito de qualquer um dos outros veículos. A base de todo o trabalho do ator está no teatro.

Se fizesse um balanço de sua trajetória no teatro, com dezenas de peças, faria tudo de novo, viveu fracassos, tudo valeu a pena?

Acho que estou beirando a 50 peças. E eu faria tudo de novo, sim, do jeitinho que fiz. Até porque acho que a gente acaba aprendendo mais com os fracassos do que com os sucessos. Os sucessos a gente acha que mereceu, os fracassos fazem a gente pensar um pouco mais na vida. E eu pensei bastante na vida, tive bastante fracasso.

"A Argentina desenvolveu uma dramaturgia própria com o intuito de aumentar, criar público de teatro interessado em ver boas peças. Isso está faltando aqui, um movimento que nos una nesse sentido."

Baixa Terapia: Comédia. Teatro TUCA-Teatro da PUC-SP. Rua Monte Alegre, 1024, Perdizes, São Paulo. Sex às 21h30, Sab às 20h00 e Dom às 19h00. Sex R$80, Sab R$100 e Dom R$90. Até 10/12



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