Conheça Pedro Navarro, que faz o pirata Smee, de Peter Pan

Nome da nova geração do teatro musical, ele começou cantando na igreja


  • 10 de maio de 2018
Foto: Arquivo Pessoal


Por Luciana Marques

Quando novo, Pedro Navarro já se destacava nas aulas de canto e teatro numa Igreja Metodista. Mas para o ator, desde aquela época, o papel precisava ter um “quê a mais”. “Se tivesse que fazer um narrador, o meu tinha sotaque francês”, diverte-se ele, que cresceu ouvindo R&B e soul.

Hoje, aos 24 anos, após se destacar como o Lamar, na mais recente montagem brasileira de Godspell, em 2016, ele dá vida ao divertido pirata Smee, em Peter Pan, o Musical da Broadway, em cartaz no Teatro Alfa, em São Paulo. O personagem, braço direito do temido Capitão Gancho, vivido por Daniel Boaventura, geralmente é interpretado por atores mais velhos. “Usei isso a meu favor”, conta.

Neste papo exclusivo com o Portal ArteBlitz, Pedro, que também dá aula de vocal coach na Casa Motivo, em São Paulo, diz que não descarta uma experiência só na música. E ainda avalia que o nosso teatro musical não deve nada aos espetáculos de fora, e que a “paixão e energia” dos brasileiros no palco surpreendem qualquer gringo.

Smee (Pedro Navarro) e Capitão Gancho (Daniel Boaventura). Foto: Leo Aversa

Quais as melhores lembranças de sua infância quando cantava e fazia teatro na igreja?

Só tenho boas lembranças daquela época, eu era bastante dedicado, mas também arteiro. Sempre gostei muita de criar, então, nas peças de teatro, toda vez que tinha um papel, inventava algo a mais para compor ele. Por exemplo, se tinha que interpretar um narrador, o meu teria sotaque francês (risos). Igualmente no canto, gostava de descobrir novas coisas, abrir vozes... Acho que essa experiência vem comigo até hoje, essa bagagem musical de não só me satisfazer em reproduzir, mas também de criar e experimentar junto. Acabava me destacando pela minha vontade de estar sempre fazendo alguma coisa, propondo apresentações. E também pela música, pois eu praticamente nasci cantando, cantava todo dia, toda hora, bem inconveniente (risos).

Quando eventualmente você descobriu que queria mesmo seguir a carreira artística? 

Desde o colegial já sabia que queria seguir uma carreira nas artes, não necessariamente no teatro, na música ou na dança. Eu me dediquei por um tempo ao audiovisual que é uma linguagem que eu amo, mas nunca deixei de trabalhar o lado performer - mesmo que pelo hobby, sempre continuei a cantar. Comecei a estudar mais e a fazer amizade com pessoas que usavam da arte como vida profissional também. Aí, o meu caminho artístico foi se formando, crescendo como profissão. Graças a Deus tive e tenho bons exemplos, a ajuda e a confiança de artistas incríveis na minha carreira, e acho que isso foi e é essencial.

Em cena como o Smee, do musical Pan, com grande elenco. Foto: Luís França

Nunca pensou em seguir só a carreira de cantor?

Já pensei, e não excluo nenhuma direção também. Trabalho como ator e cantor, independentemente da mídia e da linguagem. Adoro fazer peças de outros gêneros e adoro cantar fora de uma obra teatral também. Consigo fazer coisas paralelas e gosto muito dessa pluralidade, mas atualmente meu foco está voltado para o teatro musical.

E essa predileção por musicais, surgiu como e por quê?

Eu sempre gostei dessa linguagem, de poder contar uma história através da música, cantar através de um personagem. Infelizmente, durante grande parte da minha infância e adolescência eu não tinha um acesso enorme a grandes produções, já que a cidade onde cresci por um tempo, não comportava a turnê de um musical. Na época da faculdade acabei sabendo pela internet sobre um teste e quis fazer de curioso, era para uma produção em inglês de Footloose, em São Paulo. Acabei passando para fazer o antagonista Chuck, e o resto é história (risos).

Em cena como Lamar, em Godspell, em 2016. Foto: Luís França

Quem são as suas referências na música e também nos musicais?

Nossa, por onde começo? (risos). Me inspiram muito artistas que pisam no palco e fazem como se fosse a primeira e última vez, como se fosse inédito e exclusivo. Aquela garra, entrega ao cantar, me emociono demais e é uma das coisas que tenho como objetivo toda vez que me proponho a fazer algo. No teatro musical brasileiro me inspiro muito no trabalho e na paleta de personagens de Marcos Tumura - infelizmente o perdemos, mas ele continua sendo referência para as novas gerações do mercado. Fico perplexo também com atrizes como a Andrezza Massei, pelo domínio e entrega que ela tem em cena, e com a Kacau Gomes, em todas as vezes que a vi me emocionei muito, pois ela canta como se aquilo viesse de dentro do coração dela.

E internacional?

Nathan Lane é uma referência de comédia, atuação e profissão para mim. Patti Lupone é sem dúvida nenhuma um tornado em cena. Natalie Weiss eu poderia ouvir 24 horas por dia sem cansar. Alex Brightman é um dos melhores atores atuais da Broadway que consegue juntar o virtuosismo no canto, com uma energia cênica intensa, e com uma veia cômica engraçadíssima. Já na música, cresci ouvindo R&B e Soul. Então, Brian McKnight, JoJo, Britney, Aguilera, Michael Jackson, Whitney, Mariah, Sam Smith, são todos referenciais. Atualmente tenho ouvido muito YEBBA, uma cantora revelação do soul incrível. 

Foto: Caio Bonicontro

São raros os atores que conseguem de imediato alguma chance. Fale um pouco de sua batalha para engrenar na profissão, porque não é fácil, né? 

Não é fácil, assim como toda a carreira, precisa de muito estudo e preparação, não só física, mas emocional e psicológica também - às vezes, mais até do que a física. Sou muito grato, pois consegui começar a construir minha carreira cedo, fiz meu primeiro espetáculo profissional paralelamente com meu último ano de formação em Teatro Musical. E mesmo agora, continuo sempre estudando. Acho que uma das partes mais difíceis, mas que temos que lidar durante toda a carreira, é que muita coisa não está sob o nosso comando. Numa audição por exemplo, você só é responsável pela sua performance e postura. Não dá para controlar os outros participantes, ou a visão artística da banca avaliadora, ou como você vai acordar no dia, ou se eles precisam de um perfil específico. Acho que como artistas, nossa preparação e estado mental precisam ser de alto nível, assim como nossas habilidades artísticas.

Você estudou fora um tempo e deve ter visto vários espetáculos nos Estados Unidos. Acha que o Brasil já está no mesmo nível dos musicais lá de fora?

Ao meu ver, não devemos nada a nenhum outro polo de teatro musical. Temos um nível de qualidade muito alto, e em muitas vezes com expressões artísticas mais interessantes do que lá fora. Como são países diferentes, o teatro é feito de formas diferentes. Um diferencial é que nós brasileiros colocamos uma paixão e um fogo a mais. É curioso conversar com um estrangeiro e ouvir: 'Nossa, vocês fazem com tanta paixão, vocês dançam com tanta energia!'. Mesmo nas produções que vem de fora, os atores colocam um brilho específico brasileiro para a obra. Já uma característica de fora, que estamos assumindo para nós também, é a variedade e diversidade dos ditos 'perfis'. Lá fora, pelos espetáculos ficarem mais tempo em cartaz, ou também por novas produções serem mais frequentes, são muitos perfis diferentes dentro de uma mesma obra. O mesmo papel pode ser interpretado por uma mulher branca, uma negra, uma alta, uma mais gordinha, outra bem magra. E é muito legal esse fator estar virando essencial e frequente no nosso país.

Solo em Godspell. Foto: Luís França

O que tem instigado mais você em sua participação no musical Peter Pan?

A relação viva entre atores versus público é muito intrigante. Peter Pan toca muito as pessoas, as crianças. Principalmente nossa versão, que foi desenvolvida especialmente para essa montagem, é tudo magico! Então, poder presenciar em todas as sessões um público novo, caloroso e engajado, é uma delícia, assim como poder presenciar e fazer parte da criação dessa versão foi engrandecedor. Ser dirigido por essa equipe é um sonho realizado, e a cada dia é uma nova descoberta. São criações, direções, ensaios e apresentações, muito mais geniais, pela equipe que nos lidera e que nos molda, e por esse time de atores ‘monstros’.

Tem se surpreendido com a sua veia cômica ou é algo que você sempre teve?

Não me surpreende, pois sempre tive um lado cômico muito forte mesmo. Foi algo sempre muito instintivo para mim. Talvez o que me surpreendeu foi combinar tanto com o Smee, mas acho que isso vem da forma como encarei a construção do personagem, a escolha de usar em meu favor o fato de eu ser uma pessoa bem jovem, escolhida para interpretar um personagem que, por várias vezes, foi vivido por um homem mais velho. Trouxe toda a energia e a jovialidade que podia para o Smee, ao invés de tentar mostrá-lo do mesmo jeito que ele foi representado das outras vezes.

Por que as pessoas devem assistir ao musical Peter Pan? 

Existem vários motivos, é uma produção de encher os olhos, cheia de magia, efeitos e fantasia, que traz algumas mensagens. É extremamente animado e alto astral, além de ser uma história clássica, representada de uma maneira totalmente nova e feita especialmente para essa versão. A equipe criativa é estelar, e os atores são um espetáculo à parte. É realmente uma obra completa, o Teatro Musical em toda a sua potência. 

Fale um pouco sobre a Casa Motivo, o que é, quem pode procurar...

A Casa Motivo é um espaço multiuso idealizado pelo Rafael Villar e o Tinno Zani. É um lugar para a pessoa crescer artisticamente, se alimentar de novas experiências e passar por uma evolução pessoal. Rafael é meu professor de canto e, acima de tudo, é meu grande amigo. Admiro muito a visão e o caráter dos idealizadores deste projeto, e me sinto muito feliz e honrado em poder integrar o time de professores de canto, compartilhando daquilo que tanto amo. Para quem se interessa em estudar Teatro Musical, Teatro, Canto, independente do gênero, não só recomendo, como também incentivo.

Peter Pan - O Musical da Broadway. Até 15/07. Teatro Alfa. Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, Santo Amaro, São Paulo. Quintas e sextas, às 20h30. Sáb., às 16h e 20h. Dom., às 17. De R$ 50,00 a R$ 210,00. Duração: 2h20 (com intervalo). Classificação: Livre.



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