Claudia Mauro e a catarse em "A Vida Passou por Aqui"


  • 05 de novembro de 2017
Foto: Divulgação


Por Ana Júlia

Quem assiste ao espetáculo A Vida Passou Por Aqui, de autoria de Claudia Mauro, que também produz e atua junto a Édio Nunes, sai diferente do teatro. “Acho que mexe com as pessoas porque vai a um lugar da vida, de valores, da família. E, no fundo, todo o mundo tem uma história parecida com aquela”, ressalta Claudia, casada com o também ator Paulo César Grande, com quem tem os gêmeos Pedro e Carolina, de 7 anos.

O texto, que conta a história de amizade entre uma solitária professora e artista plástica que se recupera de um AVC e um faxineiro de hábitos simples, foi inspirada em sua mãe. Yara Mauro, de 76 anos, sofre hoje as consequências dessa doença. “Foi uma catarse! Fui visitando várias pessoas da família, meu pai também”, relembra ela, sobre Joubert Di Mauro, falecido há três anos. “Acima de tudo, a peça é uma celebração à vida e um tributo à amizade”, explica ela, vencedora do prêmio APTR 2017 de melhor texto.

A montagem, com direção de Alice Borges, canções de Martinho da Vila Chico Buarque, tem sessão especial de 1 ano para convidados, no dia 30 de novembro, no Teatro XP, no Rio, em evento do Laboratório Farmoquímica, patrocinador do espetáculo. Em 9 de janeiro, reestreia no Teatro dos Quatro, no Shopping da Gávea. E, em 2018, segue em turnê pelo Brasil e também chega a São Paulo.

Inspiração

Estava em meio a mudança da casa de minha mãe e achei umas agendas, aí lembrei do Floriano, grande amigo que meus pais tiveram. Ele era faxineiro e boy da minha mãe na Secretaria de Cultura. Aí me ocorreu de fazer uma história de amizade em que a alegria curasse a minha mãe, porque o Floriano era uma pessoa muito alegre e o meu pai também. No meio do processo, o meu pai morreu e eu misturei de tudo um pouco ali. Fui vendo o meu avô, a minha avó, tia-avó, amigos. E algumas histórias minhas com o meu marido, Paulo César.

"Faço uma catarse em cena, é uma conexão forte com meus pais que está ali."

Reação do público

As pessoas saem muito mexidas, me agradecem. E eu acho que é um tipo de espetáculo que a gente faz de tempos em tempos na vida. Eu não esperava! Realmente, a importância da realização era maior do que qualquer expectativa, queria realizar. Faço uma catarse em cena, é uma conexão forte com meus pais que está ali. E tem o Édio Nunes, um ator com o qual eu tenho muita afinidade, sintonia, e a Alice Borges, diretora, grande amiga e que viveu essas histórias comigo. A trilha sonora é da minha irmã Patrícia com o Cláudio Lins e resgata as músicas que a gente ouvia na infância.

Papel escrito para outra atriz

Eu escrevi para a Alice Borges. Não me achava preparada para fazer uma personagem como essa, de 75 anos, sequelada de AVC. Ela que me convenceu. Tinha medo de ficar caricata. Achava que era papel para eu fazer lá pelos meus 55 anos. Mas quando comecei, a convivência com minha mãe, a coisa é incorporada, entro em cena e realmente me sinto ela, é muito louco. Aí também me colocou num outro lugar, porque acho que as pessoas não sabiam que poderia realizar um trabalho assim, tão específico. A personagem não tem 90, mas minha mãe envelheceu muito com o AVC. Como fazer isso? E eu ainda tenho essa coisa da alegria, do frescor... Me viam muito fazendo comédia, musical no teatro, e na televisão, sempre as mesmas personagens, próximas de mim. Às vezes, você tem oportunidade de fazer bons papeis, outras não.

"Não me achava preparada para fazer uma personagem como essa, sequelada de AVC. Tinha medo de ficar caricata. Era papel lá pelos meus 55 anos."

36 anos de profissão

Não é uma carreira fácil! Estou num momento bem diferenciado agora. Acho que a peça me colocou em um outro lugar, no sentido que as pessoas começaram a ver uma outra possibilidade, a minha como autora. O texto chegou muito nas pessoas, ficam impressionadas. Começou com o Domingos de Oliveira, que assistiu e falou coisas lindas. Então, essa coisa de eu escrever foi uma surpresa para as pessoas. E eu tenho milhões de textos guardados.

"Acho que eu tenho aqui um divisor de águas. Antes de A Vida Passou por Aqui e depois. Me colocou em outro lugar na carreira."

50 anos

Quando o espetáculo começou a ter essa repercussão, as pessoas começaram a assistir, acho que se supreenderam de uma certa forma. E isso me coloca em um outro lugar. Acho que eu tenho aqui um divisor de águas. Antes de A Vida Passou por Aqui e depois. E num momento muito bom, a gente vai chegando na metade da vida, 50 anos. E é muito bom quando você vai chegando nesse processo de começar a receber o retorno de tudo o que fez, com a experiência, maturidade.

A Vida Passou por Aqui: Drama. Teatro dos Quatro. Rua Marquês de São Vicente, Shopping da Gávea, Rio. Às terças e quartas. Estreia dia 9 de janeiro.

 



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