Cacau Hygino e sua nova peça, Através da Iris: “Divisor de águas”

Com Nathalia Timberg, texto sobre ícone da moda traz dramaturgia mais densa do autor


  • 10 de outubro de 2018
Foto: Rodrigo Lopes


Por Luciana Marques

*Entrevista também disponível em vídeo, abaixo.

Ao estrear sua quinta peça, Através da Iris, protagonizada por Nathalia Timberg, Cacau Hygino vê como um divisor de águas na sua carreira de autor. “Estou com uma dramaturgia mais profunda, diferente da comédia que estou acostumado a fazer”, conta ele, que já escreveu Herivelto Como Conheci, com Marília Pêra; 100 Dicas Para Arranjar Namorado, com Daniele Valente; Liza, Lisa e eu, com Simone Gutierrez; e Deu a Louca Na Branca, com Cacau Protásio.

Com estreia nesta quinta, dia 11, no Teatro Maison de France, no Rio, o espetáculo tem direção de Maria Maya e marca o início das comemorações pelos 90 anos da atriz Nathalia Timberg, que se completam em 2019. “Quase caí duro quando ela aceitou fazer”, diverte-se Cacau. Timberg interpreta a novaiorquina Iris Apfel, de 97 anos, ícone mundial da moda, que tem como lema More is more, less is bore (Mais é mais, menos é chato), uma brincadeira com o a expressão Menos é Mais.

Na entrevista ao Portal ArteBlitz, Cacau conta como descobriu a história de Íris e narra a sua saga até o encontro com a senhorinha em Nova York. Ele também fala do lançamento da biografia de Zezé Motta e do filme Lucicreide vai pra Marte, em que atua com Fabiana Karla.

Com Nathalia Timberg, de Iris Apfel. Foto: Rodrigo Lopes

Como você descobriu a Iris?

É até muito engraçado isso porque a Iris tem aversão a internet. E justamente a encontrei no Instagram, vi uma foto dela, fiquei encantado com aquele visual e fui correr atrás pra saber quem era aquela velhinha excêntrica, com aquele óculos, roupas coloridas. E descobri um documentário dela, A Ave Rara da Moda! Porque a história dela, como se transformou numa fashionista é muito interessante. Ela era designer de interiores, inclusive restaurou a Casa Branca durante nove mandatos diferentes de presidentes. De repente, fizeram uma exposição das roupas dela e descobriram uma artista ali! E ela explodiu pro mundo como uma fashionista.

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É verdade que foi uma verdadeira saga encontrá-la?

A Iris é uma estrela da moda internacional, mas é uma senhora de 97 anos, não tem um assessor de imprensa, até porque foi aos 80 anos que ficou famosa. Ela não tem alguém que cuide da vida dela, tem um advogado e uma empregada que mora com ela. Fiquei dois meses atrás dela. Primeiro descobri um endereço na Park Avenue, um amigo que vive em Nova York foi até lá e confirmou que ela morava ali! Fiquei mandando cartas e cartas, e nenhum retorno. Até que achamos um telefone na internet, era de Miami. Uma pessoa atendeu e disse que ela tinha acabado de ir para Nova York. Aí nos passou outro número, ficamos ligando, ligando, e nada! Aí falei com meu amigo que mora lá, e pedi para ligar do número dele. Não deu outra! Ele ligou e ela retornou! E assim começou todo processo de contato com a Íris.

 

 

Como foi o encontro com ela?

Ela me recebeu muito bem, fiquei até surpreso porque eu esperava encontrar uma americana de business total, porque ela é Business! Ela é uma 'senhora propaganda' Hyundai, tem linhas de maquiagem da Mac, de óulos, de roupas... Eu pensei: 'Essa mulher é um produto e não vai receber um brasileiro assim na casa dela'. Mas ela topou me receber em uma data específica em que eu estaria em Nova York. Mas bem nessa semana, ela desapareceu! Mas na véspera de eu voltar ela ligou e falou: 'Vocês querem vir aqui hoje? Porque eu estava internada com pneumonia'. Então ela queria me atender. Fui até a casa dela com esse meu amigo e o Marcus Montenegro, levei os meus livros e um presente para ela, um colar bem estilo Iris Apfel, e comecei a me apresentar. Não tinha frescura, chatice, foi tudo muito fácil, tranquilo. Ela queria saber o que era o projeto e ficou lisonjeada de eu homenagear ela no Brasil. Prometi de enviar à peça pra ela, traduzir, ela leu depois, tudo ok, e fechamos a parceria aí.

Foto: Rodrigo Lopes

E como você chegou na Nathalia Timberg para viver a Iris?

Foi uma surpresa pra mim. Na verdade, tinhan passado alguns nomes de atrizes na minha cabeça. Só que um dia eu vim ao escritório para uma reunião e a Nathalia estava aqui. E eu já tenho uma relação com ela de alguns anos, fiz a biografia dela... E quando olhei para a cara da Natalia, ela estava com um óculos igual ao da Iris Apfel, e com o cabelo branquinho. Ohei pro Marcus Montenegro e falei: 'Ela é a Iris Apfel!' E aí mandei o texto, mas pensei, essa peça não é o perfil da Nathalia, ela não vai querer, é muito moderna, ela gosta de textos clássicos, fortes, densos. E para surpresa minha, no final do dia ela já tinha lido tudo e falou: 'Me interessa muito essa personagem, vamos fazer!'. Eu quase caí duro! E assim começou todo processo com ela, aí convidei a Maria Maya, uma super diretora, moderna do jeito que eu queria. E foi uma parceria incrível porque a Maria me abriu os horizontes para outras coisas que eu não enxergava.

É uma peça que tem uma dinâmica também diferente no palco, né? Explica isso um pouco...

Não é uma peça que vocês estão acostumados a ver, esse é um documentário cênico, uma coisa mais moderna, foi uma invenção nossa, uma pegada da Maria Maya. A gente não queria fazer um monólogo tradicional, a gente queria fazer como se fosse uma coisa muito atual de hoje em dia, os documentários, as séries... Então, a Nathalia Timberg aparece fazendo um documentário em cena e, de vez em quando, ela sai desse documentário e vai pra vida dela.Vocês vão ver esse vai e vem, muito moderno! E tem muito videografismo dos irmãos Vilarouca, eles são craques. Esse videografismo entra na vida da Nathália, então o visual, é tudo muito lindo tud! O texto, modéstia à parte, está bem legal, e a direção maravilhosa.

Com a diretora Maria Maya e Nathalia Timberg. Foto: Rodrigo Lopes

Você já tem uma bagagem como autor, fez muita comédia. Acha que esse texto vai marcar uma nova fase para você de escritor?

As pessoas estão até falando isso comigo, quem está acompanhado o processo. Já escrevi algumas peças, mas mais do meu lado de conforto que é a comédia, para mim é mais fácil e eu gosto! E essa peça eu acho que vai ser um divisor de águas na minha vida, vai ser o salto para mim. Porque eu estou com a dramaturgia mais profunda, uma dramaturgia diferente do que eu faço. Eu estou lidando com uma estrela do teatro, com uma super diretora do teatro moderno. Então, acho que isso vai mostrar um outro Cacau na escrita.

O escritor Cacau ainda tem mais novidades?

A escrita está sempre me cercando. Tenho agora um próximo livro que eu vou lançar que é sobre a vida da Zezé Motta, uma biografia, um livro de memórias da Zezé. É muito interessante porque a gente conta coisas que as pessoas não sabem, muitas história de bastidores de filme, do teatro. Lanço agora no final de outubro, início de novembro. Já lancei algumas biografias, da Irene Ravache, da Nathália Timberg, da Virna, jogadora de vôlei, e vou lançar também da Nicette Bruno no ano que vem.

E o Cacau ator?

Hoje em dia o Cacau escritor me toma muito tempo e eu gosto! Então, como ator, faço coisas quando realmente acho legal. O meu próximo trabalho é com Fabiana Karla no filme Lucicreide vai à Marte. Lucicreide é um personagem da Fabiana que estourou ela pro Brasil, na Escolinha do Professor Raimundo, no Zorra Total. E o filme é uma competição de cinco integrantes querendo morar em Marte, um padre, que eu faço, uma modelo, a Lucicreide, uma esotérica e um cara meio biruta, drag queen! Esse filme a gente gravou em Recife no ano passado, depois nos Estados Unidos, em Las Vegas, na NASA. E fizemos o voo gravidade zero, que não é uma simulação! A gente é isolado num hotel, voa a 55 mil pés, esse avião despenca 15 vezes para dar gravidade zero! Eu que sou um cara que morro de medo de avião, não sei se fui muito preparado, mas eu amei e queria fazer de novo!

Através da Iris: Documentário Cênico. De 11/10 a 16/12. (excepcionalmente dia 11/10, às 20h30). Teatro Maison de France. Av. Pres. Antônio Carlos, 58, Centro, Rio. Quintas, às 17h; sextas e sáb., às 19h30; e dom., às 18h. R$ 80,00. Duração: 60min. Classificação: 12 anos.



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