A história de Claudia Mota, primeira bailarina do Municipal

“Me sinto vitoriosa num país que não apoia a cultura”, diz ela, coreógrafa da Imperatriz


  • 08 de fevereiro de 2018
Foto: Deborah Oliveira


Por Luciana Marques

Você já deve ter ouvido alguma vez a frase “Não é fácil a vida de bailarina”. Que o diga Claudia Mota, há 10 anos no posto de primeira bailarina do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, e há 21 anos como servidora da casa. “Você nunca vai ter um dia 100% incrível, maravilhoso só quando está em cena, porque o que acontece por trás do palco, costumo dizer que é glamour zero. É uma profissão muito difícil, continuar nela, só amando muito”, avalia.

Na entrevista, Claudia também conta como dribla a crise do Theatro Municipal do Rio, que teve canceladas todas as apresentações da temporada 2017 por falta de verba, e atrasou os salários de servidores. Mas, por outro lado, se sente a profissional mais feliz do mundo pela oportunidade de dançar neste templo sagrado da arte no Rio. “É uma consagração!”, avalia ela, que conheceu o marido, o primeiro solista Edfranc Alves, no próprio Theatro. Claudia também fala de sua empolgação com o Carnaval. Pelo segundo ano, ela coreografa a comissão de frente da Imperatriz Leopoldinense. 

"Primeiro bailarino é o líder do corpo de baile, quem está à frente, quem conta a história. Mas, costumo dizer que um depende do outro. O corpo de baile não é ninguém sem o primeiro bailarino e vice-versa."

Com o primeiro bailarino do Teatro Cólon, Federico Fernandez. Foto: Carlos Villamayor

Início na dança

Aos 4 anos, pedi para minha mãe me colocar no balé. As minhas amigas todas faziam, só que eu continuei e elas não. Na Academia Valéria Moreyra, onde comecei, passei a me destacar. Quando tinha 8 anos, a tia Valéria, como eu a chamo carinhosamente, disse para a minha mãe: 'Ela tem talento e gosta, acho que a gente pode investir na Claudia'. E a aconselhou para eu fazer audições para a Escola Estadual de Dança Maria Olenewa, que é a escola oficial do Theatro Municipal do Rio. Na época, eu fazia ginástica artística também, e gostava. Mas como a escola de dança absorvia uma carga horária grande, tive que fazer uma opção, ainda mais que comecei estágio no Municipal. Mas foi quando entrei para o corpo de baile do Theatro, que me deu aquele clique: 'Acho que é isso que realmente quero para a minha vida”.

Primeira bailarina do Theatro Municipal

É um cargo de muita responsabilidade. Para chegar até ele, a gente passa por várias etapas. O ideal é que você tenha um vasto repertório, experiência. Tem que estar apta a interpretar todos os balés, os clássicos, os papeis, com grau de dificuldade ou não. Passa pelo estágio, corpo de baile, segunda solista - meio que um corpo de baile líder, primeira fila -, primeiro solista - começa a desempenhar os papeis solos e de mais destaque -, até chegar ao primeiro bailarino, que é o líder do corpo de baile, quem está à frente, quem conta a história. Mas, costumo dizer que um depende do outro. O corpo de baile não é ninguém sem o primeiro bailarino e vice-versa.

Com o marido, o bailarino Edfranc Alves. Foto: Reprodução Instagram

Posto mais alto do balé

Quando entrei para a escola Maria Olenewa, lembro que a minha avó me levou à primeira aula. Ela disse, minha filha, você está entrando para uma carreira que é árdua, de muita disciplina. E eu disse, mas, vó, é isso o que quero. E eu vou chegar ao corpo de baile do Theatro. Mas nunca falei que ia chegar a ser primeira bailarina. E isso foi algo natural. Além da dificuldade do trabalho, de você matar um leão a cada dia, de trabalhar duro, tem a parte da espera, a burocrática. É um cargo público que você depende da aposentadoria ou da retirada de algum primeiro bailarino para preencher a vaga. Mas aconteceu, e acho que foi na hora certa, em um momento da carreira que eu já tinha desempenhado todos os grandes balés. E a primeira vez que dancei como primeira bailarina foi O Lago dos Cisnes. Eu já tinha feito. Veio como uma responsabilidade, mas não levei como peso. Hoje, sou a única na ativa. Mas só lembro que sou primeira bailarina quando alguém me fala. Não é que não goste, é que o balé faz tão parte da minha vida, acordo balé, passo o dia balé, vou dormir balé.

"Os três balés mais importantes, que vieram em momentos especiais da minha vida e carreira são: Giselle, Lago dos Cisnes e Onegin."

Balés mais importantes

Todos são muito especiais, cada um tem a sua história. Mas tem três balés que são muito especiais para mim. Um é Giselle, é o que mais amo fazer, e foi o balé que me premiou como a melhor bailarina da América Latina. O outro é o Lago dos Cisnes, que logo que a gente começou a ensaiar, na versão da Natalia Makarova, ela estava aqui ensaiando a gente, e queria que eu fizesse o primeiro papel. Mas na época achei que não estava preparada, expliquei a ela, mas fiquei na sala vendo os ensaios. Dois anos depois, fiz o papel, na versão da minha querida mestra Eugenia Feodorova. O terceiro é Onegin, que tem a personagem Tatiana, bem real, uma história de amor mal resolvida. E é um balé que eu amo fazer, muito maduro.

Com o solista do Teatro Scala de Milão Andrea Volpintesta. Foto: Henrique Pontual

Palco do Municipal

Acredito que para qualquer bailarino brasileiro ou até mesmo do exterior, é um sonho. Acho que é uma consagração estar aqui. E poder fazer parte de um corpo de baile que tem uma história incrível, grandes nomes da dança já passaram aqui, é viver um sonho eterno. Por mais que você passe por dificuldades, por ser um órgão público, o encanto disso aqui, quando você entra, parece que não tem problema, deixa tudo fora, você está aqui com o coração aberto. E é assim que eu venho todos os dias, com o coração aberto, amo esse lugar, é a minha casa, o cheiro do teatro é o cheiro da minha vida. Tenho grandes oportunidade de dançar fora, mas não me vejo fora daqui. Como toda a família, a gente tem problemas, mas consegue resolver em família. Fazer carreira aqui no Brasil e chegar no posto máximo de uma categoria, isso é viver um sonho. Conheci o meu marido aqui, ele é primeiro solista do Theatro, o Edfranc Alves. Então, esse Theatro me deu tudo, a minha família, carreira. Minha irmã, Priscilla, é primeira solista, o Rodrigo Negri, meu cunhado, também.

Crise do Theatro Municipal

Essa crise pegou a gente muito despreparado psicologicamente, emocionalmente. Foi um abalo financeiro, emocional e artístico, porque ficamos o ano inteiro de 2017 sem apresentar a nossa temporada oficial. E por representar uma classe, achei que, nesse momento, deveria me entregar 100%, não só ao Theatro, como a classe, porque no Brasil você viver de balé é quase um desafio que parece que você entra para perder. Mas sempre fui positiva, no sentido em que sempre acreditei e confiei no talento brasileiro. Tanto que a gente tem vários bailarinos mundo afora que não tiveram oportunidade aqui ou optaram por fazer carreira fora, justamente porque o Brasil é um País que não apoia como deveria a cultura, a dança, o balé. Por isso me sinto uma vitoriosa, por ter chegado onde cheguei, fazendo carreira num País de terceiro mundo. E como esse Theatro é uma instituição que me deu tudo, meu nome, e através dele consegui fazer trabalhos fora, achei que precisava me doar. E a forma que encontrei foi fazendo as ações do S.O.S. Municipal, entrevistas para o mundo inteiro, me expondo, me colocando a disposição para qualquer ação. E faria tudo de novo. Só tenho gratidão por esse Theatro.

"Conheci o meu marido aqui, ele é primeiro solista do Theatro, o Edfranc Alves. Então, esse Theatro me deu tudo, a minha família, carreira. Minha irmã, Priscilla, é primeira solista, e o Rodrigo Negri, meu cunhado, também."

Ballet Gala Brasil

Era um projeto internacional, com colegas do Brasil e exterior. Mas, pensei, porque não fazer com colegas daqui? Sou diretora artística, e tem outros colegas solistas e primeiros bailarinos do Municipal e alguns contratados. Vamos dançar pelo Brasil inteiro, levando a arte do balé para quem não tem a oportunidade de estar nesse Theatro. A gente vai tentar fazer quando não estivermos em temporada, porque, se Deus quiser, nós vamos ter as nossas temporadas de volta. E é uma forma de a gente estar dançando também. Quero convidar outras pessoas.

Conselho a futuras bailarinas

Durante um período, tive vontade de abandonar tudo, o balé, a ginástica, estava numa crise de adolescência, os estudos estavam me cobrando muito. Só que era meu sonho, o que queria para a minha vida. E eu persisti, lutei, com muita disciplina, perseverança e força de vontade. Tinham dias que eu não queria vir de jeito nenhum, acordava com dor. Fiquei uns 10 dias sem fazer nada , só estudando. E aquilo me fez muito mal, precisava de alguma outra coisa para continuar respirando. E era o balé que me fazia falta. Mas se você realmente quer ser uma bailarina, tem que seguir em frente, firme, porque é difícil. E não é difícil só nesse período, vai ser difícil a vida inteira. Todos os dias vai ter alguma coisa que vai complicar, ser uma dificuldade. Ou um passo, um balé, um figurino, uma sapatilha, uma bolha, uma dor. No palco você tem todo o glamour do mundo, mas é uma profissão muito difícil, para continuar nela, só amando muito.

Com a comissão de frente da Imperatriz. Foto: Divulgação

Comissão de frente da Imperatriz Leopoldinense

O Carnaval é uma paixão da minha vida, desde pequena, frequento quadra de escola de samba. E minha família inteira é Imperatriz. Nasci em Ramos, onde fica a quadra. Mas jamais imaginei fazer a coreografia da comissão de frente e trabalhar com o primeiro casal da escola. Mas sou movida a desafios, aceitei e já é o meu segundo ano. Você lida com arte, cultura, mas é completamente diferente do balé. Fico praticamente sem férias, mas depois que começa a engrenar, vai para a avenida, a emoção toma conta. E no dia do desfile é aquela explosão. Uma emoção completamente diferente, mas muito grande, só quem vive aquilo, entende. Mas procuro não misturar as coisas. A disciplina do balé eu levo para esse trabalho, porque você consegue fazer um trabalho limpo, honesto, regrado. É massante, mas muito recompesador. Você ver o seu trabalho sendo aplaudido por milhões de pessoas e abraçado por uma comunidade inteira que acredita no seu trabalho... É uma adrenalina muito especial!



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