Reiner Tenente: De casa fantasma ao palco de grandes espetáculos

Após viver até em favela, ele se tornou referência no teatro musical e fundou escola


  • 28 de maio de 2018
Foto: Oseias Barbosa


Por Luciana Marques

* Entrevista também em vídeo, abaixo.

Fundador do CEFTEM – Centro de Estudos e Formação em Teatro Musical, com sede no bairro Glória, no Rio, Reiner Tenente costuma perguntar aos alunos “Qual o tamanho do seu sonho?”. Porque o próprio ator, uma das referências hoje no gênero, em cartaz com Musical Popular Brasileiro, no Teatro das Artes, em São Paulo, faz questão de informar que é uma profissão muito instável.

E lembra que há um custo para isso, de investimento financeiro, de energia, de dedicação. “E tem que saber se está disposto a pagar isso para não ser enganado pela profissão, achando que vai ser tudo lindo, e que vai ter um nome no letreiro toda a noite brilhando e um cachê milionário, porque não é assim que a banca toca”, resssalta.

O próprio Reiner, que interpretou Roberto Carlos no sucesso Tim Maia – Valeu Tudo, O Musical, fez, entre outras produções O Grande Circo Místico, Billac vê Estrelas e Cantando na Chuva, com Claudia Raia e Jarbas Homem de Mello, lembra a sua saga. Aos 18 anos, o ator deixou Minas Gerais, para estudar teatro no Rio, morou em Ipanema e no Leblon, mas a empresa da família faliu, eles não tinham mais como custeá-lo e pediram para ele voltar.

Irredutível, Reiner decidiu ficar. Se mudou para a favela Chapéu Mangueira, no Leme, trabalhou em telemarketing, fez teste e passou para uma companhia de atores na Suécia, onde durante um tempo trabalhou na casa fantasma de um parque de diversões. “Super valeu à pena. Foi árduo, mas eu passaria por todos perrengues novamente”, diz ele, que comprou os direitos para montar o megasucesso americano Company, provavelmente no segundo semestre deste ano.

Um de seus maiores orgulhos, o CEFTEM, que está completando cinco anos, comemora a data com a produção e a realização de cinco musicais, em cartaz, no Rio: Sonho de Uma Noite de Verão, no Teatro Riachuelo, O Anti-musical, O Grande Circo Místico, em versões adulto e infantil, no Teatro Cesgranrio, e Godspell, no Teatro Serrador.

Com Érico Brás em Musical Popular Brasileiro. Foto: Felipe Panfili/Divulgação

Como surgiu a ideia do CEFTEM?

Sempre desejei ter um lugar em que pudesse estudar teatro musical, e no Brasil esse lugar não existia. Eu comecei a estudar com 18 e estou com 38, e há 20 anos atrás não existiam escolas assim. E comecei a perceber que outras pessoas tinham esse mesmo desejo. Então, comecei a dar aula de teatro musical, desenvolvi uma pesquisa voltada ao treinamento de atores para o gênero. Fui fazer um mestrado para embasar a parte teórica e prática. E fui percebendo cada vez mais essa sede dos alunos que queriam um local onde pudessem treinar e trabalhar artisticamente o canto, a dança, a interpretação e o sapateado. Todas as vertentes artísticas que compõem o teatro musical. Aí em 2013, aluguei uma salinha dentro de uma academia e comecei a dar umas aulas, e foi assim que nasceu o CEFTEM. Hoje temos a nossa própria sede, com quatro salas, sendo uma reversível, que pode virar um auditório para apresentações. E eu acho que é uma missão que eu tenho que cumprir, trabalhar com cultura e educação nesse país, e resistir a essa crise toda.

E como é ver hoje alunos seus já trabalhando profissionalmente?

Nesse período do CEFTEM, acho que já passaram por aqui umas mil pessoas. E é um grande prazer ver que vários deles seguem carreira, estão no mercado, e são colegas de cena. Você ver alguém que estava começando, na sala de aula, sendo seu aluno, passando pelas dificuldades de se tornar artista. Porque existe uma dificuldade do processo de treinamento, aprender a cantar, a dançar, a interpretar, e existe uma dificuldade psicológica também, já que vivemos num país em que a arte é colocada num lugar inferior. Então, para você decidir ser artista no Brasil, tem que ter uma determinação, um desejo muito grande. E ver esses colegas dividindo o palco com você é muito gratificante.

Em Cantando na Chuva. Foto: Caio Gallucci

Como é essa metodologia que você criou?

Eu comecei a ensinar teatro musical entendendo que a canção não é cantada por um cantor, é um texto dito em forma de música por um personagem. Então, o que acontece na formação do ator de musical no Brasil, normalmente, é ele aprender as vertentes de forma segmentada, a cantar num lugar, a interpretar em outro, a dançar em outro, e aí ele tem que colocar tudo junto na marra. A metodologia que pesquisei e elaborei trabalha a jornada emocional do personagem durante a canção. E eu faço um treinamento com os atores de expressão dessas emoções. O mais difícil é expressar essa emoção cantando, porque a técnica do canto te exige uma estabilidade vocal que, às vezes, a sua emoção pode desestabilizar. Então, como você adequa a técnica do canto com a emoção do personagem, fazendo com que elas dialoguem de uma forma consistente para contar uma história de uma forma verdadeira.

São mais de 20 anos de carreira, você fez a sua primeira peça aos 16... Como vê essa sua jornada, qual o filme passa hoje pela sua cabeça?

No início, como sempre, foi muito árduo. Não que as coisas melhorem muito, porque a instabilidade continua sempre. Costumo dizer que não existe nenhuma diferença de um ator extremamente experiente, com um jovem que está começando no mercado. Porque os dois têm que passar por audições, e quando acaba um trabalho esse ator experiente volta para o início da fila de novo, vai mandar material, fazer audição. Teatro musical é assim, alguns são convidados em alguns momentos, mas não é uma garantia. Então, o início da carreira foi muito complexo para mim, por causa das questões naturais de escolher a profisssão de artista no Brasil, e porque eu tive questões também financeiras durante esse processo. E para você estudar, precisa fazer um inventimento. Então, trabalhei de telemarketing para pagar minhas aulas de canto. Viajei, fiz um trabalho na Suécia em que assustava crianças numa casa fantasma durante 8 horas por dia. Peguei todo o dinheiro que ganhei em euro, que juntando dava uma grava incrível, e ao invés de me mudar da favela, paguei o professor de canto mais competente que tem no Rio.

Foto: Oseias Barbosa

É uma profissão bem instável, né?

Costumo perguntar para os meus alunos, qual o tamanho do sonho deles. O que estão dispostos a fazer em prol do sonho, porque tudo na vida tem um custo, de energia, de investimento financeiro, de dedicação. E o ofício do artista é algo tão especial e tão delicado, e a gente precisa entender que o custo para se tornar artista também é alto. É uma doação grande. É passar por uma profissão muito instável, isso tudo é um custo. E aí tem que saber se a gente está disposto a pagar esse custo para não ser enganado pela profissão, achando que vai ser tudo lindo, porque a realidade não é assim.

Mas, no fim, valeu a pena?

Super valeu a pena. Eu faria tudo de novo, passaria por todos os perrengues novamente. E tem uma receita que eu acho que é muito básica e que eu também passo para os meus alunos, que é a lei de causa e efeito. Existe uma lei que é imutável, igual à da gravidade, se eu faço uma causa, eu tenho um efeito, então, eu preciso fazer várias causas para ter o efeito do tamanho que quero. Eu preciso estudar, me dedicar, ser determinado, disciplinado e aí o efeito vem como consequência. Não dá para mensurar se ele vem amanhã ou daqui a um ano. Para mim, demorou 13 anos para eu fazer o meu primeiro musical do jeito que queria. Eu cheguei ao Rio em 98 e eu fui fazer o meu primeiro grande musical em 2011, o Tim Maia. Era o meu grande sonho fazer um musical em que eu pudesse dar o meu melhor, ter um salário digno, trabalhar com um bom diretor. Tem gente que consegue em dois anos, cinco, vai variar. Antes, eu tinha feito Roda Viva, Tico e Teco e Ratos de Sapato, Raul Fora da Lei, alguns musicais menores, ou com um participação menor, mas a primeira vez que eu consegui mostrar o meu trabalho de ator num grande musical foi em Tim Maia.

Com Tiago Abravanel em Tim Maia - Valeu Tudo, o Musical

Como as pessoas encontram o CEFTEM?

Tem o site www.ceftem.com , a fanpage também. E estamos super abertos para recebê-los se quiserem conhecer o espaço, bater um papo comigo, é só agendar, e entender como pode ser conduzida a sua carreira nesse processo da sua elaboração como artista. Porque o artista se constrói, ninguém nasce artista, ninguém nasce com dom, eu não acredito em dom, em talento, eu acredito em esforço. O que as pessoas chamam de talento, eu chamo de facilidade. Algumas pessoas têm facilidade para alguma coisa, mas isso não quer dizer que quem não tem facilidade não consiga aprender. As pessoas perguntam, ah, eu nunca cantei, sou muito desafinado, posso cantar? Pode, você vai treinar o seu ouvido, se tornar mais musical, pode levar um tempo maior do que alguém que já tenha essa musicalidade, mas isso é algo que se aprende. Se você tem voz para falar, tem para cantar, aprende igual a matemática, não tem um mistério muito grande. Tem muito trabalho.



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