Deborah Secco: “Se para a frente tudo der errado, já sou vencedora”

Destaque como a Karola, ela diz que vilã ainda é incógnita, cheia de dubiedade


  • 26 de maio de 2018
Foto: Globo/João Cotta


Por Luciana Marques

A menina de 8 anos de idade que já aparecia na TV fazendo comerciais, e sonhava em ver seu nome em destaque numa novela das 9, já realizou muito mais do que imaginava. Deborah Secco, que estreou aos 11 anos na trama Mico Preto, nunca mais parou. E o Brasil não só acompanhou o seu crescimento, mas a viu se tornar uma das estrelas mais requisitadas da Globo.

E depois de tantos papeis de destaque, tem deleitado o público com sua primeira grande vilã, a Karola, de Segundo Sol. “Ela é carismática e engraçada, mas ainda uma incógnita, cheia de mistérios e dubiedade”, avalia. A dobradinha com Adriana Esteves, a Laureta, atriz pela qual Deborah diz se inspirar e admirar muito, tem sido um show à parte.

Na entrevista, Deborah fala também do fato de o marido, Hugo Moura, com quem tem Maria Flor, de 2 anos, participar da mesma novela. E diz ainda que demorou anos para conseguir viver sabendo que nunca vai agradar todo o mundo, e que não precisa mentir para ser amada.

Karola (Deborah Secco). Foto: Globo/João Cotta

Quem para você, na verdade, é a Karola?

Ela é uma incógnita. Eu acho que não consigo decifrar ela, até agora estou tentando entender quem é essa mulher, tão cheia de mistério e com tanta dubiedade. É apaixonada por um, mas é amante de outro. Tem ali a Laureta na vida dela, que é o braço direito e esquerdo, mas que também tem um caso de ódio ali, as duas se odeiam, uma tenta passar a perna na outra. Então, estou tentando entender também. Mas é uma vilã carismática, engraçada.

E esse cabelão da Karola?

Na primeira fase, eu fiz ele mais cacheado e na segunda fase eu faço ele mais Kim Kardashian. Eu me inspirei em Ivete Sangalo, né? Porque eu acho que toda baiana quer ser Ivete Sangalo, esse cabelo liso e grande, ela é a minha musa inspiradora, Karola é um pouco mais perua que a Ivete.

Você saiu de uma mãe em Malhação, uma mãe um pouco doce, para um uma mulher cruel, dissimulada. Como é isso?

Mas você sabe que vem uma mãe muito doce aí, Karola é apaixonada pelo Valentim, acho que ela até beira o incesto sabe, porque é uma mãe muito apaixonada pelo filho, deita junto com ele, fica agarrada. Acho que minha mãe é assim comigo, é um amor fora do comum, eu sou assim com a minha filha, parece que a gente quer engolir de tanto amor. E acho que a Karola tem isso, além de amar o Beto loucamente, ela ama o Valentim. Ela vai defender essa família, que para ela é tudo que ela construiu, com unhas e dentes.

Foto: Globo/Paulo Belote
 

Você estava tomando conta da sua filha, tinha feito Malhação, um papel mais tranquilo. O que te fez abdicar disso para aceitar essa novela?

Já tinha passado os dois anos que eu tinha pedido, foi bem os dois anos. E Maria indo para o colégio, eu já estava na pendência com a Globo, uma novela do João Emanuel Carneiro, que eu acho um dos melhores dramaturgos brasileiros, uma personagem dessa, não tinha nem o que pensar. Só agradecer! Eu agradeço todo dia, eu falo: ‘Meu Deus do céu, será que eu vou dar conta? Essa personagem é muito boa para mim’.

Como é sua rotina, você liga toda hora para saber como a Maria está?

Eu ligo, eu tenho câmera em casa e eu fico aqui vendo. No momento, ela ainda está dormindo, chegou da escola, brincou um pouquinho e dormiu. Eu fico vendo assim, meu marido é muito parceiro, então, a gente divide. Eu sei que quando ela não está comigo, está com ele, quando ela não pode estar com os dois, está com a minha mãe.

O Hugo também está na novela. Como você recebeu na época a notícia?

Foi uma surpresa, porque ele fez o teste lá atrás, e a gente já tinha esquecido, porque acabaram me chamando e não chamaram ele. A gente meio que esqueceu. Ele já estava com outro projeto, outras coisas, e aí veio o convite e ele ficou super feliz. A gente ainda não contracenou, mas devemos nos encontrar. A Adriana falou que toda vez que eu passar por ele em cena vai falar: ‘Karola, você é casada!’. 

Vocês não tiveram esse medo em estar no mesmo produto?

Não foi opcional, a gente sempre tem medo, mas quando surgiu a proposta para ele, e é uma coisa que ele vem buscando há tanto tempo, é uma oportunidade tão incrível, com atores tão incríveis, com um autor tão incrível, com um diretor incrível. A gente sabe que vai ter que se desdobrar mais, porque estão os dois aqui, mas minha mãe está lá, a postos, e a Maria está na escola também. E dá medo, mas é o que eu tenho pensado muito assim ao sair de casa, eu quero que a Maria tenha muito orgulho de mim e dele. Então, a gente infelizmente não pode parar.

Com a filha, Maria Flor, e o marido, Hugo Moura. Foto: Reprodução Instagram
 

Você está fazendo a sua primeira grande vilã, e na trama divide essa vilania com a Adriana Esteves, como é que é isso, acha que é mais fácil?

Com certeza. E, ao mesmo tempo, muito mais difícil, porque eu tenho um padrão de qualidade muito mais elevado para seguir. A Adriana é de um talento sem igual, e a gente se admira mutuamente. Ela me ajuda muito e a gente tem uma parceria incrível, outro dia ela fez uma super declaração para mim falou: ‘pô, com você as cenas não param, a gente troca, as coisas fluem’. E, de fato, a gente se deu muito bem. É incrível o João dividir essa vilania. A Karola não tem a mente tão maquiavélica para realizar todas as maldades. Ela tem ali a necessidade, o desejo, mas a mente brilhante é da Laureta, que está sempre por trás dela.

 

Falando dessa parceria com a Adriana Esteves, e ela vem de uma novela do João Emanuel... Passou pela sua cabeça de se inspirar no que ela fez com a Carminha?

Eu já me espelho na Adriana sem querer há muitos anos, a Darlene foi toda inspirada na Sandrinha (Torre de Babel, 1998). Por acaso, a Adriana é alguém que me inspira muito, acho a forma dela de interpretar muito perto do que quero conseguir. Então, a Catarina do Cravo e a Rosa, eu me inspirei muito, a Natalie (Insensato Coração, 2011) era um pouco Catarina. Claro que quando chegou essa personagem, é inevitável não pensar na Carminha, como pensei na Flora, de A Favorita, como pensei na Laura, de Celebridade’. Eu pego as vilãs que admiro e fico pensando o que eu posso roubar de cada uma. Mas a Adriana, surpreendentemente é muito parecida comigo, a gente é de sagitário, a gente é super insegura, a gente é muito tensa. É muito texto, a gente acha que não vai dar conta, então, a gente tem essa coisa de ser 'caxias', de ficar tentando dar o nosso melhor. Além de a gente estar dividindo as cenas, a gente ainda está dividindo todos os nossos conflitos momentâneos.

E vocês, às vezes, até coloca isso no próprio corpo, a Adriana mesmo emagreceu horrores na Carminha, né?

Eu nunca botei isso de tensão, sempre coloquei no corpo quando é necessário. Eu fui fazer o filme Boa Sorte, e precisava perder 11 kg, um sacrifício da porra, perdi. Depois, no mesmo ano, tive que engordar 18 kg e engordei 17 kg para fazer um outro filme. Eu não tenho muito esse apego, adoro esses desafios físicos. Todo mundo me diz agora: ‘Nossa, você está ótima, o que fez?’. E eu não estou fazendo nada. Não faço dieta, voltei a malhar porque estava com dificuldade de brincar com a Maria, perdendo o folego e aí o Hugo falou: ‘volta a malhar!’. Tem sido realmente muito bom. Mas acho que a minha rotina de mãe, eu não sou uma mãe que vê televisão com a criança, eu sou uma mãe que subo em árvore, que escorrega, brinco de pique e isso realmente deve estar me fazendo emagrecer, porque eu estou comendo um mundo e não estou engordando.

Karola (Deborah Secco) e Laureta (Adriana Esteves). Foto: Globo/João Cotta
 

O Danilo Mesquita comentou que o personagem dele, o Valentim, não gosta de a Karola ser tão consumista. Como é que está sendo essa construção para você?

Sim, eu acho que é o grande conflito dela com o filho e com o Beto. Ela é muito ambiciosa, meu apartamento é tipo o estúdio inteiro, é a casa da Ivete Sangalo (risos), corredor da vitória, uma cobertura muito bombada. É porque o prédio é na mesma rua que o dela, né? E ela fala que é vizinha de Ivete e ela quer, né? Ela está querendo chegar lá.

Você falou em insegurança no trabalho e tal, você passa para outras áreas da sua vida, se pergunta se está sendo uma boa mãe, se está dando conta?

Não sei se isso só se estabelece comigo, mas desde que minha filha nasceu, tudo que acontece de errado com ela, acho que a culpa é minha. Trabalho todos os dias para não obcecá-las com as minhas inseguranças. Mas acho que antes da Maria Flor nascer, era só profissionalmente que eu tinha isso. Depois, quando vejo novelas recentes, não gosto, eu gosto quando vejo muito depois. Tipo Celebridade, agora, eu estou me achando ótima, eu sofria tanto, chorava achando que estava péssima, e estou ótima. Depois que passa um tempo, acho que você para de se avaliar e de se ver como pessoa interpretando.


E como é que você resolve isso?

Eu não resolvo, deixo viver. Eu sinto que tem uma energia boa que protege, que faz com que as pessoas vejam diferente do que eu vejo. Só pode ser isso.

Você tem uma carreira muito bem-sucedida, acha que essa vilã é a cereja do bolo?

Eu não posso dizer que é a cereja do bolo, porque vou estar sendo injusta com tudo que eu já fiz de cereja de bolo. Eu já fiz muitas, muitas coisas que não esqueço. A Íris foi uma super cereja, a Darlene (Celebridade), a Bruna Surfistinha... O Boa Sorte é um filme que artisticamente talvez eu nunca tenha feito nada parecido, o Bruna é um filme que me colocou num lugar que talvez nada na vida me coloque, é um filme que iguala. O público de todas as idades me reconhece por esse personagem, diferente de novela que vai muito pela faixa etária. Então, acredito e rezo todos os dias, acredito muito que esse personagem tem tudo para ser um daqueles marcantes, que eu vou lembrar para sempre.

Deborah Secco e o marido, Hugo Moura. Foto: Globo/Paulo Belote
 

Mas você sentia a falta de fazer uma grande vilã das 9?

Eu nunca pensei muito no que eu queria fazer, porque, de verdade, quando eu sonhava, ainda menina em ser atriz, nos meus melhores sonhos eu não sonhava nem com metade do que eu já fiz. Então, falo que já ganhei dos meus sonhos, mas de muito. Se tudo der errado daqui para frente, eu já sou muito vencedora, porque venci tudo que eu sonhava impossível. Quando era menina, falava ‘gente, vou fazer uma novela das oito e meu nome vai ser o primeiro a aparecer’. Então, tudo que sonhei criança, já realizei enormemente, muito mais, e aí é claro que a gente fica pensando: ‘E falta o quê?’. Nunca tive isso de me falta alguma coisa, sempre fiquei aberta, já sou grata a tudo que aconteceu, tudo que eu já fiz, aos grandes personagens. Se vier mais alguma coisa, vou receber, juro que vou me dedicar, que nem aquela menina de oito anos que acha que não sabe fazer nada e vai se dedicar ao máximo ao primeiro trabalho.

Você como uma boa sagitariana, é muito transparente. Você se arrepende de alguma vez de ter se aberto demais em entrevistas, por exemplo?


Se tem alguma coisa que me faz ter orgulho de mim, é não ter vergonha de errar, de voltar atrás, pedir desculpas e, graças a Deus, não preciso mentir para ser amada. E isso é um alívio. E demorei muitos anos para conseguir viver sabendo que a gente não vai agradar todo mundo. Mas a gente não precisa mentir. Hoje em dia, luto muito para que as pessoas aceitem essas diferenças, se eu não penso como você, infelizmente não chegaremos num consenso, mas não deixaremos de ser amigos, nem de nos gostarmos. Então, acho que sempre lido com a verdade, e a minha forma mais polêmica de falar e tal, é porque acho mesmo que a gente tem que brigar pelo que a gente acredita. Eu sou uma pessoa que vim de um lugar muito lá de baixo, consegui chegar onde cheguei, alguma coisa eu devo ter aprendido com isso.


Quando foi a última vez que você mudou de opinião? Porque você falou que sempre está mudando. A última mais marcante...

Geralmente, mudo muito de opinião em relação à Maria, esses dias mesmo estávamos debatendo eu e o Hugo a importância da rotina, dela almoçar todos os dias no mesmo horário, tomar banho. Só que a Maria tem chegado da escola muito cansada e ele acha que ela não precisa almoçar quando chega da escola, se ela diz que está com sono e vai dormir. Porque ela tem que almoçar chorando, se esperneando e depois tomar banho do mesmo jeito, se ela falou: ‘Papai, eu quero dormir’. Então, ela vai dormir primeiro, depois vai acordar, almoçar e tomar banho. E aí é uma crise, porque minha mãe fala ‘Não, tem que ter rotina’. Então, eu, de fato, ontem mudei de ideia, estou com ele, saca? A gente tem que aprender ouvir, porque, às vezes, a gente acha que sabe tudo e não sabe, e a criança está aí para dar aula para a gente, Maria dá aula para mim. Hoje ela já fala e já explica: ‘Estou muito cansada, preciso descansar um pouquinho, mamãe’.



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