Fernanda Montenegro: “Quem acredita na fama está perdido”

Atriz diz que aguarda se Mercedes e Josafá só vão ficar de mãos dadas ou irão adiante


  • 22 de abril de 2018
Foto: Globo/Raquel Cunha


Por Luciana Marques

Ela não gosta de ser intitulada diva, dama... Mas o certo é que Fernanda Montenegro, no ar como a mística Mercedes de O Outro Lado do Paraíso, merece todos os títulos relacionados à sua vida na arte. E em se tratando de atriz está num patamar acima. Com 70 anos de carreira, já concorreu ao Oscar de Melhor Atriz, em 1999, por Central do Brasil, e já venceu o Emmy Internacional, pela atuação na série Doce Mãe, em 2013.

Mas tudo isso nunca mudou a essência de Fernanda. Ela é uma atriz que venera o palco, a atuação, no sentido mais puro, e que não tem nada a ver com fama. E dá uma lição de humildade ao falar sobre o assunto. “Às vezes, as pessoas pensam que quando você chega nessa glória, tudo vai ser fácil. Mas não é. Todo dia é um recomeço”, ensina.

A atriz de 88 anos ressalta a importância que o autor Walcyr Carrasco teve na atual trama das 9 de escrever papeis importantes para cinco atores na mesma faixa de idade dela. “Isso é absolutamente novo na teledramaturgia”, ressalta.

Leia a entrevista e reverencie ainda mais Fernanda Montenegro!

Mercedes (Fernanda Montenegro). Foto: Globo/Raquel Cunha

O que a personagem Mercedes mais ensinou para a senhora?

A Mercedes é um personagem totalmente novo na minha vida de televisão. Achei mais do que interessante, um desafio. E adorei fazer uma velhinha rezadeira porque eu sempre fazia as ricas, as bandidas ou as senhorinhas honestas (risos). Essa personagem tem essa mística bem brasileira. Agradeço por terem me convidado.

A senhora tem um lado bastante espiritualizado como ela?

Ela tem uma mística que eu acho que tenho. Santo Agostinho diz que se você duvida, você acredita, e eu acho que a Mercedes tem um místico muito amplo, que é do povo brasileiro, da nossa crença popular. Eu tive uma formação no catolicismo e o meu bisavô rezava para se acalmar, sempre dentro dessa estrutura mais católica.

Qual foi a melhor cena que a senhora gravou até agora?

Essa novela trouxe cinco atores que estão indo de muleta para 100 anos. Tem a Nathalia Timberg, a Laura Cardoso, o Lima Duarte, eu caminhando para os 90, e o Juca de Oliveira. Tem também os que estão caminhando dos 60 para 70, mas isso ainda é adolescência (risos). Essa novela é corajosa porque colocou personagens importantes e que tiveram espaço nas nossas mãos. Não foi só para colocar uma senhorinha para fazer cenas de transição. O Walcyr Carrasco deu esse espaço para nós que estamos caminhando, saindo dos 90. Isso é absolutamente novo na dramaturgia. Não tem, na história, cinco atores velhos numa novela.

Foto: Globo/César Alves

A senhora acha, então, que o Walcyr Carrasco está ensinando que não se deve esquecer de quem já fez muito pela arte?

Eu acho que o folhetim, que é a base das novelas, requer um leque de idades porque se fala de uma estrutura da classe média ou aristocrata etc. A TV é um meio de uso desse leque de idades, toda novela tem desde a criança até o velhinho. Tem que ter uma geração plena e uma que está começando.

A cena do casamento da Mercedes com Josafá (Lima Duarte) foi muito marcante, não é?

Pois é. Estou esperando o autor resolver se a gente vai ficar só de mãos dadas ou se a gente vai adiante (risos).

Outra cena importante foi quando a Mercedes fez um pacto com a morte, para não levar o Josafá, foi muito emblemática. Se você tivesse o poder de trazer alguém de volta à vida, traria o senhor Fernando Torres?

Ah, traria! Sem dúvida, traria o Fernando porque foram 60 anos de vida com muita cumplicidade, não só da porta de casa para dentro, mas principalmente na nossa profissão. Na potência que ele tinha, como homem de teatro, é marcante. Enquanto ele viveu, foi do teatro, da coxia até o espectador. Quando ele morreu, assumi isso durante um tempo, depois a vida me levou para o cinema e para a televisão. Mas se eu tivesse que fazer uma chamada de companhia eterna, seria o Fernando.

A cena do casamento lembrou o seu?

Meu casamento foi há muitos anos. Conheci o Fernando em 1953. Nós namoramos, cheguei a noivar, casei de vestido de noiva protegido, hoje as noivas se casam quase com os seios de fora (risos). Foi uma vida encontrada não só nas particularidades, como também numa vocação mítica. Criamos nossos filhos nos palcos e eu acho que só tenho a agradecer, como diz a Mercedes, a Deus.

Poliana Abritta entrevista Laura Cardoso, Lima Duarte e Fernanda Montengro, no Fantástico. Foto: Globo/Raquel Cunha

Em outubro, no seu aniversário, será lançado o seu livro de memórias. Como está sendo voltar ao passado?

Nós já estamos trabalhando nesse livro há quatro anos porque são 63 anos de vida pública. Ali tem o que sobrou de fotos da vida particular. Comecei no rádio com 15 anos. Aos 19, cheguei no palco, mas o palco acabou logo e a televisão já começou. Na época, tinha essa ambição altamente cultural e é tanta coisa, tantos anos. O livro é o que sobrou de fotos e o que eu juntei na vida de documentos importantes, os prêmios todos. Ele será lançado em agosto, na Bienal do Livro de São Paulo. Também estou preparando uma autobiografia para a Companhia das Letras, como se fosse uma longa entrevista da minha vida.

Tem algum momento, da sua vida, que você destacaria?

São muitos anos, muitas frentes. Eu seria injusta em destacar um momento porque foi sempre na alegria de estar fazendo a minha vocação, que é desafiadora. No palco, ou você é ou você não é, ninguém vai te salvar.

Você escrevia nessa época um diário?

Não. É muito interessante mexer nas memórias. Tem hora que você pensa que o assunto está esgotado, aí depois vem a lembrança de algo que aconteceu. É infindável. A maneira que você vai dando toques na sua memória, isso vai abrindo uma série de outra possibilidades na história.


Como é que a senhora enxerga esse momento em que estão querendo desregulamentar a profissão do ator?

A profissão continua, o que se discute é a formação para se chegar a ela. Eu acho que no vale de lágrimas que é a nossa profissão, toda maneira de amor é válida. Eu acho que vale a escola e vale o sindicato.

 

Mercedes (Fernanda Montenegro). Foto: Globo/Raquel Cunha

Hoje o feminismo está em alta. Como a senhora vê isso?

Acho que a batalha do feminino é importante, somos todos criaturas, independente de sexos. Tenho muito isso dentro de mim. Durante séculos, as mulheres não iam para a cena e a partir do momento que vieram para a cena, foi um dos maiores ganhos do feminismo. Na cena, ela pode ser melhor que o homem, ele pode ser melhor que ela. O teatro necessita desse choque, da crise, da sexualidade. Em princípio, o espaço da existência teatral não tem sexo. Mas imagina isso nos velhos tempos, em que você não votava, uma viúva não podia chegar na janela sozinha, uma jovem tinha que ser virgem. Isso tudo já foi vencido.

Se a senhora tivesse o dom da Mercedes, que previsão gostaria de fazer para o Brasil?

A Mercedes tem que rezar muito! Ela ficou com uma metade da vida dela e deu a outra para o Josafá. Ela vai ter que tomar a metade que deu, pegar a metade que sobrou e eu acho que nem isso resolveria o problema.

A senhora considera a prisão do Lula política?

Tudo na vida é política. Não vou entrar nessa temática, mas tudo na vida é política.

No início da novela, a senhora disse que seria um grande desafio gravar uma novela com produção cinematográfica. Qual é o balanço agora?

É extremamente exaustivo. Essa novela das 21h é praticamente um longa por noite.

Alguns atores mais novos ficam nervosos para gravar com você. Como tem sido a troca?

Eu acho que isso representa um reconhecimento a uma sobrevivência dentro de uma profissão que eles estão chegando. Eu sobrevivi e devo ter alguma qualidade a ponto de ainda estar agindo. Quando um jovem vocacionado olha para um ator que sobreviveu, é como no meu tempo, quando eu tinha 15 anos. A Bibi Ferreira me inspirou, foi uma das minhas referências.

Mercedes (Fernanda Montenegro) e Cleo (Giovana Cordeiro). Foto: Globo/Raquel Cunha
 

Como a senhora lida com a fama?

Você luta para fazer uma profissão e depois essa profissão te traz prestígio. Esse prestígio pulsa, tem solicitações de toda ordem, você sobrevive com duras penas. Essa glória é estranha. Às vezes, as pessoas pensam que quando você chega nessa glória, tudo vai ser fácil. Mas não é. Todo dia é um recomeço. O lado ruim da fama é a gente acreditar nela. Quem acredita na fama está perdido, vira massa de manobra, tem que estar alerta.”

Com essas novas tecnologias, a senhora já se acostumou, por exemplo, com as selfies?

No meu celular, eu só sei ligar para algumas pessoas. Não sei usar whatsapp, nada. Acho que daqui a pouco vou aprender. Mas ainda prefiro ler um livro. Quando tenho que decorar, pego o papel. Não sei como vai ser quando os capítulos não forem mais impressos. Por outro lado, é a era da ciência e da tecnologia e não vai ter volta. As pessoas que falam comigo, digo com alegria, não são invasivas. Geralmente, a aproximação é humanizada e não fico incomodada, vivo me exibindo. Qualquer tribo indígena tem aparelho de televisão hoje em dia. Tem o negócio da selfie, falam que a filhinha de três anos quer tirar foto comigo, mas eu sei que ela nem sabe quem eu sou (risos). Quando posso, tiro. Na maioria das vezes, não tiro selfie.

E o cabelo branco da Mercedes, pensa em manter depois da novela?

A Mercedes me deu isso de felicidade. É um conforto e eu acho que, a não ser que exijam que mude, é esse cabelo que vai ficar.

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