Rodrigo Fagundes diz não se achar tão engraçado

“Sou quieto! E tem gente que já me viu virado no jiraya.


  • 23 de dezembro de 2017
Foto: Rodrigo Lopes


Por Redação

Fotos: Rodrigo Lopes 

Durante 10 anos, ele divertiu o Brasil na pele do Patrick, com o famoso bordão Olha a Faca!, do Zorra Total. Atualmente, Rodrigo Fagundes, de 46 anos, encanta da mesma forma, mas num papel puxando mais para a linha dramática, vivendo o altruísta mordomo Nelito, em Pega Pega. “Ele é um dos personagens mais lindo que eu já fiz na minha vida. E olha que não tenho o que reclamar das coisas que fiz na TV”, diz o ator, que iniciou a carreira, exatamente, fazendo um drama, da autora inglesa Sarah Kane.

Na entrevista, esse simpático ator surpreende ao afirmar que não se acha engraçado e que, normalmente, é mais quieto, na dele. E, pasmem, cuidado, ele roda a baiana. “Pode perguntar a três ou quatro pessoas que já me viram virado nos jirayas. Tenho os meus demônios também...”, diverte-se ele, que, em 2018, pretende encenar a comédia Segredo da Mulher Macaca. Rodrigo fala ainda das saudades da avó, que faleceu há dois anos, e foi quem lhe inspirou no bordão Olha a Faca!, e o que ela representa até hoje em sua vida.

Assista abaixo no vídeo:

"O que mais aprendo com o Nelito e vou levar para a minha vida é a capacidade de escutar o outro. Geralmente, a gente quer falar da vida da gente, fazer selfie, ele, não, ele tira a foto do outro."

Fale sobre a experiência de viver o Nelito?

Ele tem algo que acho que as pessoas se identificam, o cuidado com o próximo. Não pensa nele. Se bobear, dá a vida pelas pessoas que ama. O que eu mais aprendo com ele e vou levar para a minha vida é a capacidade de escutar o outro. Geralmente, a gente quer falar da vida da gente, fazer selfie, o Nelito, não, ele tira a foto do outro. Ele tem uma fidelidade canina ao doutor Pedrinho, uma amizade linda, fraternal, de pai e filho mesmo. E a gente desenvolveu isso muito durante a preparação. Dizem, ah, ele é puxa-saco. Não! Aos poucos, foram percebendo que ele é feliz naquilo que faz. Ele atingiu o máximo que queria na vida, estar no trabalho que ama, servindo a pessoa que ama e podendo ajudar a quem precisa.

Foto: Rodrigo Lopes

Há semelhança entre vocês?

Tomo conta dos meus amigos, acho que sei cuidar um pouco também. Talvez não tanto como o Nelito, ele é mais invasivo. Eu vou tateando para ver até onde posso ir, gosto de conversar, minha casa vive cheia de amigos. Só não sei servir. Tive que aprender a usar bandeja, a coisa dos talheres. Uma vez, me peguei arrumando a mesa em casa, porque tem uma ordem nisso, a gente pensa que é frescura. E se você for pela etiqueta, tem uma lógica, facilita tua vida e aumenta o prazer de comer.

 Não tem um dia que saia na rua e não tenha alguém falando: ‘Olha a faca!', brincando comigo. As pessoas acham que isso para mim é um fardo. Não é, nunca foi. Patrick só me trouxe coisa boa, artisticamente, materialmente, socialmente."

Como acha que vai ser o final dele?

Eu faço uma novela que chama Pega Pega, mas o que mais a gente tem que fazer é “desapega, desapega”, porque o personagem não é nosso. Se não cada um teria uma novela. Eu achei que ele ficaria com a Cintia, personagem da Bruna Spínola . E quando eu soube que não ficaria... Sou muito sincero, levei um susto, fiquei triste, tomei as dores... Mas, ao mesmo tempo, se ficasse os dois juntos, cadê o conflito? E novela é conflito o tempo inteiro. Mas eu acho que ele merecia um amor, alguém que cuidasse dele mais do que ele cuida do outro. Mas acredito que ele vai ter um final bem inesperado. E se tem uma pessoa que merece ser feliz, é o Nelito.

Foram 10 anos de Zorra Total. Foi muito difícil abandonar o Patrick?

Ele vai estar na minha vida para sempre. Não tem um dia que saia na rua e não tenha alguém falando: ‘olha a faca’, brincando comigo. As pessoas acham que isso para mim é um fardo. Não é, nunca foi. Ele só me trouxe coisa boa, artisticamente, materialmente, socialmente. Acho até que fiquei tempo demais no programa e o personagem ficou bem mais famoso do que eu. O que acredito ser uma coisa boa, porque o ator deve aparecer pela obra que faz, pelo personagem. Não tive problema de parar de fazer, porque ele vem do teatro, de O Surto, onde fiquei 11 anos em cartaz. Por onde passo, as pessoas guardam ele com carinho, perguntam se vai voltar. Não sei. Se for dar uma resposta agora, diria que não tenho vontade de fazer ele agora. Mas não fechei essa porta. Quem sabe fazer um filme? Me pedem muito isso. Mas, por enquanto, tenho guardado ele num lugar muito gostoso das minhas lembranças.

Foto: Rodrigo Lopes

"Não sou muito de reclamar da vida. Tenho um pouco de consciência disso. Principalmente depois que perdi a minha avó. Quando penso em reclamar, porque não tenho motivo para isso, lembro dela, como me inspirou..."

Como surgiu o bordão Olha a faca!?

Quando a gente criou o espetáculo Surto, Patrick, na verdade, eram dois personagens. E acabou se fundindo em um só. E esse bordão veio da minha avó. Quando os meus pais se separaram, e a mãe ia trabalhar, eu e meus irmãos ficávamos na casa da vó. E nós tínhamos uma mania horrorosa de ficar na cozinha dela. Como tinha muito mosquito lá, a gente pegava um copo e prendia os mosquitos dentro, enquanto a vó estava dando aula particular. Quando ela chegava e via aquele monte de mosquito nos copos, falava: ‘sai da minha cozinha, sai para lá, olha a faca’. Sem faca na mão, claro, porque ela não era doida. Então, guardei muito aquilo. Quando fiz o personagem, ele tem essa coisa de ser criado por vó, de ser engomadinho, e pensei, vou botar isso, onde fica a agressividade dele, nesse lugar ingênuo. Tanto que nunca apareci segurando uma faca. Até porque tem muita criança que assiste ao programa.

Desde quando percebeu que a veia cômica ia ser forte na sua carreira?

Eu comecei fazendo drama, nem me acho engraçado, para falar a verdade. Às vezes, sou, mas na maioria das vezes, não. Se estou a vontade, faço umas brincadeiras. Comecei fazendo drama, Sarah Kaine, uma autora inglesa, que se matou com 28 anos, com um cadarço de sapato no hospício. Falando isso parece até que é engraçado... Perdão, Sara! Então, fiz Nelson Rodrigues, e fiz a peça Surto, um divisor de águas da minha vida, minha carreira. Começou em 2003, com Wendell Bendelack, Tatá Lopes e Flávia Guedes, todo o mundo saindo da CAL, desempregado. E pensávamos, vamos falar sobre o quê? Decidimos falar sobre a banalização que estava virando a nossa profissão, na época estava começando essa coisa de realities, a bunda mais bonita tinha destaque. Resolvemos brincar com isso, mal sabíamos que esse negócio ia proliferar mais do que ‘gremlins’. Aí a comédia veio disso, da crítica, da brincadeira, da bizarrice dos personagens. A gente ri da desgraça do outro, a comédia nada mais é do que você rir do vizinho. E quanto mais sério fizer, mais engraçado fica para quem está vendo. Assim surgiu a comédia na minha vida, não estava buscando, mas eu aceito, gosto.

"Eu mentalizo, jogo para o universo que um dia quero fazer um filme do Woody Allen, estudei inglês pensando em trabalhar com ele... Sou cara de pau a esse ponto! Woody Allen, please, hire me?"

Foto: Rodrigo Lopes

Você parece ser alto astral sempre, pelo menos é o que passa às pessoas. Ou você é mais recatado, quieto?

Vou falar a verdade... Pode perguntar a três ou quatro pessoas que já me viram virado nos jirayas. Tenho os meus demônios também, meus momentos. Tem dia que acordo de mau humor. Gosto muito de brincar também, se tenho intimidade. Mas, normalmente, sou quieto, fico na minha. Também não sou muito de reclamar da vida. Tenho um pouco de consciência disso. Principalmente depois que perdi a minha avó, há dois anos. Quando penso em reclamar, porque não tenho que reclamar de nada, penso nela, como ela me inspirou, como foi importante para mim.

Pelo momento em que o Brasil passa, está mais fácil ou mais difícil fazer humor?

Tem esse bordão novo do Zorra Total que diz ‘tá difícil competir com a realidade, mas a gente tenta’. A cada dia, principalmente na política, a gente vê cada coisa absurda, que a gente ri de nervoso. E essa coisa do politicamente correto, acho importante, sim, ter cuidado para não agredir o outro, apesar do humor ser cruel, a gente ri da desgraça do outro. Isso é da gente, é humano. Eu tomo muito cuidado para fazer uma piada. Tem uma frase que gosto, do Chaplin, que diz que ele prefere agredir o opressor do que o oprimido. Então, é legal também quando você começa a peitar os poderosos, fazendo piadas com eles. Nos Estados Unidos isso é mais comum. Nessa temporada do American Humor Story, falando do Trump, foi genial. A gente nunca ia poder fazer isso aqui. Acho que é importante a gente não desistir, quando a gente ver a coisa errada, alfinetar. O humor é uma forma, talvez mais inteligente, de você fazer uma crítica, colocar um espelho na cara da sociedade.

Qual o seu sonho na carreira?

Gosto muito do Woody Allen, de tudo o que ele faz. Eu mentalizo, jogo para o universo que um dia quero fazer um filme dele, estudei inglês pensando em trabalhar com ele. Sou cara de pau a esse ponto... Woody Allen, please, hire me?

Styling: Christina Boller; Agradecimentos: Blusa Eleven; Assessoria de imprensa Natasha Stein


 



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