David Junior, o oposto do bronco Menelau: “Eu olho no olho”

Após destaque em Pega Pega, ele diz ser "abençoado" por novo papel na trama das 7


  • 17 de agosto de 2018
Foto: Brunno Rangel


Por Luciana Marques

Desde que foi “descongelado”, o escravo Menelau, papel de David Junior, em O Tempo Não Para, a cada cena que aparece, já mostra a que veio. E pelo jeito, promete agitar ainda mais a ótima trama das 7 com seu jeito bronco, agora livre, em pleno ano de 2018, na agitada São Paulo. “É um choque de realidade. A liberdade é uma coisa que ele vai ter que saber lidar, saber se vai querer, porque tem isso também”, avalia o ator.

Para David, esse trabalho é mais um em especial que vem coroar a sua curta, porém feliz caminhada nas artes. Afinal, o papel veio praticamente após ele atuar como o empresário Dom, em Pega Pega, em 2017. Nos últimos três anos, aliás, ele vem emendando novelas. “É difícil sobreviver como arista e estar nessa demanda, nessa crescente, é motivo de agradecer, agradecer muito”, ressalta o ator, que, em 2016, se destacou como o escravo Saviano, de Liberdade Liberdade.

Na entrevista, o ator também fala sobre a importância da representatividade, do espaço cada vez maior para atores negros na teledramaturgia. Mas admite que ainda falta muito...

Menelau (David Junior). Foto: Globo/João Miguel Júnior

O que tem mais instigado você nesse trabalho?

Trabalho... Pegar um outro trabalho, quase emendando com a minha última novela, é sempre bom. E a diferença do Dom, de Pega Pega, super elitizado, para um personagem agora que é mais bronco, mais duro, mais frio, como o Menelau, esse contraste eu acho que é o mais instigante.

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Fora que ele é um dos “congelados”...

Também. E o mote da dramaturgia do personagem em si eu acho muito interessante. Porque você pega uma pessoa, um negro escravizado, de uma cultura de 1886, desliga ele, e o liga no século XXI, com uma ética completamente diferente. Ele vivia em uma monarquia e agora veio para uma república falida. Ele trabalhava como escravo e chega numa sociedade onde não existe mais escravidão, mas os negros continuam subjugados, em subempregos. Você pega uma pessoa que viveu a vida inteira como escravo e solta ela. Fica tipo: ‘O que vou fazer agora da vida?’. É um pouco do que os nossos antepassados viveram. A liberdade é uma coisa que ele vai ter que saber lidar. A pessoa pode escolher continuar querendo ser escrava porque não sabe fazer outra coisa na vida. Não sei direito o que vai acontecer, mas acho que o interesse dele vai continuar sendo proteger o Dom Sabino e a família dele.

Fez algum laboratório em especial para compor o Menelau?

A gente sempre estuda, vê filmes, livros. Nós fomos a um quilombo, e tivemos uma experiêencia muito interessante naquele lugar, sobre ancestralidade, respeito, e deu para trazer muita coisa para o Menelau. Lá eles têm uma coisa de um respeito muito admirável, o mais velho dá a benção para todos do quilombo, independente da idade. E isso é muito difícil de ver hoje.

Como você avalia o perfil do personagem?

Eu acredito que seja uma pessoa de bom coração, mas com traumas e bloqueios. Ele não deve ser uma pessoa de fácil se relacionar, ele não deve ser uma pessoa aberta para o mundo. Como está tudo muito cedo, não dá para a gente ficar falando muito sobre o personagem. Mas pelo o que eu já li, ele é uma pessoa fechada, reclusa, fala pouco, mas por conta de traumas.

Foto: Brunno Rangel

Então esse jeito do Menelau não tem nada a ver com você, né?

Não! (risos). Definitivamente não. Eu sou expansivo, quero falar com todo mundo, olho todo mundo no olho, quero cumprimentar todo mundo. Ele já é o oposto de mim. Mas como ele, sou muito família.

O que te choca mais na atual sociedade?

A hipocrisia. A gente é muito hipócrita, a gente enquanto sociedade mesmo. Acreditamos numas verdades que só funcionam para a gente. A partir do momento que a gente joga para o outro, ela deixa de funcionar e isso não faz sentido. Eu acredito na verdade que funciona para o coletivo. A verdade isolada é unilateral, não dá para considerar verdade quando exclui.

E como acha que o Menelau vai reagir a esta sociedade?

Eu acho que uma pessoa que viveu sendo escrava, ela desconfia de tudo e de todo mundo porque não tem uma identidade que diga, eu posso ir, eu posso vir, eu posso fazer o que quiser. Então, qualquer um pode chegar e falar: ‘Olha, você hoje é meu escravo e vai trabalhar para mim’ ou ‘Você hoje pode fazer o que quiser’. Então, eu acho que é a desconfiança. Na verdade, ele está nascendo de novo. É uma pessoa que chega num lugar e que nada para ela faz sentido.

Foto: Brunno Rangel

Falando um pouco sobre representatividade. Nessa novela, temos negros em vários tipos de papeis, do advogado ao escravo. Você acha que hoje há mais espaço para atores negros ou ainda falta muito?

Partindo do princípio de que somos 53% da população, falta muito. Porque a gente vê que o volume é muito maior, os núcleos familiares são maiores. A Lucy Ramos está fazendo um personagem incrível, uma advogada, mas ela não tem uma mãe, um pai. Não tem conceito de família. E eu sou muito família, e a primeira coisa que reparo é isso. Menelau é um escravo, o mote dele é interesantíssimo, mas a mulher morreu, os filhos não existem. Então, acho que falta ainda a gente chegar num volume um pouco maior. Mas o fato de sermos referência hoje é motivo de muito agradecimento. Porque na minha infância e adolescência, não tive essa referência. E por não ter, não podia deixar o cabelo crescer, porque não tinha ninguém para admirar. Então, raspava, porque tinha o conceito de que o meu cabelo era ruim. Hoje, a gente estar nesse lugar, e poder ser visto como referência para a juventude é muito bom, mas falta ainda.

Você está numa caminhada bem bacana na carreira, emendando vários trabalhos interessantes. E a gente sabe que não é fácil, né?

Eu já comecei na TV, fui para o teatro depois. Na verdade, eu sempre vejo com o olhar do outro. E vejo como é difícil, e o quanto sou abençoado por estar seguindo, saindo de um trabalho e entrando em outro. E vendo a dificuldade que muitos amigos têm de furar essa barreira. Hoje em dia a gente esta aí trabalhando e vem outras empresas, como a Netflix, oferecendo trabalho porque a gente tem essa visibilidade. Enquanto os outros, por não terem, não tem essa abertura. Lembro que em Liberdade Liberdade, o Marco Ricca falou isso para mim. Cara, eu tenho amigos que começaram comigo no teatro, que admiro, que são muito melhores do que eu, e não conseguiram furar essa bolha. E eu estou aqui e sou abençoado. Então, eu sou muito abençoado, estou há três anos emendando uma novela na outra. Isso é difícil demais!

Menelau ( David Junior ), Cesária ( Olivia Araújo ) e Cecilio ( Maicon Rodrigues ). Foto: Globo/João Miguel Júnior

Você apareceu sem camisa em algumas cenas e está super em forma. Como se cuida?

Eu sou hiperativo, a gente tem que gastar energia para alguma coisa, eu corro, eu pedalo muito. Agora eu estou tentanto ir para o triatlon, vou começar a fazer natação.



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