Nathalia Dill: “O mundo precisa de pessoas que lutem como Elisabeta”

Atriz vibra com discurso de Orgulho e Paixão e a torcida pelo casal “Darlisa”


  • 07 de julho de 2018
Foto: Globo/João Cotta


Por Redação

Uma das atrizes mais requisitadas de sua geração, Nathalia Dill está entusiasmada com o reconhecimento de sua mocinha, a impulsiva e contestadora Elisabeta, de Orgulho e Paixão. “Fico feliz de saber que as pessoas gostam e se identificam com ela. Até porque o mundo já está tão cruel, né? Às vezes, aquela malandragem que o brasileiro gostava tanto pode estar caindo em desuso agora”, opina a atriz.

O par romântico com Thiago Lacerda, o Darcy, também faz sucesso entre o público e já foi “shippado” como “Darlisa”. Mas o mais importante para Nathalia é o discurso da trama de Marcos Bernstein, inspirada em obras da inglesa Jane Austen, que se passa nos anos 1920, e relata o momento em que a mulher começa a ter voz na sociedade. “O voto foi conquistado em 1930, mas vejo as mulheres daquela época como precursoras”, ressalta.

Elisabeta (Nathalia Dill). Foto: Globo/João Miguel Júnior

O que você está achando de Orgulho e Paixão?

Essa novela tem um discurso muito bonito, que eu gosto e que eu concordo. Mas ao mesmo tempo ela tem humor, é leve. Acho que é por isso que as pessoas estão gostando.

Ela relutou com o amor pelo Darcy mas não tem jeito, né? Apesar de ter muita gente do contra..

Na verdade, ela não queria que a vida dela fosse só isso. Mas ela sabe que sempre amou o Darcy. Então, vai tentar ser feliz com ele, e acho que já estão sendo.

O povo torce muito pelos dois?

Muito! Somos o 'Darlisa'. Queria agradecer todos os fãs que fazem fotos. Eu posto tudo, coloco no twitter… Vejo o que as pessoas estão falando, as tags. Já tem umas três novelas que eu estou fazendo isso, vendo como o público tem absorvido os capítulos. É legal ter esse termômetro.

Esse casamento dela com Darcy, sai ou não sai? E o que podemos esperar dele, por exemplo, a Elisabeta, que usa terninha, pode surgir como uma noiva diferente?

Acho que sim. Ela está sempre querendo brincar com os costumes e romper com protocolos. Estou 'chutando', mas acho que o casamento não vai ser a última coisa que vai acontecer com a personagem, porque como não é o que ela mais deseja, acho que o casamento vai fazer parte da história, e não é o pódio de chegada.

Lady Margareth chegou e já está perturbando o casal, né?

Ela não admite essa união de classes, acha uma afronta. Ela quer se manter naquela família e acho que desde que a filha nasceu ela já tinha programado casá-la com Darcy. Então o surgimento da Elisabeta vai contra os planos dela e ela está fazendo de tudo para acabar com isso.

Darcy (Thiago Lacerda) e Elisabeta (Nathalia Dill). Foto: Globo/João Miguel Júnior

Elisabeta enfrenta, não recua, mas a Lady Margareth causa um certo temor nela?

Sim. É diferente por exemplo da Julieta (Gabriela Duarte). A Elisabeta sempre teve uma admiração pela Julieta, mesmo ela fazendo aquelas atrocidades com o Camilo (Maurício Destri) e tal. Elisabeta sempre viu nela a força feminina com a qual se identificava. E com a Lady Margareth não é assim.

Acha que a Lady Margareth chega para ser pior do que Susana (Alessandra Negrini) ?

Ah, com certeza. Susana não tem poder. Ela fica ali tentando jogar um jogo de xadrez para conseguir o que quer. Mas ela precisa de muito mais gente a favor dela. E a Lady Margareth é a dona do jornal. Ela tem poder e não precisa dos outros.

Você gostaria de ter vivido naquele tempo em que se passa a trama?

Não sei… A gente olha com esses olhos saudosos e achamos que o passado é sempre melhor, mas ao mesmo tempo tivemos tantas conquistas, tantas mudanças e leis que avançaram nos últimos tempos que tem um lado muito perverso de antigamente do qual estamos tentando nos livrar.

Você é como a Elisabeta, impulsiva?

Viver de arte no Brasil é tão difícil que eu acho que todo mundo que vive disso tem que ter um grau de loucura e de impulsividade. Acho que a Elisabeta ouve seus próprios instintos e desejos. Isso que é o mais importante e assustador para quem está em volta. E é isso o que eu tento fazer também.

E o que tem de semelhança em relação a ela nessa questão de ser contestadora, de quebrar barreiras?

Eu admiro muito essa força dela e a visão que ela tem do mundo, de justiça e igualdade. Claro que a gente não pode ser muito radical e tem que tomar cuidado com o que fala, com a bandeira que levanta. Mas sei que agora eu tenho uma projeção um pouco maior. A própria mídia social hoje em dia nos dá muito mais voz do que antigamente. Tem uns anos que estou usando isso para movimentos e ideias que acho legal, que considero ser bacana passar para frente, ampliar.

Nathalia Dill. Foto: Globo/João Cotta

Como você vê todo esse reconhecimento, a repercussão positiva de seu trabalho?

Na verdade, o mais gratificante... Porque a mocinha é sempre justa e ética, tem um colorido um pouco menor do que a vilã, então, às vezes, perde-se a graça. Fico feliz quando as pessoas gostam da mocinha. Não estou dizendo que é mais fácil, mais difícil, mais chato ou mais legal ter o papel da mocinha, mas pelo fato de ela ter que seguir uma linha ética que torna o colorido dela como personagem um pouco menor.

Você acredita na instituição casamento?

Acho que celebrar o amor é sempre muito lindo. Não acho que religião ou Estado tenham que ditar isso. Às vezes, é necessário a interferência quando o casal termina... Mas o meu irmão, por exemplo, estava praticamente casado com a minha cunhada há seis anos, e eles decidiram fazer um casamento para celebrar o amor deles. E foi tão bonito ver tanta gente junta e as famílias reunidas nessa celebração. E não precisava, porque já viviam juntos. Mas foi tão lindo esse dia, que eu fiquei muito emocionada. Às vezes, a gente esquece de falar o quanto se ama, e é bom sempre lembrar.

A Pâmela Tomé disse que, na opinião dela, essa novela mostra o momento em que a mulher vira a chave e começa a entender o seu papel dentro da sociedade. Você enxerga isso na sua personagem?

O voto foi conquistado na década de 1930, mas para chegar até ali existiu toda uma luta e uma conscientização anterior. A trajetória começa muito antes. Vejo como se essas mulheres fossem precursoras. Elas não sabiam exatamente o que estavam fazendo, mas estão ouvindo os próprios desejos e instintos. A partir daí vão seguindo. Eu acho muito lindo as pessoas captarem isso pela novela. É contar as coisas de uma forma leve e sutil. Para mim, é uma vitória. Até porque o feminismo foi o movimento mais aniquilado, ridicularizado. A pior forma de você acabar com um movimento é ridicularizando ele. Nos anos 90 se falava como uma coisa antiga e sem necessidade por exemplo.

E o feminismo é a busca pela igualdade, e não da superioridade como muita gente pensa, não é?

Exatamente. Acho que o bonito e o difícil é você tentar buscar igualdade de todas as partes, em todos os campos, gêneros, classes… As mulheres não odeiam os homens, muito pelo contrário. Aliás o machismo é também muito cruel com eles.

Elisabeta (Nathalia Dill). Foto: Globo/Raquel Cunha

Você acha que o Brasil está precisando de pessoas que lutem como a Elisabeta? 

Acho que o mundo inteiro precisa, não só o Brasil. Está tudo muito estranho, radical, sei lá. Radicalidade é importante às vezes para as coisas virem à tona e ficarem claras, mas o diálogo nunca pode acabar. E o mundo inteiro parece estar muito intransigente e desesperado. Falta muito diálogo.

Antes da estreia da novela, muita gente criticou sua escalação e do Thiago Lacerda para viverem Elisabeta e Darcy. As pessoas já tinham a imagem do filme na cabeça. Mas quando estreou a novela, o público “shippou” o casal...

Foi legal porque, que eu me lembre, é a primeira obra literária que faço. É muito emocionante ler o livro e depois fazer a novela. E foi a primeira personagem que fiz sobre a qual as pessoas já tinham alguma relação, opinião. Essa história tem um legado gigante e agora cada vez mais. Mas ao mesmo tempo, foi instigante. E eu também sabia que não dava para ser exatamente igual, porque a novela é uma coisa enorme. Há várias tramas e falas que existem no livro, mas tem uma hora que é preciso ter mais coisa, a novela tem que andar. Fora isso, também precisava de uma pitada brasileira. Imagina se o Darcy (Thiago Lacerda), ficasse mau humorado durante oito meses? (risos).

Você percebe que nessa novela os personagens masculinos, como o do Maurício Destri, também tem uma alma feminina?

Vejo que esse olhar está na novela inteira. Na forma como a história é conduzida, da mulher não ser só coadjuvante ou reativa. Ela está na ação também. Hoje em dia quase não consigo dar uma entrevista, participar de algum programa ou fazer alguma novela que este tema não esteja permeando. Acho isso muito interessante.



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