Rayssa Bratillieri: “Meus pais sempre acreditaram em mim"

Atriz de Malhação, que já teve bulimia, fala da importância de tratar do tema na trama


  • 30 de junho de 2018
Foto: Globo/João Cotta


Por Redação

Aos 20 anos, a paranaense Rayssa Bratillieri é um dos destaques de Malhação: Vidas Brasileiras. E já em sua estreia na TV, como a personagem Pérola, ela teve um desafio e tanto: vivenciar na ficção problemas já enfrentados em sua própria adolescência, como a bulimia.

“Hoje, contando essa história, tenho total consciência de que dá para emagrecer com saúde. Claro que tenho uma vulnerabilidade, um histórico, então não vou falar que não existe mais. Só que a partir do momento que você tem uma consciência, fica mais forte, por isso é importante conversar com as pessoas, buscar uma terapia”, ressalta.

E para essa jovem que sonhava em ir no programa da Xuxa quando criança, ter agarrado a oportunidade na TV com unhas e dentes, já é um passo e tanto. Ainda mais que o papel carrega uma carga dramática forte. Mas já dá para perceber que Rayssa, desde que se mudou para o Rio para estudar teatro, com 17 anos, só tem um foco: ir longe na vida artística. E alguém duvida?

Pérola (Rayssa Bratillieri). Foto: Globo/Raquel Cunha

Fala para a gente sobre esse sucesso em Malhação: Vidas Brasileiras?

Primeiramente, é uma oportunidade enorme que eu tive na minha vida. Acho que agora eu estou começando a ver a dimensão que a Malhação toma na casa do brasileiro. A gente anda no shopping e as pessoas sorriem porque nos conhecem. E também é uma oportunidade muito grande para mim como atriz, até mesmo por contracenar com pessoas incrívei.

E era um sonho, você assistia Malhação e falava que um dia estaria lá?

Eu sou do interior do Paraná, e quando era pequena eu amava a Xuxa, e falava para a minha mãe: 'Mãe, eu quero estar lá onde as crianças estão'. Era um sonho realmente para uma menina do interior, mas me vi com 17 anos tendo que escolher o que queria para a minha vida, e realmente me veio a oportunidade. Meus pais me apoiaram muito nesse momento, para tentar isso como profissão. Foi incrível, porque eu me descobri, cresci, amadureci muito nesse momento, e acho que escolher ser atriz me deu formas de autoconhecimento. Com cada personagem, passamos a olhar muito para dentro de nós mesmos. Para viver a Pérola, precisei perceber onde a Rayssa era um pouco maldosa, afinal todos temos nosso lado de sombra. A gente se abre para a vida, e acredito que nasci para isso, e é o que vou fazer da minha vida.

Foto: Globo/João Cotta

E contracenar com atores mais experientes?

A Ana Beatriz Nogueira é uma coisa absurda! Eu já acompanhei trabalhos dela, mas estar em cena com ela é incrível. É uma mulher versátil e uma grande atriz, maravilhosa, que só tem me ensinado. Vou pegando um pouco do jeito dela para compor a minha personagem, já que na história somos mãe e filha. Já recebi inclusive alguns elogios por caminhar ao lado da Ana nesse quesito e ficar interessante como família em cena.

O que vem pela frente na história da Pérola?

Está difícil de defender a Pérola. Existem pessoas como ela, que não têm noção do que falam, e acabam magoando os outros. Eu sempre fui contra o bullying, inclusive cheguei a sofrer bullying quando pequena, e sempre fui de abraçar as pessoas, e a Pérola cometer esses atos me coloca do lado oposto. Temos que prezar pelo ser humano, e ter empatia com a vida e pela forma como as pessoas levam a vida.

Você usou essas suas experiências para compor a personagem?

Claro, até porque eu acho que uma pessoa que faz bullying, ela sofreu bullying, então coloquei a Pérola como alguém assim como eu. Às vezes, a gente tem um estereótipo de bullying muito mais complexo do que a gente imagina. As meninas não gostavam de mim, hoje em dia são minhas amigas, porque tudo mudou. Mas quando eu era pequena, eu tenho uma imagem muito forte, delas se escondendo e rindo de mim para me deixar sozinha, por qual motivo, eu não sei. Elas não gostavam de mim e a motivação delas era que a Rayssa ficasse sozinha durante as aulas, os intervalos, e eu vivia sozinha no colégio. Na época, chegava em casa e meus pais não me perguntavam, ninguém sabia disso. Então, sofria calada, e fui para um extremo de não fazer bullying e ajudar todo mundo.

Foto: Globo/Raquel Cunha

Você sofreu bullying por qual motivo?

Sempre tem um motivo, esse é meio besta, mas eu sofria. Na época, as meninas me falavam que sempre tinha um menininho da vez, um menino que todo mundo era apaixonado, e ele era apaixonado por mim. Então, as meninas ficavam bravas comigo...

A Pérola sofre de um problema sério, a bulimia e a anorexia. E você contou recentemente que já enfrentou isso em sua vida, como é para você falar sobre esse assunto agora?

Tem que ter muito cuidado para falar sobre isso, porque eu acho que se tem alguém que está assistindo e tem, e é vulnerável, pode ver como algo bom e engajar. Por isso, eu acho que a gente tem que tomar cuidado para mostrar os lados negativos que é ter bulimia e anorexia. Eu passei por isso quando eu tinha 16 ou 17 anos, era modelo na minha cidade, e sendo modelo, seu corpo nunca vai estar bom para a sociedade. Eu não sou muito magra, não tenho o biotipo de uma menina magérrima, tenho ossos pesados, e eu chegava nas agências e tinha que emagrecer. Já era mais magra do que sou hoje, e aí eu comecei a entrar numa paranoia, não conseguia parar de comer, e aí eu comia e vomitava. Meus pais não sabiam, falei para eles há pouco tempo, porque sabia que a Pérola ia ter bulimia, precisava contar a eles o que passei, porque iria falar disso para as pessoas e queria que eles entendessem. É um assunto muito delicado, porque mexe muito com a nossa cabeça, é muito psicológico, é físico também, mas está ligado à depressão, à baixa autoestima. A gente precisa conversar, buscar um terapeuta, não é algo fácil, não é uma besteira. Não é porque é jovem, vai passar, é muito importante, primeiramente, não desistir, entender que existem corpos diferentes, biotipos diferentea. E muito mais importante do que a imagem que as pessoas tem de você, é a imagem que você tem de você mesmo. É uma busca psíquica, mental, espiritual também, porque é muito mais a gente dentro da gente, do que a gente fora. E isso liga em vários sentidos, principalmente quando a pessoa tem bulimia ou anorexia ela tem depressão, é tudo muito ligado.

Com o parceiro de cena Daniel Rangel. Foto: Globo/Marília Cabral

Nas redes sociais a gente vê que todo mundo é feliz, mostra corpos perfeitos no, tem gente que nem estudou nutrição e dá dicas... Quais os cuidados você acha que as pessoas devem ter?

Hoje em dia existe uma máxima de internet, de uma vida perfeita, um corpo perfeito, a pessoa achar que está comendo bem porque ela vê um vídeo, eu não concordo com isso, até por isso eu procurei uma nutricionista. Ontem foi a minha primeira consulta porque eu parei para ver o quanto isso é importante. Hoje em dia está todo mundo muito ciente, sabendo de tudo, e cada um tem que saber o que é bom para você, qual é a sua saúde. Então, eu me parei num lugar de, eu preciso emagrecer porque eu vou ter bulimia, vou contar essa história, só que eu não posso emagrecer de um jeito errado, tomando remédio e fazendo um monte de coisas sendo que eu vou ser exemplo para outras meninas. Procurei uma nutricionista para mostrar que dá para emagrecer com saúde, e dá para ser gorda ou ser magra se você quiser ser gorda ou magra, independente se está todo mundo numa pressão.

Você passou duas vezes pela bulimia, acha que poderia passa novamente, tem esse receio?

Sendo atriz, a gente olha muito para dentro da gente, nada é por acaso, e eu me vi pensando que eu poderia fazer isso agora, só que não quero. Passei por momentos de fraqueza e não é legal. Hoje, contando essa história, tenho total consciência de que dá para emagrecer com saúde. A partir do momento que você tem consciência, coloca na balança, fica muito forte, e a minha vontade de  é estar bem, é ter saúde, fazer um monte de coisas. Então, isso tem que ser forte para todo mundo, para toda mulher que passa por isso. Os índices de mulheres que têm isso, depressão, autoestima baixa, são altos. Por isso foi tão interessante contar a história da Úrsula também (Guilhermina Lisbânio), e eu tenho um papel forte nessa história, porque as duas histórias se entrelaçam, a gente tem que estar bem sendo gorda ou sendo magra. Não é uma busca para agradar alguém fora, é você com você mesmo.

E como é que fica o orgulho da sua mãe e seu pai ao verem você fazendo esse sucesso em Malhação?

Aí gente, os meus pais... Eles são corujas demais, eu fico imaginando eles com uma foto minha no celular e mostrando para todo mundo, eles estão muito felizes. Meu pai tinha um pouco de pé atrás, um receio, uma filha do interior, vir para o Rio de Janeiro fazer teatro, era um pouco assustador para a nossa realidade. Eles acreditavam mais em mim do que eu mesma, hoje eu falo que vou fazer isso para eles.

Você pensou em desistir em algum momento e voltar para a sua cidade?

Eu mudei para cá e eu sou uma pessoa muito focada. Cheguei ciente de que era isso que queria. Eu não saia, não fazia nada, não tinha muito contato social, porque eu ia para o teatro, voltava e estudava os personagens para as peças que fazia, procurava vídeos. Sempre fui muito focada, mas eu sempre fui muito apegada a minha família. Então, teve vários momentos, mas teve um muito forte que eu pensei em várias coisas, aí você já entra numa crise existencial, isso é normal. Acho até incrível, porque é num momento lá em baixo que a gente tem muito chão para realmente pular e ir realmente para cima.



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