Claudia Di Moura se tornou atriz pelo racismo da igreja católica

“Sempre quis ser anjo e nunca pude”, diz a Zefa da trama, baiana, que estreia na TV


  • 12 de junho de 2018
Foto: Globo/João Cotta


Por Redação

Nos primeiros capítulos da trama das 9, Segundo Sol, o público já se perguntava quem é essa brilhante atriz que faz a doméstica Zefa. Para quem ainda não conhece, ela é a baiana Claudia Di Moura, de 53 anos, que tem uma carreira sólida de teatro na Bahia, mas só agora faz a sua estreia na TV. “Na verdade, eu já venho representando o meu povo há 34 anos, quando subo no palco e lá está a minha tribuna”, diz.

Super estilosa no modo de se vestir, ela é tímida para falar com a imprensa, mas emociona a todos quando lembra o início de sua vocação. Ela diz que o seu sonho era ser anjo na igreja, chegava mais cedo do que todos para colocar o nome na lista, mas nunca conseguiu. “Para compensar, eles me davam uma poesia para falar, eu colocava a dor de não ser anjo na igreja no poema, e isso me fez uma atriz”.

Encante-se e emocione-se ainda mais com a entrevista de Claudia.

Zefa (Claudia Di Moura). Foto: Globo/João Cota

Fale um pouco da Zefa, do prazer de fazer essa personagem...

A Zefa é um presente, costumo dizer que ela é uma mulher que tem uma alma encharcada de amor, que pensa com o útero, que passa a vida inteira com as mãos estendidas para a amizade, o amor, a criação dos filhos, e ela tem uma relação muito forte com os patrões. Ela tem um caso de amor, ela não foi amante de Severo (Odilon Wagner), ela foi o grande amor da vida dele na infância. E aí se esbarram no preconceito, ele se casa com outra mulher, uma mulher branca, ela tem esses dois filhos e continua vivendo dentro daquela casa, nutrindo aquela casa de amor, acreditando que ali estava a família dela. E não sei se por maturidade ou ingenuidade, ela acaba tirando do filho Roberval (Fabrício Boliveira) o direito que teve o filho Edgar (Caco Ciocler).

E ela acaba abdicando da vida pelo próximo, o que é não é muito comum hoje em dia, né?

Embora esteja cada vez mais difícil, a gente vê pessoas abdicando da sua vida para cuidar do outro. Isso ainda existe e é aí onde está a minha esperança por exemplo, é a grande esperança de a gente ter uma saída, a saída pela solidariedade.

Você é muito respeitada no teatro, já fez inúmeros trabalhos e agora vem para a TV numa novela das 9, com um papel denso. Como é para você representar não só o povo baiano, mas o negro também no horário nobre?

Na verdade, eu já venho representando o meu povo há 34 anos, quando subo no palco e lá está a minha tribuna. Estar aqui nessa novela das 9 não me assusta, esse é o horário que saio da minha casa para fazer teatro. É importante estar nessa novela, onde a história se passa na Bahia, mas poderia se passar em qualquer outra cidade, representar o meu povo preto, o meu povo nordestino, as mulheres da minha idade. Porque é uma chance que estou tendo na minha idade, aos 53 anos nunca imaginei fazer novela, nunca vim bater na porta da Globo, mas tive a felicidade de estar aqui, fui encontrada lá pela Vanessa Veiga (produtora de elenco). E estar nessa novela dirigida pelo competente Dennis Carvalho e a criativa Maria de Médicis, nas mãos do genial João Emanuel Carneiro, para mim é uma honra. E eu vou tentar defender essa personagem como ela merece.

Foto: Globo/Paulo Belote

E como é que está sendo a troca com o Fabrício Boliveira?

Esse é um dos atores mundiais que nós temos, Fabrício Boliveira. É uma honra, é um prazer, eu conheço a história do Fabrício, o acompanho desde ele muito novo, ele sempre foi esse homem irrequieto, politizado, esse grande ator, essa dobradinha eu espero que o Brasil goste, porque eu estou adorando.

Você acha que o espaço para atores negros hoje aumentou na TV?

Com certeza. E devemos isso a Ruth de Souza, a Zezé Motta, a Lea Garcia, essas mulheres, sim, foram as responsáveis pelas quebras das correntes e hoje a gente não precisa quebrar corrente, a gente enfia o pé na porta e entra.

Tem a memória de alguma atriz negra que te marcou muito na televisão?

São várias, a Lea Garcia, a Taís Araújo que é uma jovem atriz que vem mostrando a que veio, a Ruth de Souza, e a minha maior de todas que é a Viola Davis, que não é daqui, mas é de todo lugar.

A representatividade é muito importante hoje, principalmente para aquela criança que vai ver na TV alguém com a mesmo cor de pele dela, o cabelo...
 

Exato! A Bahia vai ter a oportunidade de se assistir, tem poucos negros, mas eu acredito que a novela só está começando.

Com a família Athayde:  Roberval (Fabrício Boliveira), Severo (Odilon Wagner), Edgar (Caco Ciocler) e Claudine (Cássia Kis)

Foto: Globo/João Cotta

Mas acha que é muito ‘mimimi’ essa história de ter poucos negros, mais para criar polêmica?

Não. Não é ‘mimimi’. Esse é um lugar que a gente tem buscado há muito tempo. E a novela está começando, eu acredito no João Emanuel. Ele é um divisor de águas na teledramaturgia e está muito atento a isso, estamos todos muito atentos, nós não estamos mais com uma venda nos olhos. As pessoas estão aí falando, eu acho esse movimento, interessante, importante. Acho, sim, que há poucos negros, poderiam ter mais, porque nós somos fantásticos nessa Bahia. Nós temos grandes artistas, grandes atores que poderiam estar aqui representando também.

No manifesto participaram mais de 45 atores, né?

Muitos atores. Mas a Globo tem uma pesquisa, a Vanessa Veiga teve o cuidado de fazer uma pesquisa em Salvador, ela esteve lá quatro vezes, e tem uma pesquisa de mais de quatrocentos cadastros de atores negros e potentes, porque não adianta ser apenas negro, nós somos negros com talento, e é por isso que a gente quer espaço. A gente começou a sentir falta de se reconhecer, a gente começou a querer se ver, eu entendo esse protesto, porque a Bahia é preta e nós temos grandes artistas, cita-se Lázaro Ramos, mas atrás de Lázaro tem uma ‘renca’, assim que a gente fala. Tem grandes artistas bons, pretos ou não, mas a gente está falando pelo artista baiano, eu represento o artista baiano, a mulher preta, a mulher nordestina, e estou super feliz de estar aqui.

Em que momento você percebeu que queria ser atriz?

Na verdade, o que me trouxe para a arte foi o preconceito, o racismo, o racismo da igreja católica. Eu sempre quis ser anjo da igreja e nunca pude ser, eu sempre era a primeira menininha a chegar para colocar meu nome na lista e me diziam que já estava lotada. Eu cansava de chegar primeiro, madrugava na porta da igreja e aí compensar a minha tristeza, eles me davam uma poesia para falar, eu colocava a dor de não ser anjo na igreja no poema, e isso me fez uma atriz.

Foto: Reprodução Instagram
 

É até uma questão estrutural, nós jornalistas indagamos sobre o fato da novela não ter negros, mas nas redações de jornal e TV quase não se vê negros também...

E nem tem negros escrevendo para negros, o branco não pode falar da dor do negro, o branco nasceu salvo. É por isso que a gente está lutando, para termos também diretores negros, escritores negros, dramaturgos negros, apresentadores negros, e aí a gente fecha esse cerco e fica tudo igual.

Você chegou onde sempre sonhou?


Eu cheguei onde eu sempre sonhei, quando subi pela primeira vez no palco do Teatro Castro Alves.



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