Iza, no Multishow: “Muitas crianças vão se sentir representadas”

Cantora estreia como apresentadora no Música Boa Ao Vivo


  • 06 de junho de 2018
Foto: Gabryel Sampaio


Por Luciana Marques

A menina de 5 anos que cresceu em Olaria, bairro da zona oeste do Rio, e que queria ser patinadora de supermercado, desde esta terça-feira, 5 de maio, deu um novo e grande passo na carreira artística. Iza, que em apenas dois anos de música tornou-se um fenômeno pop, estreou como apresentadora da quinta temporada do Música Boa ao Vivo, no Multishow. Aliás, ela é a primeira negra a comandar uma atração no canal.

“Representatividade importa pra caramba. Não me via na TV, nos brinquedos, nos desenhos animados, quando criança. Achava que tinha algo errado comigo ou que aquele lugar não era para mim. Agora, tenho certeza que várias meninas e meninos vão se sentir representados. E vão entender que o nosso lugar é onde a gente quer estar”, avisa a cantora de 27 anos, dona de hits como Pesadão e Ginga.

No programa de estreia, Iza não escondeu a emoção, mas mandou super bem. No palco, recebeu nomes como Maria Rita, Zeca Pagodinho e Thiaguinho. Com Thiaguinho, apresentador das duas primeiras edições, pegou algumas dicas. “Ele disse para eu ficar tranquila e curtir, que esse palco é para se divertir”, contou ela.

Anitta comandou os dois últimos anos da atração. A nova temporada, com 18 episódios, e no ar até outubro, recebe grandes nomes da música para shows inéditos, onde os convidados cantam músicas próprias e de outros artistas. O programa também mostra encontros e parcerias inusitadas. E os ritmos são ecléticos, do MPB, ao funk, sertanejo, rap, rock, axé, pagode e forró.

Já confirmados para essa edição, nomes como Claudia Leitte, Ludmilla, Ferrugem, Leo Santana e Dilsinho, entre outros.

Foto: Gianne Carvalho/Divulgação Multishow

Como você recebeu o convite?

Eu fiquei lisonjeada, nunca pensei em ser apresentadora, óbvio que quando era criança, brincava disso. Mas se a carreira de cantora já era uma coisa distante, porque eu estava preocupada com outra carreira (ela se formou em Publicidade e Propaganda), apresentadora, então, era uma coisa muito mais distante para mim. Eu realmente acho que isso vai ser um grande desafio. O programa é muito importante na grade do Multishow, está vindo de quatro temporadas bem-sucedidas, com o Thiaguinho e a Anitta, então, realmente, é uma responsabilidade. Também acho que o Multishow não é sem noção para me escolher, então, se eles acreditam em mim, me sinto muito encorajada.

A que você atribui esse sucesso todo num espaço de tempo tão curto, dois anos?

Trabalho! É que eu não acho que foi curto, tenho trabalhado tanto. Eu tenho 27 anos, decidi com 25, isso tem dois anos, é tanta dedicação, essa coisa de ter deixado o meu emprego, passei por tanta coisa para poder me dedicar 100% à música. Só tinha a renda da minha mãe em casa, tinha largado meu emprego, não estava fazendo show nenhum. Acho que é muito trabalho e dedicação.

Você vai gravar com grandes nomes, muitos eram seus ídolos?

Eu sou muito fã dos três que estão aqui hoje (Zeca Pagodinho, Thiaguinho e Maria Rita). Mas eu vou falar da Maria, nós duas temos o mesmo empresário. E a gente viaja muito e quase não nos encontramos. Eu ouço falar muito nela, ela deve ouvir falar muito de mim também, porque as equipes são quase as mesmas. Hoje eu estou muito feliz de poder estar com ela hoje, eu sou muito admiradora dela.

Dueto com Thiaguinho. Foto: Gianne Carvalho/Divulgação Multishow

Qual seria hoje o seu maior desafio, interpretar uma música que não seja o seu estilo ou apresentar?

Hoje o maior desafio é eu não me emocionar no palco. De verdade, porque estou muito feliz realmente de estar fazendo parte disso. Isso é o resultado de muito trabalho, e poder estar cantando hoje com o Zeca, a Maria, o Thiaguinho e mais um bando de gente que vai passar por aqui, é um presente grande. São encontros que nunca imaginei que fossem acontecer. E isso para quem é cantor, é incrível, porque você vai conhecendo as pessoas, trocando experiência, olhares. A gente sempre aprende mais. Hoje o meu maior desafio é fingir costume perto deles (risos).

Você é a primeira apresentadora negra do Multishow. Qual a importância de meninos e meninas verem você nesse papel?

Eu não me via em quase lugar nenhum quando era criança, então, é óbvio que eu achava que tinha algo errado comigo ou que aquele lugar não era para mim. Eu não me vislumbrava naqueles lugares. E a partir do momento que tem uma menina negra, de Olaria, da zona norte do Rio, e que está apresentando um programa de muita audiência num canal que é super importante hoje, eu tenho certeza que várias meninas e meninos vão se sentir representados também. E entender que o nosso lugar é onde a gente quer estar. Não interessa o que a mídia diz ou se houve alguém antes de você ou não.

Você sentiu medo, receio em algum momento com o convite?

Eu estou com medo até agora (risos). Isso é uma coisa que eu sempre falo para as pessoas. Pô, qual é a sua dica para começar a cantar, não sei, para correr atrás do seu sonho, eu sempre digo, não ficar esperando o medo passar. Porque o medo não vai passar, você vai continuar com medo sempre. Óbvio que você vai fazendo algumas coisas mais vezes, vai pela quarta vez no programa, ah, aqui eu já conheço, conheço a equipe, já sei como funciona. Você já fica um pouco mais confortável, mas graças a Deus, toda a hora aparecem novos desafios. E é obvio que a gente sempre fica com medo. E eu acho que se não tiver medo, não tem graça.

Foto: Gianne Carvalho/Divulgação Multishow

Anitta também é um furacão, e ela apresentou duas temporadas o programa. Você teme as comparações?

Não. Acho que a mídia já tende a ficar comparando, principalmente mulheres o tempo inteiro. A gente aparece e, imediatamente, ah, a nova fulana, ah, ela é a antiga fulana, ou então, fulana está atrás dela... Isso é um saco, tanto para mim, quanto para qualquer uma delas. A gente está trabalhando muito, a gente se respeita muito, admira o trabalho uma da outra, manda mensagem. Eu não estou falando só eu e a Anitta, estou falando de todas as cantores de pop, Ludmilla, Lexa, Gabi, Lary. A gente está muito mais preocupada em abrir portas para outras meninas e fazer nosso trabalho, do que ficar preocupada com o que vão falar. Acho que seu eu ficasse preocupada com o que iriam falar, eu não seria cantora.

Quando criança, você tinha o sonho de ser apresentadora, trabalhar na área artística?

Nada, eu adorava brincar... Sinceramente, mesmo, o meu sonho quando criança, não posso falar a marca, mas era ser patinadora de supermercado. Eu adorava também brincar com música, esporte, fazia muito esporte, e eu pensava que poderia ser atleta. Ou até trabalhar com audiovisual, mas nos bastidores, como editora. Mas nunca pensei que pudesse ser cantora, porque realmente eu sempre amei muito a música, sempre me emocionei muito cantando. Então, quando eu via que tinha emocionado alguém com a minha voz, e eu senti que eu tinha que fazer isso, eu não tinha muita escolha, porque eu iria me sentir incompleta em qualquer outra área da minha vida. Então, fiz isso muito por impulso, porque essa é a minha verdade, mas eu não sonhava com isso antes.

Você acha que a beleza te ajudou?

Infelizmente, sim. Eu acho que o mundo hoje é, sim, pautado em estereótipos, a gente fala muito de empoderamento, de ser você, mas, infelizmente, a gente continua sendo comparada, a gente continua sendo colocada em pódio, e é obvio que estar dentro de um padrão que a sociedade acredita ser bonito, isso ajuda, sim. Eu não acho isso bonito, mas infelizmente é assim que o mundo funciona.

Você é sinônimo de empoderamento feminino, de que forma a gente vai ver esse seu DNA aqui no palco do programa?

Eu falo muito sobre isso, porque me perguntam muito. Mas eu não preciso falar nada, já sou a primeira apresentadora negra do Multishow, como acabaram de me dizer agora há pouco, e eu sei quem eu sou, de onde eu vim. Eu sei como as meninas de Olaria me mandam mensagem. Porque, especificamente de Olaria, o bairro que eu vim, todo o mundo me manda mensagem, e fica muito feliz. Eu ainda sou essa menina, então, quando ligarem a TV, eles vão se ver dessa forma. Acho que isso já é combustível para empoderar as pessoas.

Você está linda com o seu cabelo cacheado, mas você já falou que não é por isso que se você quiser usar ele liso, que não vai ser empoderada...

Essa coisa do empoderamento veio, ajudou muitas meninas e me ajudou também. Encontrei outras crespas e cacheadas na internet, entendi que não era a única e que o meu cabelo era lindo, e que eu podia fazer isso e usar do jeito que eu queria. Mas a gente também tem um pedaço do empoderamente que é ficar cagando regra na cabeça dos outros. E isso é ridículo, isso é censurar, é podar também. Então, se eu quiser usar meu cabelo crespo, incrível, ninguém tem nada a ver com isso, e se eu quiser aparecer loira a semana que vem de cabelo liso, ninguém tem nada ver com isso também. Eu acho que essas escolhas partem da gente. Isso não tem nada a ver com o outro.

Música Boa Ao Vivo com Iza. Terças, às 20h30, no Multishow.

Reapresentações no Multishow: quartas, às 13h30, e domingos, às 16h.

Reapresentação no canal BIS: quartas, às 21h30.



Veja Também