Juliana Schalch, de O Negócio: “Pedia colo. Aprendi a me colocar”

Atriz avalia ganhos na 4ª e última temporada da série de sucesso internacional da HBO


  • 23 de março de 2018
Foto: Patrick Sister


Por Luciana Marques

Com o olhar expressivo, o sorriso solto e o jeito de moleca, Juliana Schalch conquista qualquer um a sua volta. Mas é com o seu talento que nos últimos anos ela vem ganhando cada vez mais admiradores além fronteiras do Brasil. Ju é uma das quatro protagonistas da série O Negócio, da HBO, que chega à quarta e última temporada, exibida em mais de 50 países na América Latina, Europa e Estados Unidos.

Na trama, ela vive Luna, uma das quatro garotas de programa de luxo que, juntas, aplicaram táticas de marketing ao trabalho e conquistaram um espaço maior, criando a própria empresa. “Tive um amadurecimento, mudança de vida mesmo, a partir de reflexões que a Luna suscitava. Sobre questões da própria sexualidade, do empoderamento da mulher”, avalia ela, que é casada com o também ator Henrique Guimarães

"Um ganho profissional inicialmente com a série foi ter a oportunidade de fazer várias temporadas com uma mesma personagem, nunca tinha feito. Ela se modificando, eu me modificando... É um disfrute, um deleite para mim como atriz."

Com as colegas de elenco Rafaela Mandelli, Aline Jones e Michelle Batista. Foto: José Luis Beneyto/Divulgação

O que os fãs podem esperar desta quarta e última temporada de O Negócio?

Está surpreendente! Acho que ela tem uma curva bem interessante, que pega o gancho da terceira temporada. Quem assistiu, viu que a Karin (Rafaela Mandelli) quer lançar um livro sobre a vida dela. E o que tem no livro da Karin é a vida da Oceano Azul, do clube, das meninas. Então, elas se deparam com a necessidade de tornar uma coisa delas que era privada, pública. Elas topam e vão ser colocadas à prova. E isso é uma grande prova para a Luna que desde a primeira temporada tem uma vida dupla. A Maria Clara, que ela apresenta para a família, e a Luna, que ela vive na vida. E tem uma questão, que parece realmente que a Luna sempre quer ser a Maria Clara, de alguma maneira. E ela é a Luna. Então, ela tem uma questão de uma dupla personalidade. E nessa temporada ela vai ter que se deparar com essa questão. E na série é tudo feito com muita leveza, alegria. Então, a gente se diverte muito também assistindo a essa questão da Luna.

Quais foram os maiores ganhos para você como atriz ao participar de O Negócio?

Acho que inicialmente foi ter a oportunidade de fazer várias temporadas com uma mesma personagem. Ela se modificando, eu me modificando, é um disfrute, um deleite para mim como atriz. É a primeira vez que eu tive a oportunidade de fazer um trabalho como esse e foi um grande presente. Além disso, teve um amadurecimento na carreira, uma mudança de vida mesmo, a partir de reflexões que ela suscitava. Por exemplo, questões da própria sexualidade, do empoderamento da mulher.

Foto: Patrick Sister

"Com Luna, também aprendi a ficar mais tranquila, sossegada com o meu corpo, na minha vida pessoal, a pesquisar mais, a provocar mais o meu marido."

A série já trouxe isso à tona antes mesmo de todo esse boom, não é?

Sim, a série começou um pouco antes desse movimento feminista. E junto a isso, a gente também foi crescendo e compreendendo um pouco mais sobre o empoderamento da mulher. Mas desde a primeira temporada, isso já está na série. Porque elas resolvem sair de uma submissão, tem um cafetão, uma boate onde vão, e é tudo cuidado por homem. E elas falam, acabou. Eu não quero mais esse modelo, quero fazer de outro jeito. Mas que outro jeito? E elas vão descobrindo... E isso acho que pode ser aplicado em todas as profissões, em todas as pessoas. De que maneira você vai conseguir ter novas ideias e crescer profissionalmente e na sua vida. E elas foram suscitando reflexões e insights com essas questões.

E você, pessoalmente, o que mais aprendeu com a Luna?

Ah, a primeira coisa é o jeito de se vestir. Eu era muito hippie. E eu adoro o jeito que a Luna se veste desde sempre. Mas acho que a principal coisa é isso que eu já estava falando, de como me portar. De como eu me vender, não é bem essa palavra, mas, de alguma maneira, é, porque a gente precisa se apresentar num meio profissional. Muitas vezes, pode não ser exatamente do jeito que você é. Eu sou uma pessoa totalmente transparente. Às vezes, o meu olho, que já é grande, diz tudo. E me perguntam, você não gostou disso, não é? Porque eu não consigo esconder. E a Luna é uma ótima mentirosa, eu, não (risos). Então, tenho realmente que dar uma sambada, porque as minhas emoções vêm à tona com facilidade. Preciso me preservar, compreender como me colocar. E aprendi alguns macetes com ela. Luna esconde direitinho o que está sentindo, até dela mesma. Então, acho que me ensinou muito, também a ficar mais tranquila com o meu corpo. Porque cenas de sexo não são fáceis de fazer, a gente precisa se organizar, ter uma conversa com a direção, com o outro ator. Tem toda uma preparação. A gente sempre teve muito cuidado com isso na série. Só que, ao mesmo tempo, aprendi a ficar mais tranquila, sossegada com o meu corpo, na minha vida pessoal, a pesquisar mais, a provocar mais o meu marido. E questões do empoderamento feminino que estão muito dentro da série.

"Adoro esse formato de séries, você tem mais tempo de conhecer os personagens, a história evolui de maneira bem estruturada, os diálogos são bem amarrados. Porque há uma diferença no tempo de produção. E o Brasil tem conseguido galgar bons resultados."

Luna. Foto: Reprodução Instagram

Você se considera uma mulher assim, forte, empoderada?

Todas essas reflexões sobre empoderamento feminino tem me ensinado muito. Porque sou carentinha, eu gosto de aprovação do outro. Então, fui aprendendo a me observar e falar, eu sei isso, já aprendi. Posso me colocar com mais autoridade, propriedade. Também estou com 32 anos e tem um amadurecimento que vivi junto com a personagem e com esse movimento feminino. Porque eu acho que a mulher tem essas águas, esses balanços, uma hora que você quer ficar mais quietinha, quer um cafuné, ficar na frente da TV, e chorar. Eu adoro chorar (risos), colocar um filme, ah, esse eu vou chorar... E tem momentos em que a gente diz, não, eu quero isso, tenho certeza que é dessa maneira, isso não está certo, vamos corrigir. Então, tem que ter esse balanço. Porque o feminino acolhe, é acolhedor, tem uma harmonia. Uma mulher empoderada é também uma mulher que sabe reconhecer o momento de se recolher, de pedir colo. Eu era muito mais a pessoa que pedia colo, por exemplo, e hoje estou um pouco mais me colocando, me fortalecendo mesmo, falando o que quero, o que gosto, o que não gosto. Sem medo!

Você começou no teatro, fez cinema, novela, série... Tudo tem acontecido no tempo certo?

Acho que tudo o que vai acontecendo na nossa vida, de um modo geral, é o que era o certo. Às vezes, a gente não compreende isso de início, mas vai vendo como as coisas vão fluindo, como tinha que ser. Na minha carreira, acho que fui conduzida de uma maneira muito feliz. Tive oportunidade de fazer novela, que é agitada, são muitas cenas para gravar no mesmo dia. Três Irmãs foi o meu primeiro grande trabalho. Depois voltei para São Paulo e pude fazer um filme. Por mais que seja enorme no telão, quando a gente filma é menor do que TV, tem menos gente no set, tempo maior de ensaio. E senti que pude afinar umas coisas que eu achava que tinha deixado um pouco soltas na TV. E a vida foi me levando para essa coisa do cinema e da série, mas eu estou louca para fazer uma novela de novo. Porque vai ser um outro momento. Nesse meio fiz outra novela, mas aí entrou a série e fiquei. Adoro esse formato, porque você tem mais tempo de conhecer os personagens, a história evolui de maneira bem estruturada, os diálogos são bem amarrados. Porque há uma diferença no tempo de produção. E acho que o Brasil tem conseguido galgar bons resultados. Está entrando numa fase muito boa de séries. E eu estou muito feliz com a minha caminhada.

Foto: Patrick Sister

E agora tem também um filme para estrear?

A gente rodou O Último Jogo, uma coprodução entre Brasil, Colômbia e Argentina. Ele está sendo finalizado na Argentina, e foi filmado no Rio Grande do Sul. É um filme muito legal, a gente não sabe direito em que época ele acontece. Ele conta a rivalidade entre uma cidade argentina e uma cidade brasileira, e acontece em vários âmbitos. Mas o principal é o futebol. É divertido, meio atemporal, inusitado, surpreendente.

"Todas essas reflexões sobre empoderamento feminino tem me ensinado muito. Porque sou carentinha, eu gosto de aprovação do outro. Então, fui aprendendo a me observar e falar, eu sei isso, já aprendi. Posso me colocar com mais autoridade, propriedade."

Você também está participando de um desafio do Menos 1 Lixo. Explique um pouco de que se trata...

Estou participando de um desafio, o armário cápsula, a convite da Fe Cortez, ela é ativista ambiental. Já fiz outros com ela, como o do copo. Ela me deu um copo para eu não usar mais copos descartáveis. E eu levo isso para todos os lugares. Então, ela tem me proposto várias reflexões sobre meio ambiente, sobre tudo o que a gente está vendo e de que maneira a gente pode contribuir e colaborar. E nesse desafio do armário-cápsula, uma maneira da gente colaborar é, ou comprando menos, ou reduzindo a quantidade de coisas que a gente tem. É uma ideia de uma mulher que vem da década de 70, de ter um armário com 37 peças, dividido entre primavera-verão e outono-inverno. Então, você teria um armário de umas 70 peças no ano inteiro. Eu adoro moda, adoro comprar, mas passei a ter uma reflexão sobre isso tudo, que eles chamam de consumismo consciente. Você precisa ter um limite. Descobri também que há iniciativas maravilhosas de produção de roupas, de reutilização de tecidos que sobram de fábricas, de reciclagem de jeans. E nesse desafio, estou com 40 peças em um mês. E tem muita coisa que eu não usei ainda. Então, dá para fazer...



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