Paula Cohen, a Lota Pindaíba, cita paixões: “Não sei ser sem a arte”

Atriz de Nos Tempos do Imperador conta ainda como tem se realfabetizado no sentido feminino


09 de novembro de 2021

Foto: Sergio Baia

Uma garota ‘latino-americana’. É assim que Paula Cohen, no ar como a deslumbrada Lota Pindaíba, de Nos Tempos do Imperador, costuma se definir, já que sua família é uruguaia e ela mora no Brasil. “Estou sempre aqui e lá”, conta ela, que alimenta o desejo de um dia morar no país vizinho. Enquanto a mudança não se concretiza, a atriz produz trabalhos com intercâmbio cultural entre Brasil e Uruguai como o NOSOTRAS.

Na entrevista, Paula fala ainda da delícia de ter feito a sua primeira novela de época, também reflete sobre a situação da mulher nos anos em que a novela se passa (segunda metade do século XIX) e conta como tem se aprofundado cada vez mais sobre o tema feminismo. “É importante que estudemos, pois a memória machista do mundo nos apaga, nos tira dos livros de história, tivemos muita dificuldade de editar, nós mulheres, livros, ao longo dos tempos”.

Qual o maior desafio em viver um personagem de época? Muitos aprendizados. Desde a vestimenta, o figurino, que muda a nossa forma de caminhar, de agir, até o jeito de falar. No caso da Lota o sotaque da roça, do interior, nunca tinha feito um personagem assim. Um deleite realmente! Quanto mais desafio, mais descoberta! Tenho aprendido muito neste processo. Sou muito grata por esta experiência!

Lota Pindaíba (Paulo Cohen). Foto: Globo/Fabio Rocha

A novela teve boa parte das cenas gravadas durante a pandemia. Quais foram as maiores dificuldades? Muita cautela. Sempre estar consciente de ter as mãos limpas, ensaiamos sempre de máscara tiramos só na hora de gravar. As figurinistas criaram uma bolsinha que amarramos na cintura para guardar as máscaras entre os saiotes. Testamos sempre! Eles criaram um protocolo muito sério e seguro. Cada um se cuidando muito na sua vida pessoal também. É um movimento coletivo de cuidado.

O que mais te encanta nos trabalhos de TV? Descobrir as personagens numa obra aberta é sempre uma deliciosa aventura. Trocar com os diretores, autores, atores de diversas linhas e trajetórias, que vem trilhando outros caminhos. São muito engrandecedores e ricos esses encontros muitas vezes. O diálogo com o público que se apega às personagens, torcem, amam, detestam, mas isso tudo mobiliza as pessoas. Agora com as redes, as pessoas me escrevem e contam a experiência delas com a personagem. Eu adoro! Tenho recebido muitas mensagens das pessoas adorando a Lota, a família, a novela como um todo! É muito gratificante! De verdade!

A trama das 6 se passa na segunda metade do século XIX. Como avalia a posição da mulher naquela época?
Nossa, era muito diferente! As mulheres eram propriedade, zero liberdade de escolha, você vê por exemplo na personagem da Pilar (Gabriela Medvedviski), a luta para poder estudar, se transformar numa médica. Mesmo assim algumas conseguiram furar essa bolha a duras penas, às vezes pagando com a vida. Tenho estudado muito o movimento das mulheres através das épocas. Tenho uma professora chamada Carla Cristina Garcia, socióloga, feminista, que me realfabetizou no sentido do feminino. Nos cursos que faço com ela aprendo muito e descubro mulheres que se destacaram em diferentes áreas que às vezes nem imaginávamos que estavam presentes. Mulheres piratas, por exemplo. Naquela época ir para um convento era uma forma de aprender conhecimento, cultura. Que bom poder ver essa caminhada acontecer, as coisas mudando, nossos direitos a duras penas sendo respeitados. Nestes últimos anos, depois de alguns importantes movimentos feministas virem à tona, ocuparem as ruas e os tribunais, como o Me Too, Ni Una a Menos, mais passos foram dados, mas ainda falta muito. Embora todo este movimento tenha começado lá atrás na Revolução Francesa, aliás, o berço de muitas lutas, foi quando se descobriu que a igualdade para todos era uma balela. Não existia na prática. Estamos em transformação, graças a Deus as velhas estruturas estão ruindo. E fazer parte deste momento, estar sempre atenta e lutando por novas e importantes conquistas ao longo dos tempos me traz esperança.

Foto: Sergio Baia

Ser atriz não era a sua primeira opção de profissão. Qual foi? Eu mudei muito de ideia sobre isso. Prestei educação física, achei que seria bailarina, fiz jornalismo e me formei. Mas descobri o teatro por causa da dança, e a partir daí me apaixonei. Com 19 anos entrei na Escola de Arte Dramática de São Paulo, na USP, e tive a total noção de que a minha vida seria dedicada a arte de representar. E assim foi e é até hoje. O jornalismo me serviu muito para escrever. Escrevo também, inclusive já atuei em duas peças escritas por mim.

E o que te fez mudar de ideia e apostar na atuação? Paixão é uma coisa que não se explica. O teatro é uma paixão na minha vida, uma descoberta, um lugar de significância, de pertencimento. Sempre foi mágico para mim, místico, mítico! Eu respeito muito o teatro. Sagrado para mim. Entrar para o teatro foi um rito de iniciação. De alguma maneira a minha vida começou de novo. Eu amo ser atriz! Amo muito! Às vezes não é fácil mas mesmo assim eu amo, amo tudo! Acho que é esse jeito de olhar o mundo, de viver criando, brincando… Sei lá! Não sei ser sem a arte. Não sei.

Você estuda com um caderninho. Com quem aprendeu essa estratégia? É uma prática bem conhecida entre os atores. Eu nunca tinha aplicado a uma novela. Mas desta vez quis experimentar. É uma excelente forma de estudar, decorar. Você grava visualmente para entender a cena com bastante solidez. Dá trabalho, mas funciona muito bem!

Você criou uma “ponte” entre o Uruguai, terra dos seus pais, e o Brasil com um espetáculo online, recentemente. Pensa em fazer carreira na terra deles? Eu faço essas pontes com frequência. Agora estou criando outro chamado NOSOTRAS, com dramaturgia contemporânea de quatro mulheres. Duas brasileiras, uma argentina e uma uruguaia. Será feito aqui por três atrizes brasileiras. Vamos gravar no final do ano. Essa linguagem híbrida entre o teatro e o áudio visual. Sim, me interessa casa vez mais trabalhar por lá também! Já fiz alguns filmes e peças, tanto no Uruguai quanto na Argentina.
Falo espanhol perfeito. Aliás foi a minha primeira língua pois meus pais são uruguaios e quando chegaram no Brasil ainda não falavam bem o português.

Pensa um dia morar no Uruguai? Alimento muito esse desejo. Vou muito, me alimenta estar lá. Tudo, estar com a família, andar pelas ruas, olhar para o Rio de la Plata, sentir o vento das Ramblas, ouvir música e poesia Uruguaia. As Murgas, espécie de operetas políticas que acontecem sempre no Carnaval. Eu sou de lá também. Estou sempre nesse entre lugar. Aqui e lá! Sou ‘uma garota latino-americana’. Así soy yo!

Fotos: Sergio Baia; Make: Yago Maia; Stylist: Marlon Portugal