Rafael Primot estreia primeiro monólogo: “Cada vez mais sou defensor dessa pluralidade do artista”

Ator, diretor e roteirista iniciou os ensaios da peça que aborda relações familiares no quintal de sua casa


03 de fevereiro de 2021

Foto: Rodrigo Marques/ODMG

Por Luciana Marques

Multifacetado, o ator, diretor e roteirista Rafael Primot usou o turbilhão de emoções da pandemia para criar. Ele estreia, ainda este ano, o monólogo Baby, você precisa de mim, que aborda relações familiares, ao mostrar a volta de um escritor para a casa após anos longe. “E como estamos vivendo este momento de pandemia e todo mundo revisitando as suas famílias e relações com mais foco, eu achei que era o momento ideal de contar essa história. Essa peça fala muito sobre valorizar esses encontros”, conta ele. Durante a preparação do espetáculo, o inusitado foi que Rafael usou o quintal da sua casa, seguindo todos os protocolos de segurança, para fazer os ensaios. E ele define como uma “experiência incrível”.

Diretor de longas como Todo Clichê do Amor, Gata Velha Ainda Mia e Manual Para Atropelar Cachorro, e de sucessos teatrais como Os Guardas do Taj, estrelada Reynaldo Gianecchini e Ricardo Tozzi, ele se diz cada vez mais defensor da pluralidade do artista. Na atuação, ele esteve em tramas como Hebe, Aruanas, Sessão de Terapia e Deus Salve o Rei. “Isso dá mais autonomia, domínio das ferramentas, e como ator você se torna mais dono do seu métier”, avalia ele, que é roteirista, junto com Monique Gardenberg, de Ó Paí Ó 2. Na entrevista, Rafael também bate na tecla do quanto a cultura foi essencial para manter a sanidade das pessoas durante a pandemia e o quanto ela deve ser tratada com a devida importância.

Qual foi o insight para você criar o monólogo Baby, você precisa saber de mim? Eu resolvi fazer o espetáculo Baby, você precisa saber de mim a partir de um espetáculo que já tinha sido escrito com cinco outros personagens. E, durante a pandemia, conversando com Rodrigo Frampton, amigo que virou co-diretor da peça, na expectativa do que fazer enquanto os teatros não voltavam, resolvemos fazer uma adaptação desse texto para monólogo, contando com a ajuda do dramaturgo Franz Keppler. O insight veio dessa vontade de contar essa história que tem a ver com retorno, com volta ao lar e é disso que se trata o espetáculo, a volta ao lar de um escritor depois de anos vivendo longe da sua família. 

O texto vai falar de transformações na vida de um escritor de rótulos de embalagens após ele passar por uma situação difícil. Qual a reflexão que você deseja passar ao público? O foco principal do texto é a gente falar sobre relações humanas, familiares e o quanto ficamos, muitas vezes, desatentos a isso. É levar o foco para a importância dessas relações afetivas entre os familiares. A história conta a relação de um irmão e de uma irmã, que, com o tempo e a vida de cada um, se afastaram, mas acabam resgatando o afeto através de um fato que acontece na família, que é a possível morte da mãe deles. Com isso eles se unem neste momento difícil. Mas o texto tem outros temas, fala sobre profissionais que nem sempre são bem sucedidos, e como eles lidam com isso, nem sempre os nossos sonhos juvenis se concretizam na vida adulta. Então, o texto fala sobre a volta ao lar, sobre relacionamentos, sobre pessoas excluídas, às vezes, na própria família, e também sobre perspectivas: como uma mesma história e pessoas podem ser vistas por diversas perspectivas dentro de uma mesma família.

Foto: Rodrigo Marques/ODMG

Em tempos de pandemia você iniciou os ensaios no quintal de sua casa para um número muito pequeno de pessoas. O que essa experiência somou para você como diretor, ator e escritor? Sim, havia feito isso ano passado, mas com o aumento nos números da Covid resolvemos dar um tempo nos ensaios abertos. Mas quando abrimos o ensaio, o que posso dizer é que fazer o espetáculo dentro de casa foi uma experiência incrível. Primeiro, porque eu tô abrindo a minha casa, com todos os critérios e protocolos de segurança, e o monólogo é realizado em ambiente aberto. Mas receber as pessoas dentro de casa eu acho que leva o espetáculo também pra um lugar muito íntimo, tanto pra mim quanto pra quem assiste. O espetáculo é muito delicado, fala sobre relações familiares, então é como se o espectador fosse levado pra dentro da casa dessa família. E como ator e diretor é muito interessante porque eu faço o espetáculo olhando no olho do espectador e ele me vê muito de perto, então é muito íntimo, até mesmo na maneira de se atuar essa intimidade grita. Então, tem que ser, ou fazer parecer ser, muito verdadeiro.

Aos poucos, os teatros estão voltando, mas muitos produtores não conseguem fechar a conta por causa do número reduzido de pessoas na plateia. Como você tem visto esse momento difícil para os profissionais do teatro, principalmente? É um momento complexo para o meio teatral brasileiro porque estamos tendo que nos adaptar a esse formato de uma plateia reduzida, com as mudanças na lei de patrocínio, a nova mudança ou a extinção do Proac Icms, na Lei Rouanet, também tem demorado muito a aprovação dos projetos. E, assim, acho que as discussões sobre as formas de patrocínio são sempre bem-vindas, mas não sei se foi o melhor momento já que a classe artística e teatral foi muito prejudicada com a pandemia, porque o nosso trabalho depende exclusivamente do contato com o público e isso foi impossibilitado com tudo isso. Eu acho que a gente vai ter que descobrir novas maneiras de contar histórias e de fazer teatro, de se reinventar para sobreviver. Não só como pessoa física, mas pras histórias sobreviverem também, as peças, os teatros. Muitos teatros fecharam as portas de maneira definitiva. Então é um momento triste pro teatro brasileiro, um momento marcante na cena teatral brasileira como nunca antes visto. Eu espero que junto ao poder público e com a iniciativa privada a gente possa ter novos horizontes e conseguir retomar as atividades teatrais o mais breve possível. Mas temos que olhar com mais atenção pra isso, e é urgente!

No audiovisual a gente vê grandes emissoras aqui no Brasil voltando aos poucos, grandes produtoras no mundo levando muito mais tempo para rodar série, filmes. Como você tem visto isso tudo? É, eu acho que isso tá acontecendo por todos os lados, o problema é que só as grandes conseguem manter a produção no momento porque isso encarece demais a realização, a produção em si. Acho que chega a encarecer cerca de 20 ou 25% do orçamento pra conseguir cumprir com todos os protocolos de afastamento, de exames, de quarentena, tem que evitar pegar avião... E todos esses novos protocolos, necessários, pra se filmar encarece muito a produção. E as produtoras menores, que estavam aparecendo no mercado e produzindo, acabaram estacionando as produções, algumas fecharam, outras mais sortudas conseguiram dar apenas uma pausa para produzir mais adiante quando já tiver tudo sob controle. De toda forma é um impacto imenso no setor.

Foto: Rodrigo Marques/ODMG

Acredita que, mais do que nunca, as pessoas puderam ver nesta pandemia a importância da cultura na vida em suas vidas ou tem muita gente que ainda não entendeu isso? O ser humano é uma incógnita (risos). Quero acreditar que durante essa pandemia as pessoas perceberam o quanto o nosso trabalho é essencial como entretenimento, arte e também para a sanidade mental. As pessoas estão consumindo mais séries e novelas, e já começaram as reprises porque o mercado vai ficando sem saída com essa falta de produção. E os governos deveriam olhar pra isso com mais cuidado, porque além de ser arte e de ser necessário, é uma indústria que gera muito dinheiro, mas  tratam como se fosse um artigo de luxo e dispensável. Como se nós artistas fôssemos seus inimigos e na verdade nós só fazemos a nossa parte de contar histórias, de entreter, de falar sobre a realidade, de promover reflexões. Acho que é um momento peculiar da cultura brasileira e espero que as pessoas consigam perceber a importância de continuarmos produzindo. Não só comprando produtos externos, mas o quanto é importante a realização desses produtos que falem sobre a nossa cultura, o nosso povo. E o Brasil é um dos maiores produtores audiovisuais de qualidade no mundo, produtos que são exportados e geram lucro pro nosso país. Além da riqueza intelectual e cultural.

Você é multifacetado. Acha que é importante todo o ator também se experimentar na direção e na escrita ou depende de cada perfil. Como aconteceu pra você, o que veio primeiro? Cada vez mais sou defensor dessa pluralidade do artista. Eu acho que a gente tem que escolher os nossos textos, se produzir, dirigir, se experimentar escrevendo. Você vê que as novas gerações são multitarefas, elas mesmas se gravam, isso se vê em youtubers. Então eu acho que esse é um caminho necessário pro artista, inclusive pra ele conseguir concretizar seus sonhos, ideias, pensamentos e falar sobre os temas que são mais importantes pra ele. Você vê que grandes artistas e realizadores sempre estão por trás das suas escolhas, como a Fernanda Montenegro, o Marcos Caruso. Acredito que é importante pelo menos conhecer ou entender o outro lado, mesmo pra quem quiser só atuar. Isso dá mais autonomia, domínio das ferramentas, e como ator você se torna mais dono do seu métier. E não vejo um caminho diferente pra mim. Hoje em dia me realizo muito contando as minhas histórias, obviamente que adoro fazer projetos, novelas e filmes dos outros, porque também é um universo diferente do meu, e isso é muito desafiador. Mas por escrever e dirigir, eu também consigo embarcar com mais facilidade nos sonhos dos outros. Acho que consigo também ser um colega mais legal de cena, até pros produtores. Porque eu conheço todas as dificuldades de se produzir e você acaba sendo um artista mais flexível com tudo, com os erros, os problemas de cada meio e assim por diante. Acho essencial você se conhecer como artista, ser um pouco multitarefa ou multifacetado, não sei como chamar isso. Mas pra mim é um caminho que segue me interessando muito e que já está muito ligado a carreira e a história que eu venho construindo.

Agradecimento: Styling: Luan Ventilari; Beleza: Otávio Henrique.