Marcel Octávio de volta aos palcos: “Sentimos na pandemia o quanto a arte faz falta”

No elenco dos musicais Donna Summer e Cássia Eller, ator fala também do seu centro cultural Casa Henriquieta


28 de outubro de 2021

Foto: Guilherme Logullo

Em cartaz com o espetáculo Donna Summer Musical, em São Paulo, Marcel Octávio não esconde a felicidade de novamente respirar teatro. Afinal, ele ficou longe dos palcos um ano e meio. “Foram 546 dias em casa. Estou muito feliz! Todos passamos por uma situação extrema e essa volta tem sido um alento em meio ao caos, mesmo que ainda estejamos atravessando essa pandemia. Estar no palco, com os colegas, me trouxe uma alegria nova, uma sensação de que vamos atravessar isso juntos”.

No bate-papo, o ator também fala do musical Cássia Eller, em que dá vida a Nando Reis, da experiência de ter vivido o Ian, na fase Jacó, em Gênesis, e da criação, junto com a mulher, a atriz Mariana Gallindo, do centro cultural Casa Henriquieta.

Marcel em cena do espetáculo Donna Summer. Foto: Divulgação

Como você tem sentido a reação do público com essa volta do teatro? Eu vejo as pessoas da plateia felizes duplamente, sabe? No final, elas estão felizes pela peça, mas também muito emocionadas por estarem com pessoas novamente. Sempre de maneira segura. O teatro também exige o uso de máscara na plateia o tempo todo e mantem um ordenamento para não causar aglomeração na entrada e na saída.

Fale um pouco do seu personagem, o Neil, em Donna Summer Musical... O Neil Bogart foi empresário da cantora, Rainha de uma era inteira. Donna canta sobre sexo de maneira livre e sua música impactou profundamente os movimentos LGBTQIA+. Neil ajudou a elevar Donna ao status de Diva. Ele foi seu guia no show business, mas não dividiu os lucros quando eles vieram. Por isso, eles encerraram a parceria com duas disputas judiciais. 

Você gravou Gênesis no meio a pandemia. O que mais te marcou nesse trabalho? Fui abençoado de voltar à TV no início de 2021 com Gênesis, na fase de Jacó, e foi um projeto incrível. Foi o primeiro grande trabalho depois da pandemia e me orgulho muito do meu personagem e de todo o núcleo. Criamos entre todos uma grande parceria, foi um set sempre muito divertido e descontraído e sinto que isso passou para a tela. Gostei muito de assistir nossas cenas na tela.

Ian (Marcel Octávio), de Gênesis. Foto: Blad Meneghel/Record TV

Na peça Cassia Eller você vive o cantor Nando Reis. Como tem sido essa experiência? Faço parte do espetáculo desde 2019. Foi uma experiência linda e tenho a oportunidade de cantar as músicas que cresci ouvindo, sempre fui fã da Cássia e do Nando. Ainda teremos mais apresentações a partir do ano que vem e espero viajar mais com essa peça.

Como é dar vida a uma personalidade ainda viva? Dá medo, eu admito. Especialmente porque gosto muito do Nando Reis, mas eu busco trazer muito amor na criação do personagem e trazer uma visão mais da relação entre cássia e Nando, da troca e amizade entre os dois.

E como foi o trabalho de composição para dar vida ao Nando? Todo personagem que faço, preciso ter uma fonte de inspiração, um lugar de onde eu pego esse material e adapto a mim. Com o Nando eu revi muitas entrevistas dele e vários shows para começar a pegar o seu jeito e também entender como ele funciona para dar vida ao meu Nando. Claro que depois de estabelecer essa base, aí eu vou seguindo o meu caminho próprio e criando assim o personagem no palco, não somente uma imitação dele.

O ator em cena do musical Cássia Eller. Foto: Divulgação

Nesse período fora dos palcos, você chegou a criar projetos? Sim, no início da pandemia foi uma loucura. Eu e minha mulher ficamos em casa, meio sem saber o que fazer, sem saber quando voltaríamos a trabalhar. Depois de mais ou menos uns dois meses, não dava mais para esperar. Nesse período criamos nosso primeiro show virtual, o Bug do Milênio, e começamos nos apresentando nas contas virtuais do Teatro Claro SP. E também começamos a montar nosso centro cultural, a Casa Henriquieta.

Fale um pouco sobre o centro cultural... Eu e a minha mulher, Mariana Gallindo, montamos a Casa Henriquieta. É um espaço cultural em São Paulo criado para artistas de diferentes áreas compartilharem seus conhecimentos e se aprofundarem em sua arte. Eu criei meu curso de canto e voz, tanto online quanto presencial, utilizando nosso espaço. Já a Mari levou para o espaço seu projeto de dança com mulheres da terceira idade, o Sexagenárias. Além disso, usamos o espaço para desenvolver e executar nosso primeiro show online, Bug do Milênio. E já contamos com outros parceiros que utilizam o espaço nas mais diversas áreas artísticas: como produções de conteúdo audiovisual, aulas de balé clássico e artesanato. O nome é uma homenagem à avó da Mari, Dona Henriqueta, uma artista que acreditou no nosso sonho e nos cedeu o espaço para realizarmos o projeto. Todos que quiserem mais informações podem nos achar através do nosso site www.casahenriquieta.com.br Por conta da pandemia, ainda estamos operando com restrições e por enquanto vamos seguindo com aulas online e adaptando o espaço para o nosso retorno presencial.

Como você vê o futuro da cultura no Brasil com essa retomada, aos poucos, e a crise que já vinha acontecendo antes da pandemia? Estou feliz de ver várias produções teatrais voltando, mas sei que será difícil. A pandemia foi muito custosa, todos perdemos pessoas queridas e nos afetamos psicologicamente. O retorno ao trabalho é lento e precisamos de tempo para nos entender. Como se isso não fosse suficiente, ainda temos que lidar com um país que não admira sua cultura e seus artistas. Nenhum lugar civilizado do mundo é assim, mas não vamos parar. Sentimos nessa pandemia a falta que faz a arte, a cultura. O teatro já enfrentou problemas antes e não caiu por um motivo, precisamos vivenciar experiências catárticas ao vivo. É uma necessidade humana.