Gustavo Merighi se divide entre arte e política no palco  

Em cartaz com Um Passeio no Bosque, que enfatiza a importância da diplomacia, ator fala ainda da participação do novo filme da Turma da Mônica


16 de setembro de 2021

Foto: Divulgação

Um desafio. É dessa forma que Gustavo Merighi encara a temporada de Um Passeio no Bosque, de Lee Blessing, em que divide a cena com Beto Bellini, no Teatro Solar de Botafogo, no Rio. Neste momento em que a pandemia ainda resiste, o ator ressalta que voltar à cena presencialmente é um ato de coragem, de amor e de resistência pela cultura brasileira.

Como um dos produtores da peça, que tem direção de Marcelo Lazzaratto, Gustavo se diz feliz em participar, cumprindo todos os protocolos de segurança, desse movimento de retomada das apresentações presenciais. “O teatro é um ótimo aliado para refletirmos sobre nossa atualidade e voltarmos nossa atenção para a condição humana, que deveria ser pensada e repensada sempre”, diz

Um Passeio no Bosque, que fica em cartaz até o dia 25 de setembro, aborda, com humor e emoção, a necessidade do desarmamento entre os homens. Além do espetáculo, Gustavo poderá ser visto em breve nas telas do cinema vivendo Rolo, o icônico personagem de Maurício de Souza no filme Lições – Turma da Mônica. A produção estreia em dezembro nos cinemas.

Gustavo e o seu parceiro de cena na peça, Beto Bellini. Foto: Divulgação

Qual a principal mensagem que Um Passeio no Bosque pretende levar ao público? Para mim, a principal mensagem do espetáculo é a necessidade que temos de chegar em acordos que vão além de ideologias X ou Y, mas que levem em consideração o bem comum da humanidade e sua sobrevivência. Estamos atravessando um momento em que questões importantes como meio-ambiente, pandemia e armamentos (convencionais e nucleares) não estão mais isoladas. Todas essas questões devem ser encaradas e refletidas de forma coletiva, pois afetam globalmente. A peça é um embate entre racionalidade e irracionalidade; entre o desejo pelo domínio versus a necessidade de compartilhamento. Através dos dois personagens, o idealista e jovem americano e o experiente e cético russo, a peça enfatiza a importância da diplomacia.

Você vive um diplomata jovem e idealista na peça. Fale um pouco sobre ele? O John Honayman é um diplomata americano que acredita muito em sua capacidade profissional, acredita que através de seus esforços conseguirá trazer a paz para todos os homens, acabando assim com as armas nucleares. Ele é caloroso e certeiro em suas colocações, mas ao longo da peça vai sendo desconstruído pelo diplomata russo, se humanizando, percebendo-se como um ser que tem suas limitações. Apesar de ter um objetivo nobre e lutar pela paz mundial, ele escorrega nas ações do dia a dia sendo pouco generoso e até agressivo com as pessoas à sua volta. Sua obsessão pelo trabalho o transforma numa bomba relógio por conta dos consecutivos fracassos.

E como foi o processo de composição do personagem? A construção do John começou com o figurino, ensaiei desde as primeiras semanas de terno, gravata e sapato. E isso, por si só, traz uma postura, um corpo específico. Emprestei para ele meu vigor e juventude para deixá-lo mais caloroso, mais enérgico em seus debates. Apesar do seu ímpeto em busca da paz, certa propensão ao heroísmo, ele é rígido em suas ideias, não gosta de ser contrariado. E demonstrei esse comportamento em seus movimentos, que são movimentos precisos e quase mecanizados.

Foto: Divulgação

Vocês apresentaram o espetáculo em São Paulo em 2019, ou seja, antes da pandemia. Alguma mudança para a temporada carioca? Sim, realizamos o espetáculo em São Paulo no espaço Elevador Panorâmico, e na Escola SP de Teatro. Ao todo foram 50 apresentações, algo raro nos dias de hoje para produções de pequeno porte. A principal mudança que tivemos foi espacial. A peça foi concebida num tipo de espaço mais alternativo, tínhamos mais variações de planos, mais profundidade cênica, mais variedade física. Na temporada carioca, no Solar de Botafogo, estamos num formato de palco ‘’italiano’’, tivemos que reduzir marcas, simplificar a iluminação, porém o trabalho ficou ainda mais concentrado no ator. Cada escolha uma renúncia, cada conquista uma perda, é assim mesmo. Estamos felizes em experimentar o espetáculo em variados estilos e tamanhos de palco.

Muitos teatros ainda estão fechados. Vocês pretendem estender a temporada a outras capitais? Foi e está sendo um ato muito corajoso, por parte da produção e do Leo Franco, responsável pelo Solar de Botafogo, trazer o espetáculo para o Rio neste momento. Precisávamos voltar, mesmo com várias restrições e cumprindo todos os protocolos. O teatro precisa voltar a estar presente na vida das pessoas. O teatro é um ótimo aliado para refletirmos sobre nossa atualidade e voltarmos nossa atenção para a condição humana, que deveria ser pensada e repensada sempre.  O público tem se mostrado interessado e igualmente corajoso indo nos prestigiar, e a cada apresentação aumenta o número de pessoas na plateia. Estamos muito felizes com a receptividade do público carioca para um texto de autor desconhecido no Brasil e com um tema pouco explorado. Também vamos tentar nos apresentar no interior de São Paulo antes de tentarmos outros estados. Gostaríamos muito de apresentar a peça em Brasília e Porto Alegre.

Você está no elenco do filme Lições – Turma da Mônica, que estreia no final do ano. Fale um pouco sobre esse projeto. No filme interpreto o icônico Rolo, personagem que é amigo e, às vezes, flerta com a Tina, que é interpretada por Isabelle Drummond. Rolo é um jovem com visual hippie, com cabelo azul. Apesar de ser meio mulherengo e aparentar ser descolado, no fundo, esconde um garoto atrapalhado e de bom coração. Rolo já existe nos quadrinhos do Maurício de Sousa e construí-lo foi muito interessante. A minha intenção foi reproduzir características dele: o olho caído, seu jeito malemolente, sempre de boa como se diz. Procurei utilizar os objetos que havia em cena para ajudar a compor essa figura maravilhosa. Espero que o público goste.

O ator com Isabelle Drummond em cena do longa Lições - Turma da Mônica. Foto: Divulgação

Qual a importância desse trabalho para você? Esse projeto é muito importante para mim por ser destinado ao público adolescente, um público carente de conteúdos significativos. E também por ser uma live action brasileira feita com extrema qualidade. Não é fácil, fora de Hollywood, transpor quadrinhos para o cinema, mas Daniel Rezende e sua equipe de roteiristas e produtores estão provando que, sim, é muito possível. Esse é meu segundo longa, o primeiro foi uma participação em Minha Mãe é Uma Peça 2 vivendo um crush da Marcelina. E agora ter a oportunidade de fazer um personagem tão importante, que faz parte do imaginário de tantas pessoas, é só alegria.

As plataformas de streaming têm se revelado um novo mercado de trabalho. Qual a sua opinião sobre esse movimento? Eu acho esse movimento das plataformas de streaming incrível. Por vários aspectos: geração de empregos, ampliação de conteúdos dramáticos... Há também uma espécie de intercâmbio cultural, eu adoro séries iranianas, por exemplo, e, de quebra, o mundo passa a adquirir e conhecer mais sobre nossa cultura, sobre nossa arte e nossos artistas. Essas plataformas ampliam o nosso mercado aumentando as possibilidades de atuação. No que se refere à teve, até pouco tempo tínhamos três grandes redes dominantes que produziam novelas, agora com as diferentes plataformas surgindo e crescendo por aqui, todos são obrigados a se reinventar, inovar e com isso todos nós ganhamos, tanto os amantes das séries e novelas como os trabalhadores delas. Isso ajuda toda a classe artística a não ser mais refém de dois ou três veículos para trabalhar e construir carreira, e contribui para população ter a opção de consumir conteúdos mais diversificados.  Acho mais democrático.

Para você as novelas ou séries continuam sendo um importante canal de visibilidade para o ator? Há algum projeto seu nessa área? Lugar de ator é no palco ou nas telas, seja TV ou cinema. Qualquer um desses veículos é o lugar para exercemos nosso ofício, mas no Brasil a TV ainda é soberana. Todo mundo tem uma TV em casa, muitas vezes falta o feijão, mas a TV tem que estar funcionando. É cultural. Trabalhar na TV é entrar na casa das pessoas. Na minha opinião, a TV ainda é o canal de maior visibilidade para um ator. As séries de streaming não atingem, ainda, a quantidade de brasileiros que a TV aberta alcança, mas creio que estamos em transição, as séries brasileiras vêm ganhando cada vez mais força. Estou negociando a participação numa série, mas nada confirmado ainda, não posso antecipar nenhum movimento, a política deles é bem sigilosa.

Você declarou recentemente que começou a namorar durante a pandemia. Continua namorando? Sim. Em meio a toda essa loucura que vivemos com a pandemia, ter conhecido a Mariana foi muito bom e importante. Conversamos durante meses até nos encontrarmos para um primeiro encontro. Continuamos juntos e muito felizes.

Qual o principal aprendizado que a pandemia tem deixado para você? O principal aprendizado que tive com a pandemia foi a percepção de como votamos mal. Como exigimos pouco de nossos governantes. Como confiamos a nossa gestão em mãos completamente despreparadas. Percebi como somos frágeis como sociedade. Aprendi que se não mudarmos nossa postura, se não conduzirmos nosso pensamento para o coletivo, iremos sucumbir. Vamos chegar a experimentar o até então fictício mundo distópico descrito por grandes autores como George Orwell e Ray Bradbury. Quando a pandemia começou fiquei muito assustado, porém me acendeu um feixe de esperança ao observar os movimentos sociais surgindo, as pessoas se juntando e ajudando como podiam para tentar diminuir os danos causados pela pandemia e pelo nosso desgoverno. Hoje, quase dois anos depois, percebo que muita gente não aprendeu a lição. Como saldo, todos nós perdemos, mas, para quem ficou, não há alternativa a não ser lutar contra toda essa irracionalidade.