Arthur Vinciprova lança o filme de terror A Gruta: “Nunca vi nada parecido feito no Brasil”

Protagonista, junto com Carolina Ferraz, ele assina roteiro e direção do longa, com estreia hoje no Amazon Prime


29 de outubro de 2020

Foto: Priscila Nicheli

Por Luciana Marques

Aos 35 anos, Arthur Vinciprova vem acumulando bons trabalhos no audiovisual, principalmente no cinema. Depois de estrelar as comédias românticas Rúcula com Tomate Seco e Turbulência, ele vê a estreia hoje, dia 29 de outubro, em mais de 200 países, no Amazon Prime, de um projeto desafiador: o filme de terror A Gruta. Além de protagonizar o longa, junto Carolina Ferraz, ele assina a direção e o roteiro. “Nunca vi nada parecido feito no Brasil. Talvez tenha sido essa a vontade de realizar algo diferente, com frescor, que desencadeou o projeto e fez a Amazon acreditar no potencial da história”, conta.

A trama é uma ficção baseada numa história verídica da cidade de Carrancas, em Minas Gerais. Arthur dá vida ao personagem Jesus, único sobrevivente de um desmoronamento numa gruta e que jura não ter matado as pessoas encontradas mortas lá. Carolina Ferraz interpreta a freira Helena, que se vê envolvida com a versão da história contada por Jesus. “Quero que os espectadores sintam uma tensão, mas reflitam sobre fé. E a mensagem que gostaria de passar é de que a vida é feita de escolhas”, fala ele, que é diretor da Cia. de Teatro Pé Direito. Entre os próximos projetos de Arthur, está o longa Chamado Noturno, em que também dirige e atua. 

Como surgiu a ideia para o roteiro de A Gruta? Foi uma história muito louca... Eu estava envolvido com outros trabalhos e um amigo meu pediu uma reunião para falarmos de um possível novo filme. Ele sentou à mesa e me falou: ‘O que acha de fazermos um filme de terror?!’. E na hora me deu um frio na barriga... Senti que poderia ser algo desafiador... E gosto de desafios. Esse mesmo amigo, que virou um dos produtores executivos, me levou pra conhecer uma cidade no interior de Minas Gerais, que ele achava que podia servir de locação. Nessa cidade tinha uma gruta, e assim que entrei no local a ideia do roteiro começou a surgir na minha cabeça. Achei que seria interessante falarmos sobre como o ser humano se comporta em situações extremas e também sobre o questionamento da fé. 

Arthur nos bastidores de A Gruta. Foto: Reprodução Instagram

Conte um pouco sobre a sinopse e sobre o teu personagem e o da Carolina Ferraz... O filme A Gruta conta a história de uma freira, que é convocada pela polícia a ajudar num caso de múltiplos homicídios. A perícia indica que um homem assassinou seus amigos e esposa após desmoronamento em uma Gruta interditada. Mas esse mesmo homem se recusa a colaborar com a polícia e diz que só irá conversar com alguém da igreja. E que não cometeu os crimes. O meu personagem é Jesus, único sobrevivente desse desmoronamento e que jura não ter matado aquelas pessoas. Já a personagem da Carol é Helena, uma freira que se vê envolvida com a versão da história contada por Jesus e, a partir daí, começa a questionar se o que o jovem diz é verdade ou não.

A história é ficção ou também é baseada em fatos reais? A história é ficção. Porém usamos algumas coisas reais. A premissa do filme é baseada numa história verídica da cidade de Carrancas (MG), onde os escravos, cansados de serem torturados por seus senhores, matam todos eles e se escondem dentro de uma Gruta. Anos depois, os corpos desse escravos foram encontrados dentro da gruta sem nenhum tipo de decomposição.  Partindo dessa premissa, que aconteceu realmente aqui no Brasil, é que o filme se desenvolve.  Outra coisa que é real no filme, é o nome do demônio usado. Um demônio africano. 

Você se inspirou em algum clássico do gênero em especial, sempre foi fã de filmes de horror? Eu tive uma fase na adolescência que era viciado em filmes de terror. Mas essa fase passou. Meu irmão é fã do gênero e costumamos assistir muita coisa juntos. Sempre fomos muito exigentes com o gênero. Dificilmente gosto de um filme de terror. Pouca coisa me provoca medo ou tensão. Mas quando o filme consegue fazer o espectador se envolver com a trama, o efeito catártico é único. Também tive algumas inspirações para o filme, como os clássicos, O bebê de Rosemary, O Exorcista, Sexto Sentido e o atual Hereditário...  

Com Juliana Paiva, no longa Rúcula com Tomate Seco. Foto: Reprodução Instagram

Nesse nicho, há sempre efeitos especiais. Você utilizou muito isso ou a prioridade é roteiro e interpretação? Não gosto de efeitos especiais em filme de terror. Acho que o medo vem daquilo que a gente imagina, e não do que a gente vê.  Se o efeito especial não for bem executado, pode fazer com que o filme perca em sua totalidade podendo até ficar trash. Por isso, um cuidado muito grande que tive desde o início com o filme era em focarmos na história desses dois personagens, Jesus e Helena. O medo e a tensão devem partir do envolvimento do espectador com o enredo proposto e não com artifícios visuais. Claro que temos efeitos visuais muito bacanas no filme, como o desmoronamento da gruta entre outras coisas... Mas, sem dúvida nenhuma, a prioridade é o roteiro. 

O cinema brasileiro não costumava produzir muitos filmes na linha do terror. Mas só no ano passado, foram lançados 5 produções do gênero, O Clube dos Canibais, Histórias Estranhas, Morto Não Fala, A Noite Amarela e Intruso. Acha que é o momento de ousar, de mostrar que a gente também sabe fazer esse tipo de cinema? É muito interessante ver essa movimentação acerca do gênero. Quando iniciamos a pré-produção desse filme, não havia quase nada do estilo feito atualmente. Então, acredito que foi um movimento aleatório de cineastas experimentando um gênero pouco explorado no Brasil e que desencadeou trabalhos de diversos estilos... O barato de você citar esses filmes é que nenhum deles é parecido. Todos têm sua identidade própria. Isso é uma coisa que gosto em A Gruta, nunca vi nada parecido feito no Brasil. Talvez tenha sido essa a vontade de realizar algo diferente que desencadeou o projeto. Criar algo com frescor. Talvez, por isso, a Amazon tenha comprado o filme de forma exclusiva e mundial, por acreditar no potencial da história para todos os continentes. 

Que tipo de sensações você quer causar no público com o seu filme e qual mensagem também gostaria de passar? Eu gostaria que o público sentisse essa tensão, claro, mas, principalmente, gostaria que o público se comovesse com a história desses personagens. Que refletissem sobre fé.  A mensagem que gostaria de passar com o filme é de que a vida é feita de escolhas. E escolhas mal sucedidas podem resultar em caminhos que, às vezes, parecem não ter volta. E cabe a nós mesmos mudarmos o nosso próprio destino.  

No filme Turbulências com Monique Alfradique, Lua Blanco e Bruno Gissoni. Foto: Reprodução Instragram

Você também está no elenco de Turbulência e Rúcula com Tomate Seco, já lançados, e rodará ainda o Chamado Noturno. O cinema sempre foi uma grande paixão na sua vida e era um sonho ser cineasta?Desde pequeno, soube que seria cineasta e ator. Sempre sonhei com isso. Adoro ler, interpretar, criar... Então, me formar em cinema e artes cênicas, foi um caminho bem natural. Meus pais me apoiaram muito.  E é muito legal você citar esses outros dois filmes porque, junto com A Gruta, eles estarão em três plataformas diferentes ao mesmo tempo. Além de A Gruta, que estreia dia 29 no Amazon Prime, Turbulência irá estrear no Netflix em novembro e o Rúcula com Tomate com Tomate Seco está no Globoplay. Acho uma oportunidade única, grande, do público poder conhecer o meu trabalho em três filmes completamente diferentes. 

A sua carreira caminha muito pelo teatro, cinema e mais recentemente, série. Tem vontade de fazer novela, um gênero tão aclamado no Brasil? Tenho muita vontade de fazer novela. Gosto do ritmo rápido de como as coisas são feitas, das produções e admiro muito os artistas envolvidos, autores e diretores.  Curto desafios e acredito que seria muito legal ter uma oportunidade de fazer um personagem bacana na TV. Também acho ótimo o contato do ator de televisão com o público em geral. O trabalho abre muitas portas. 

Com toda essa crise na cultura que já acontecia antes da pandemia, como você vê atualmente o mercado audiovisual. Algumas coisas estão sendo sendo retomadas ou tudo caminha ainda lentamente? O ano passado foi muito difícil pro audiovisual. Estamos com a Ancine parada, editais parados. As produtoras têm se reinventado, as distribuidoras também. Os produtores buscando alternativas e novas formas de investimento. Mas com a pandemia, veio também o olhar de todos para a importância das obras audiovisuais no nosso dia a dia. E as plataformas de streaming cresceram muito nesse período. Acredito que as coisas irão melhorar daqui pra frente. Precisamos do apoio do governo.  E também nos reinventarmos. Acho que o setor mais prejudicado foi o de salas de cinema. Realmente, os lançamentos estão sendo feitos de forma remota. No caso do filme A Gruta, a princípio, foi pensado para estrear primeiro nos cinemas, mas, antes disso, acabou sendo comprado de forma exclusiva pelo Amazon Prime Video e agora irá estar disponível a partir do dia 29 de outubro em mais de 200 países. Com certeza, essa reverberação será muito maior do que a estreia prevista nos cinemas.  Ou seja, ainda que com mudança de planos, as coisas vão funcionar de outras maneiras que sejam bacanas. Talvez, em alguns casos, melhores do que o planejado. Temos que nos adequar a nova realidade até que tudo isso passe. 

E o teatro, vai reagir, vai se manter vivo, as novas tecnologias também estão ajudando, né? Estava em cartaz no Teatro Laura Alvim com um espetáculo da minha Cia quando começou a pandemia. Tivemos a temporada adiada por tempo indeterminado. Foi um soco no estômago. Tínhamos passado num edital concorrido e estávamos completando 10 anos de nossa Cia. Espero que possamos voltar em breve com o espetáculo. Ainda não me adaptei às lives e ao teatro filmado. Confesso que sinto falta da troca de energia com a plateia. Mas é uma boa opção! Acho importante apoiarmos esse tipo de iniciativa. Acredito, que, agora, mais conscientes, e seguindo todos os protocolos de segurança, poderemos ir voltando aos poucos ao teatro tradicional. A arte está sempre em constante mudança. O teatro está presente há séculos, não podemos subestimar a força dos artistas de teatro. Creio que tudo dará certo!

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