Thiago Arancam: “Não imaginava chegar a esse patamar tão rápido”

Um dos maiores tenores do mundo, brasileiro está em cartaz com musical e turnê de show


  • 27 de outubro de 2018
Foto: Zarella Neto


Por Luciana Marques

Num país em que a música erudita tem pouca tradição, pode-se dizer que o paulistano Thiago Arancam é um vitorioso. Aos 36 anos, já esteve nos principais teatros do mundo, somando mais de 500 apresentações, em 40 países, em casas como o Alla Scala, em Milão, e Deutsche Ópera de Berlim, na Alemanha. Ele também já gravou com o ícone Plácido Domingo.

Sua voz poderosa o colocou na lista dos maiores tenores do mundo da atualidade. “Eu tinha sempre as ambições de ser um grande cantor, agora de ser classificado, abaixo dos 40 anos, como um dos melhores, não imaginava”, diz. Após conquistar o mundo, ele volta às suas raízes. Thiago, que está morando novamente no Brasil há um ano, celebra mais bons momentos em sua trajetória.

Além de estrear como protagonista da versão brasileira do musical O Fantasma da Ópera, já visto por mais de 140 milhões de pessoas em todo o mundo, e em cartaz no Teatro Renault, em São Paulo, até 16 de dezembro, Thiago está em turnê com o show Bela Primavera. Quem estiver no Rio, poderá curtir o espetáculo neste sábado, 27, no Teatro Clara Nunes. Além de hits da carreira e canções do novo disco, This is Thiago Arancam, ele mostra clássicos da música internacional, da lírica italiana e até bolero.

Na turnê Bela Primavera. Foto: Anna Castelo Branco

Desde novo, a música faz parte da sua vida. Quem eram as suas referêcias naquela época, e como o erudito foi apresentado a você?

Eu comecei muito cedo num coral infantil com seis, sete anos de idade, e daí aprendi inúmeras canções e alguns trechos de ópera e as principais músicas italianas. Claro que me fascinava muito a versão do canto lírico e estava no auge e em ascensão os três tenores e a vinda do Luciano Pavarotti ao Brasil. E eu apreciava muito na época esse estilo e comecei a conhecer também os grandes cantores de ópera. Mas no Brasil destaco muito, por conta da influência da minha mãe que ouvia muito Cazuza, Lulu Santos e algumas referências internacionais como Nat King Cole, lembro muito na vitrola de casa tocando essas músicas.

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Quando alguém percebeu que você tinha uma capacidade vocal ímpar, diferente?

Desde pequenininho já cantava, e realmente quem começou a perceber isso foi a maestrina do segundo coral que participei, a (Lida Cuoco) Ela que vivenciou essa passagem minha vocal do sopranino para tenor e me colocou no naipe dos tenores no coral e aí eu comecei a desenvolver toda potência vocal. Tudo isso nessa fase de mudança vocal.

Ser músico no Brasil já é difícil, fora do país, então. As pessoas podem pensar, ah, ele morou na Itália, viajou o mundo, se apresentou nos maiores teatros do mundo... Mas até chegar aí, você passou por dificuldades, chegou a pensar em desistir, ou tudo caminhou de forma tranquila?

Realmente nada é fácil quanto parece, tem que ter muita dedicação, muito esforço e não se importar com as dificuldades. Eu sempre coloquei como meta que cada barreira que eu enfrentasse eu passaria com muita facilidade dependendo do grau que fosse. Claro, dificuldade, morar sozinho, frio, ficar doente, subir no palco e ter que se afirmar a cada apresentação. Ter que mostrar pra todo mundo que você é capaz, mesmo no meu caso, vindo de um país de terceiro mundo, chegando num país de primeiro mundo pra desenvolver uma arte que não era de berço e tradição brasileira, foi muito difícil. Mas eu nunca pensei em desistir, até porque eu acredito sempre que tudo dá certo quando a gente coloca a força e um empenho justo. E aí no meu caso eu nunca medi esforços pra ir atrás dos meus sonhos.

Foto: Zarella Neto

Algum dia você imaginou se tornar um dos maiores tenores do mundo, você tem noção disso, do que representa?

Eu sempre tive como meta me superar a cada dia e ser o melhor pra mim mesmo. Claro que eu tinha sempre as ambições de ser um grande cantor, agora de estar classificado, eu fui classificado abaixo dos 40 anos como um dos melhores. Eu não imaginava que pudesse chegar nesse patamar em tão rápido tempo, e de forma não fácil, mas que dependesse de todo meu esforço. E é uma honra pra mim, vocês podem imaginar a minha felicidade.

No Brasil, pouco se fala de cantores eruditos, de música clássica... O que você pensa disso, e o que deveria ser feito, na sua opinião, para que as pessoas se interessassem mais e tivessem mais acesso a esse gênero musical tão prestigiado no mundo todo?

Realmente não é de tradição brasileira o canto erudito, mas nosso país teve inúmeros cantores no passado, e até no presente, que se destacaram, Bidu Sayão, João Gibin. Grandes maestros também que aqui no nosso país, grande exemplo é Carlos Gomes, um dos maiores autores e compositores de ópera que fez sucesso e carreira internacional. Agora as iniciativas estão aí, cada vez mais os jovens está se interessando, e com certeza vamos ter grandes outros destaques no mundo da música erudita internacional.

Como o protagonista do musical O Fantasma da Ópera. Foto: Pedro Dimitrow

Agora você protagoniza o clássico O Fantasma da Ópera. Fazer um musical era um sonho, como está sendo essa experiência?

Nos meus planos de carreira não estava desenvolver um papel em um musical, desenvolvi vários outros papéis dando vida e contando histórias nas óperas líricas. Só que o convite da produtora, quando iniciaram o processo de seleção para entrar no musical chegou até a mim, comecei entender a magnitude que era o musical Fantasma da Ópera. Da forma que é apresentado, da semelhança com a ópera lírica, da potência vocal despejada pelo personagem e dramática. Então isso abriu meus olhos e me deixou muito interessado em entender todo esse sistema do musical. Está sendo uma experiência única e fantástica, já me apresentei em mais de 80 apresentações desde a nossa estreia, tem agenda ainda até o final do ano. Estou muito feliz com o processo e muito contente de poder desenvolver minha arte, e no meu país, para tantas pessoas.

Num musical, além de cantar, há a questão da atuação, da expressão corporal, enfim. Isso foi uma dificuldade para você?

De forma alguma, até porque eu venho ao longo dos mais de 20 anos de carreira na ópera executando a mesma função, onde eu canto e atuo. A única diferença é que no musical eu canto em português e conto a história na minha língua nativa e para o meu público que aqui no Brasil local é em português. Mas a questão de atuar nunca foi um problema não, já fiz mais de 600 apresentações de ópera, atuando mundo afora em diversas ocasiões e diversos comportamentos de personagem, temperamento e tenho toda base dramática desenvolvida ao longo desses anos e com muito estudo também.

Foto: Zarella Neto

Você também está viajando pelo país com o seu show Bela Primavera. O que destacaria de mais especial nesse espetáculo, há alguma novidade em relações a outros shows seus?

Bela primavera é meu grande show, é a menina dos meus olhos, meu cavalo de batalha. Ali eu posso expressar tudo que sou nesse universo, as grandes novidades são os temas do Fantasma da ópera que são apresentados ali, os duetos e a Música da Escuridão. Além da participação especial de Carmen Monarcha, que abrilhanta meu show. Fora isso eu tenho todo o repertório internacional, com grandes clássicos da músicas internacionais como: Aleluia, Who Wants to Live Forever, Nessun Dormam, da ópera lírica italiana, Una Noche con Puccini, tem um medley de bolero. É um show para toda família, todas as faixas etárias, um show muito emocionante.

O seu universo é mais o clássico. Mas você também ouve outros ritmos, principalmente brasileiros? Tem alguém que você tem escutado muito na sua playlist?

Eu sou bem eclético, eu ouço de tudo, costumo estar antenado em tudo que acontece no mercado, claro que eu venho de formação erudita, mas não sou aquele cara bitolado que ouve só música erudita. Eu curto de tudo que está aí no mercado sem nenhum preconceito. Na minha playlist tem de tudo desde ?? uma ópera de verdi até Zeca pagodinho, Anitta, Ivete, Claudia Leitte, Beyoncé, Lady Gaga, Queen.

Você ainda mora fora? 

Estou morando no Brasil, desenvolvendo minha carreira aqui. Já estou há mais de um ano e meio morando no Brasil e pretendo continuar, sendo a minha base no Brasil. Mas percorrendo esse grande mundo que nos espera.

Thiago Arancam - Turnê Bela Primavera Rio de Janeiro. Dia 27/10. Teatro Clara Nunes. Shopping da Gávea. Rua Marquês de São Vicente, 52, Gávea, Rio. Às 21h. De R$ 50,00 a R$ 150,00.



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