Ramiro Macedo faz primeiro show com a Pássaro Vadio no Rio

Banda apresenta Caosmos, seu primeiro e já premiado álbum: “Fase de reconstrução”


  • 06 de julho de 2018
Foto: Divulgação


Por Luciana Marques

A paixão de Ramiro Macedo pela música vem desde novo, ele nem sabe explicar direito esse processo. “É como se eu já tivesse acoplada ao corpo a capacidade de tocar violão e cantar, mesmo que com técnica limitada (até hoje)”, brinca. E, mesmo com todas as dificuldades de um músico no Brasil, ele agarrou-se a esse dom com todas as forças.

Atualmente, está está à frente da banda Pássaro Vadio, que apresenta, neste domingo, 8 de julho, na Áudio Rebel, no Rio, o seu primeiro álbum de estúdio, Caosmos. “É a união de caos e cosmos... É um momento de desconstrução, de voar no ar despedaçado, como diz a música de abertura do disco”, conta.

Fundada por ele em 2015, a banda passeia por ritmos folclóricos da música brasileira, combinado com o dream pop e folk psicodélico, e tem, além de Ramiro, na voz, guitarra e violão, João Augusto da Silva, no baixo, guitarra e teclado, e Davi Neves, bateria e percussão.

O álbum já foi definido como um dos grandes discos do Brasil no ano de  2017 pelo jornal Zero Hora, e venceu Disco do Ano e Melhor Compositor na categoria pop do Prêmio Açorianos 2017, principal premiação cultural do Rio Grande do Sul.

Deleite-se com a entrevista desse jovem e talentoso músico gaúcho, que hoje vive em São Paulo.

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Quando eventualmente você viu que gostaria de trilhar a carreira na música?

Vem de tão novo que nem lembro do processo de aprendizagem. Está no âmbito da intuição. Eu fui levado a tocar profissionalmente porque não tinha nada mais o que eu achasse que fizesse bem e que eu pudesse fazer com tesão como tocar e compor. Me formei em jornalismo, mas o plano 'A' era e é viver do meu trabalho autoral como músico. E digamos que o plano 'B' (jornalismo) está num patamar parecido do ponto de vista de remuneração e oportunidades de emprego. 

Quais músicos desde sempre foram referências para o seu trabalho?

Eu ouvi muito Tom Jobim na infância, não sei se para impressionar as pessoas mais velhas e tentar levar a fama de menino prodígio, mas fato é que eu gosto muito de bossa nova, Tom, João Gilberto, até hoje. Caetano Veloso é a figura que mais me encanta pela capacidade de se renovar, de se posicionar no mundo e de ser um artista que extrapola os limites da música, assim como o Gilberto Gil. Gosto de cancioneiro popular e de gente que tem um discurso vivo, que nasce da experiência do seu tempo, e não de uma tentativa de soar como o artista X ou Y.  

Todo o mundo sabe que ser músico no Brasil não é nada fácil, como tem drilblado neste tempo todo as dificuldades, e alguma vez já pensou em desistir?

Eu não tenho driblado muito bem as dificuldades. Volta e meia falta dinheiro para o metrô (risos). Mas acho que a questão é assimilar que música autoral - música independente - é por diversão e amor  (não que outras formas de música não sejam). Só que do ponto de vista financeiro, não faz quase nenhum sentido, menos ainda se não houver dinheiro (seu ou da família) para investir na carreira durante uns bons anos. Eu faço música autoral por que eu gosto e procuro não reclamar das circunstâncias, mas sim rir delas. Eu penso em desistir praticamente todo o dia, mas penso mais em não desistir. Quando eu estou no palco, o som está bom, e há pessoas conectadas com o trabalho (seja uma ou 50), está pago o esforço e eu saio dali incrivelmente feliz. Claro que quando os boletos chegam, o quadro muda drasticamente. 

 

 

Por que a mudança de Porto Alegre para São Paulo, foi difícil se adaptar?

A mudança foi porque eu literalmente fiquei sem casa em Porto Alegre. Morava com minha avó, que morreu, e o apartamento era alugado. Minha ex companheira, atual amiga, Mari Moraga, tinha recém se mudado para São Paulo e me chamou pra morar junto com ela. Passamos um ano no Bixiga e desde o primeiro dia, me senti extremamente em casa na cidade. O caos de São Paulo me pareceu familiar, administrável, e capaz de gerar uma tensão e uma força para romper antigos conceitos (tanto a meu respeito quanto à São Paulo), e me renovar.

Como surgiu o projeto autoral Pássaro Vadio?

O Pássaro Vadio foi algo que eu captei no ar. Eu tava tocando violão na sala de casa e a frase 'Pássaro Vadio de tarde' me atravessou e cantei. A partir daí surgiu essa canção chamada Pássaro Vadio. Depois, tendo morado entre a Austrália e Sudeste Asiático, entre 2012 e 2014, achei que o caráter itinerante que me guiava e guiava as minhas canções, seria bem sintetizado pelo nome Pássaro Vadio. Aí juntei uma galera talentosa de Porto Alegre e São Paulo e ficamos uma semana enfurnados numa fazenda em Itapetininga gravando ao vivo o disco de estreia, Caosmos. Dali em diante surgiu uma banda.

Muitos músicos não gostam de rótulos, como definiria o estilo do grupo?

Coincidentemente, pela dificuldade de nos rotularmos, o selo do qual faço parte, Take One Records, criou uma plataforma chamada Rotule-me, que criava uma junção de termos para definir musicalmente cada pessoa de acordo com o que ela ouvia no Spotify. No meu, saiu 'Popzera Desconstruidão'. Acho que o Pássaro é um pop experimental, vivo, que nasce das minhas experiências, e se multiplica pelo folclóre brasileiro, pelas texturas do que chamam de psicodelia e pelas claves de percussão, beats e grooves que se movimentam entre o ancestral, o pop e o contemporâneo. 

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No álbum Caosmos, os temas das canções são contemporâneos... De que falam a maioria das músicas?

Caosmos é a união de caos e cosmos, e exprime uma ideia de interdependência entre ambos, de multiplicidade, que gera novos códigos e perspectivas. O momento contemporâneo é caósmico. Vivemos uma constante dissolução de signos, certezas, lugares onde se apoiar. É um momento de desconstrução, de voar no ar despedaçado, como diz a música de abertura do disco. Desse voo arriscado, que demanda coragem e desprendimento, pode surgir uma reconfiguração que nos coloque em outro âmbito. Claro que ao mesmo tempo, tem muita gente com medo de se soltar de tal forma que não consiga mais voltar para a terra. Talvez daí surjam esses movimentos de extrema direita que vem ganhando terreno ao redor do mundo e aqui no Brasil. Do ponto de vista mais mundano, o disco tem certa verve tragicômica, subvertendo à amargura e apatia - em Amargurado ou Meu Show Mais Deprê - através do autobullying e da capacidade de rir de si mesmo. Sinto que vivemos um momento de amargura. É importante a tomada de consciência desse fato para que a gente possa superá-lo.  

O que lhe inspira geralmente a compor?

Eu gosto de ouvir umas músicas instrumentais de madrugada e começar a escrever. Às vezes, vem coisas interessantes, e as frases já nascem como que com uma pré-disposição maior a se assentarem dentro de uma canção. Mas gosto muito de ficar arriscando no violão. Quase sempre não vem nada, mas em um ou outro momento eu volto com algo interessante. Daí começo a cantarolar em cima dessa harmonia; sobre meu dia, minhas perspectivas da semana, alguma bobagem que acho engraçado e, nessa mescla de intuição e razão, vai ganhando forma uma música. 

Como está a expectativa para o primeiro show no Rio?

O Rio é um lugar de muita intensidade. Só essa cidade poderia gerar pessoas como Machado de Assis, e sua leitura tão crítica, ácida, viva do Brasil gestada ainda no século 19. Tem uma infinidade de artistas que eu poderia citar. Mas acho que sobretudo esse flerte constante entre caos e cosmos, paraíso e inferno e essa linha que pode estourar a qualquer momento e te levar ao extremo de ambos é o que faz do Rio um lugar especial para mim. Eu me adapto muito melhor a cordialidade paulistana, me sinto em casa em São Paulo, mas acho que uma dose de Rio de Janeiro é importante também, para nos tirar de uma perigosa sensação de marasmo e conforto. Também espero que quem for até a Áudio Rebel vá de peito aberto e consiga exorcizar qualquer resquício de amargura.  

O que o público pode esperar de repertório, além das canções do álbum?

Existem algumas possibilidades em aberto pro show. Uma delas é uma canção que estará no meu segundo disco e é uma narrativa do centro de São Paulo e seus personagens durante a madrugada. Ela também esboça um futuro distópico, de cyborgs (pessoas com tecnologias acopladas ao corpo). E os prédios luminosos de São Paulo já existindo só na nossa memória, como se a nova estrutura da cidade não fosse mais o aço, mas sim algum algoritmo ou plano ainda inacessível hoje. Às vezes, dependendo do humor da plateia, gosto de tocar Frank Sinatra, e talvez role alguma música daquelas anos 80 e 90 que todo mundo já ouviu um milhão de vezes no rádio e finalmente está podendo assumir que gosta. 

Show Pássaro Vadio. Dia 8/07, domingo. Às 20h. Audio Rebel. Rua Visconde de Silva, 55, Botafogo, Rio. R$ 20,00. Classificação: 16 anos.
 



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