Pop que aguça Madblush

Por Diogo Mendes – Pontofervura


  • 23 de janeiro de 2019
Arte: Jeferson Lorenzato


É possível um pop que fuja da mesmice? O cantor, compositor, dj e produtor musical Madblush prova pelo abecedário inteiro que sim, desde quando despontou, após eps e singles que expressam sua marca pessoal e impacto, atrelados ao seu visual entre o andrógino e queer.

O single Hit de Verão (2019), álbum Cactus (2018) e ep Cactus II (2018) apontam para ácidas críticas a respeito da sociedade, inclusive conciliando técnicas depuradas de música, indo do pop até rap. Nas obras aparecem, como pano de fundo mensagem e traquejo eletrônico.

Se no Intenso Cru (2013) existe a necessidade de galanteio do questionamento. Em Cactus de produção do músico e multi-instrumentista Otávio Mastroberti, conhecido como OTA, os temas intricados ganham destaque e uma lucidez esperada por Madblush toma espaço consigo.

Reunindo alguns trabalhos anteriores e trazendo outra abordagem dentro de 21 canções, o álbum mistura também faixas inéditas. Brasil traduz essa geração, referenciando Renato Russo e Legião Urbana, e sair imune dela consiste em não acordar, assim como a categórica, Não Me Diga o Que fazer!.

Em Chance o som e conteúdo de Madblush estão irretocáveis, sobretudo nos versos com linguagem regional proposital: “ [...] Comigo tu tem toda a chance do mundo [...] ”. Espinhos - Intro e Beijos – Intro trazem toda a gama necessária para as pausas da obra, ousando na vertigem.

Cactus expõem os espinhos do interior para o exterior em cima de quem escuta. Confiando no senso crítico e inteligência do público, não caindo em zonas de conforto que o pop acarreta, buscando em Kiss a própria visibilidade do desejo, e cutuca as feridas na emblemática 4.7.8.24..

Faixa (quase) título, C.A.C.T.U.S de algum resquício da dupla Ottawan, cantado em inglês vira um recado a respeito da paridade. Por miados de felinos no começo da música, Colorful Cat toca à liberdade de como cada um procura pertencer aos grupos, sendo das mais simbólicas remixagens de Cactus.

Sempre Quis segue uma canção de amor ao estilo do artista Rodolfo Mello de Porto Alegre, desencadeando um não sentir de alma de quem se ama. Na música Voltar, observa sobre como também não consegue buscar o que encontra na afetividade – e as solidões de toda mesmíssima festa.

Com menos de dois minutos e sendo umas das músicas de menor tamanho de Cactus, Eva Angélica é uma sagaz análise humorada da radicalidade do discurso religioso no país. Outrossim, Homophobic que relata da homofobia internalizada que pode atingir inúmeros homofóbicos.

Ainda se valendo de músicas com título em inglês que apresentam duplo sentido, Bitch and Rat vai no funk carioca para comentar as dualidades e contradições do feminino e masculino entre homens gays. Make Up acha sua razão de cara lavada para de novo se maquiar, cantando em irônico inglês.

Lovelovelove brinca com a harmonia sonora da palavra “love” aportuguesando de maneira proposital – é ou não é, não sabido. Já em My Radio a afronta sucede de um jeito mais direto com uma levada de guitarra e uma ampliação de algumas palavras para efeito musical bem sucedido.

“ [...] Eu tô cansado de escutar as mesmas vozes criadas pra vender [...] ”, certifica na música Gira em que o lado produtor fica evidente sendo uma das músicas mais iconoclastas a respeito das redes engessadas. Em Bati Kuku (Bônus) cutuca de forma de parodia alguns nomes tarimbados do pop nacional e internacional.

Na música Piscando Assim apresenta toda a sedução para se ouvir o artista, igual a dualidade do próximo romance. Fechando o álbum, Homophobic - Ota Quebra Mix é espaçosa e fritante, assim como próprio Cactus irrefreável, por causa disso incide. Propulsão confunde-se com Madblush.

Já no ep Cactus II há as músicas mais combativas do álbum Cactus, experimentando outras sonoridades ao passo que se encaixam no universo do ep Cactus I (2017) e os singles C.A.C.T.U.S - OTA Remix (2018) e Hit de Verão. Funcionando sobretudo este derradeiro, como entrada desses trabalhos anteriores.

Pop que aguça Madblush está ligado com um estilo na música popular brasileira de pouco receio da experimentação, não fraquejando no ato de arriscar em todas as etapas da criação de música, além dos tópicos da política e questões de gênero. Rosa e azul para muita gente tanto faz.

Link: https://pontofervura.wordpress.com/2019/01/18/pop-que-aguca-madblush/

 



Veja Também