Noriel Vilela batucando apruma - Música, Nacional, Resgate

Por Diogo Mendes – Pontofervura


  • 08 de abril de 2019
Foto: Reprodução Youtube


Musculatura do samba brasileiro em geral não é o vozerio. Tirando algumas exceções, como o cantor Noriel Vilela, além da voz encorpada, foi dos artistas da MPB que mais dialogou com as religiões afro, inclusive sendo um dos poucos sambistas do período representantes da trama.

Eis o “Ôme” (1969) de Noriel Vilela proporciona 13 canções, saindo de temas que poderiam parecer individuais para um fascínio unânime. Com sua voz de baixo profundo, de uma sonoridade cavernosa, registrou as comunidades do Brasil, logo após se tornando frequente por demais artistas.

Balançando, a faixa que abre o álbum, Promessado de Carlos Pedro apresenta um personagem que fala como se fosse um pai de santo. Enquanto os arranjos vão antepondo a voz do cantor do mesmo modo brinca com as próprias nuances vocais – aliás, uma das características de Noriel Vilela.

Saravando Xangô de Avarése e Edenal Rodrigues, o recurso de utilizar entonações de deidades, neologismos, trocadilhos e ditos populares voltam desde que a minutagem da canção começa. Cancioneiro do deus da justiça, raios, trovões e fogo, também considerado protetor dos pensadores.

 “ [...] E se guáda noturno vem chegando/ Suncê óia pa ele que ele vai andando [...] ”, garante a canção de Só o Ôme de Edenal Rodrigues, uma das mais icônicas com fim eletrizante por teclas. Quanto à necessidade daquele personagem, conta de como realizar, um ritual para ter a vida desamarrada.

Já em Meu Caboclo Não Deixa parceria de Avarése e Edenal Rodrigues, Noriel Vilela invoca a proteção da caboclagem de Eis o “Ôme”. Ainda que com uma arma apontada para si, ao invés de sair uma bala, a maneira da letra, o verso de onde gera uma flor, das marcas desse recente opressivo.

Na canção Pra Iemanjá Levar de Delcio Carvalho destaca comparecimento de instrumentos de sopros. Após um coral fazer introdução até a entrada do cantor, assim narrando a morte de seus irmãos, igual assinala a letra do compositor que teve parceria de longa data com Dona Ivone Lara.

Em Samba das Águas de Josan de Mattos, a fórmula inicial da faixa anterior é repetida, só que minimizada. Pode ser ponderada essa faixa “irmã / parente” da anterior até pelo fato de centralizar na figura de Iemanjá, ademais as águas trazem na interpretação do cantor um quê muito próprio.

Da melancólica letra Sixteen Tons dos anos quarenta atribui ao cantor country americano Merle Travis que reproduz a vida de mineiros estadunidenses. Roberto Neves compôs a versão 16 Toneladas interpretada por Noriel Vilela, apenas lembrando a melodia em Eis o “Ôme”, e tão melhor no que concerne a original.

 

 

“ [...] Eu ta vendo no copo, eu vai dizê: / Rabo de saia fez feitiço para assumcê [...] ”, nestes versos humorísticos e corpóreos da música, Eu Ta Vendo No Copo de Edenal Rodrigues e Avarése. De novo, Noriel Vilela consulta, ou seja canta sobre os bastidores humanos das mandingas.

As cordas do corinho iniciam a música Acredito Sim de Edenal Rodrigues e Avarése, enquanto o cantor interpreta em alto e estupendo som a respeito de sua crença. Depois recebe acompanhamento de um coro composto de vozes femininas, ainda mais distendendo voz e divindade.

Peço Licença de Avarése, na música Noriel Vilela enfatiza que todas as religiosidades deveriam – pelo menos na teoria –  se respeitarem. Assim não havendo “doutrinação” durante o álbum Eis o “Ôme” à umbanda, o que não ocorre em muitos casos de outras religiões de artistas da música brasileira.

Cabrocha a música Cacundê, Cacundá de José de Souza e Orlando vai buscando o sacudir do samba. “ [...] É samba na base da cacunda / Mas tem que saber balançar [...] ”, solta os versos na voz do cantor, cheio de uma musicalidade repleta da atmosfera malandra e ao mesmo tempo sedutora.

Bastante jazzística misturada com samba brasileiro, Acocha Malungo de Sidney Martins exalta a negritude. A cantiga, como consiste na afirmação do intérprete expande quase em cambiante de angustia um período de sofrimento do povo negro no país. Faz balanço, Noriel Vilela da injustiça.

Única letra que o intérprete assina como compositor junto de Sidney Martins em Eis o “Ôme”, Saudosa da Bahia têm sopros e cordas. Provando faceta pioneira que não fica apenas nas temáticas, também atitude, visto que naquele período pouco existia recepção aos artistas negros.

Noriel Vilela batucando apruma antes do gueto ser gueto, da comunidade ser comunidade, do empoderamento ser empoderamento, apenas favela e samba. Favela concebe sambistas, samba destina ícones, até mesmo os lembrados, e aqueles perecidos, no caso de intérprete do sambalanço, pesado; vivíssimo.  

Link: https://pontofervura.wordpress.com/2019/03/15/noriel-vilela-batucando-apruma/

 



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