Na penumbra Jards Macalé sacode

Por Diogo Mendes – Pontofervura


  • 14 de março de 2019
Foto: Reprodução Instagram


Vocal hipnótico, vocal atípico. Raro momento um artista consegue – realmente – hipnotizar. A partir disso, exercer hipnose propondo sugestão primeiro consigo, quanto ao relacionamento pela música, depois do público no ínterim que não desarmoniza das referências.

Besta Fera (2019) do musicista Jards Macalé apresenta musicalidade afinada e implacável nas letras. Barroco ao passo que da vanguarda, o álbum equilibra muitas das faixas com construção desenvolvida, além de serem vultuosas em alusão dos acontecimentos da atualidade.

Com direção artística de Romulo Fróes, produção de Kiko Dinucci e Thomas Harres, também apresenta nomes como Pedro Dantas, Tim Bernandes, Guilherme Held, Rodrigo Campos, Juçara Marçal, José Carlos Capinam, Clima, Ava Rocha, Thiago França, entre outros. De 12 faixas autorais após o anterior, O Q Faço é Música (1998).

Funesta, a canção que abre o álbum Besta Fera, Vampiro de Copacabana observa pela ótica de uma entidade vampiresca a cidade do Rio de Janeiro. Meio sinistra a interpretação do aluno do maestro Guerra-Peixe é uma imagem atenta de uma das localidades mais famosas e visitadas do país.

 

 

A faixa Besta Fera, o leitor de Gregório de Matos traz o poema Aos Vícios em uma versão aprumada. Ainda mais ardida pela presença do instrumento de cordas, notoriamente manejado por um músico, que por recortes e cortes, nivelou sua voz e a mensagem do poeta da época colonial.

“ [...] Chegamos ao Limite da água mais funda/ Levanto o olhar pro céu [...] ”, assevera a borbulhante canção Trevas, que tem influência de Canto I de Ezra Pound. Além do típico selo Jards Macalé, recitando versos em um balde de água.

Buraco da Consolação de Tim Bernandes e Jards Macalé, logo decorre arranjos que iniciam com sopros, quase jazzístico, quase bossa nova, quase mistos em Besta Fera. Pela contramão das vias de São Paulo em passeio, a canção comenta dos fundos dos poços que cada pessoa enfrenta.

Paternidade é tema de Pacto de Sangue de Jards Macalé e José Carlos Capinam, enquanto uma cidade nebulosa, criada em começo pela figura paterna cresce. A sonoridade desta faixa está em uma das mais belas conseguida pelo parceiro musical de Torquato Neto e Waly Salomão, e arranjador de Gal Costa, Maria Bethânia e Caetano Veloso.

Em Obstáculos, Jards Macalé canta beirando ao declamativo, suavizando ala João Gilberto, e cede destaque para o violão. Com quem tem uma espécie de relacionamento de refúgio, selando os versos: “Sobre vidros e cascalhos/ Sobre espinhos e vergalhos/ Vou levando a vida assim [...] ”.

Meu Amor, Meu Cansaço é a faixa que pode ser considerada romântica sem perder a identidade do artista. Tortuosidade, irreverência, dualidade, anarquia, inquietação são os ingredientes, junto de um instrumental entre a bossa nova e psicodélico, contemporâneo e revisitado.

 

 

Já em Tempo e Contratempo, a percussão rola solta no que contrasta com uma letra que reflete temporalidade. Até o arranjo apresentar momentos de explosões, inclusive estrondos acontecem em várias ocasiões dentro do álbum Besta Fera. Estampido de lusco-fusco é Jards Macalé.

Por sua vez, Peixe começa com a voz da cantora Juçara Marçal, afluindo rumo à interpretação do próprio Jards Anet da Silva ou Macao. Factível acompanhar o rasante nado, portanto viagem desse animal vertebrado e aquático nas águas que dizem por si só sobre a fauna e flora.

Um samba de batuque melancólico, Longo Caminho do Sol tem participação de Romulo Fróes e Clima. Seja a faixa de quebra da nevoa das primeiras músicas para se aproximar de uma desesperança, contudo sem deixar de pensar na esperança – como utopia, ora sonho, ou quimera.

Diante da quimeraLimite de composição de Ava Rocha asseda as fronteiras do viver ainda assim sem perder o traço da tentativa. As beiradas são encovadas, escovadas, esforçadas (perdão, os cacófatos), expostas em um arranjo de cordas sintonizando uma canção que ultrapassa a simples impressão do abismo.

Calor e verdade resumem a faixa Valor em que Jards Macalé pergunta qual preço da bravura por arte? Relatando sua vida imersa em música e poesia, misturadas o tempo todo até que o álbum Besta Fera recebe um sonoro remate/ prelúdio pela própria voz característica do artista.

Na penumbra Jards Macalé sacode em um dos seus álbuns mais harmônicos da carreira, hipnotizando com um fôlego inconfundível das outras fases. Haja sopro à margem, como sentencia na música, Limite: “ [...] À beira do mal, à beira do bem, da violência, da fome e do sonho [...] ”.

https://pontofervura.wordpress.com/2019/02/22/na-penumbra-jards-macale-sacode/

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