Maria Beraldo e o “grito de liberdade de uma mulher lésbica”

Cantora faz show de lançamento do seu álbum de estreia Cavala no Rio


  • 26 de outubro de 2018
Foto: José de Holanda


Por Redação

A cantora, compositora e clarinetista paulista Maria Beraldo faz o show de lançamento do seu álbum de estreia Cavala (2018, Risco), nesta sexta-feira, 26 de outubro, no encerramento do Festival Levada +, no Oi Futuro no Flamengo. 

O som dela tem camadas de ruídos eletrônicos, diálogos com o jazz e versos orientados pela profunda sensibilidade de temas bastante atuais. O disco é apresentado como “grito de liberdade de uma mulher lésbica“ e transborda a alma feminina sem rótulos, passeando pelas descobertas da cantora.

Foto: José de Holanda

Quando e por que decidiu levar seu ativismo para o palco?

Na verdade, foi a composição que me mostrou que eu era ativista. Quando comecei a compor, as primeiras músicas falavam da minha sexualidade porque era uma coisa muito latente em mim e com a qual eu não estava exatamente bem resolvida. Compor, dizer, foi um jeito de elaborar e encontrar paz com relação a mim mesma e minhas relações sociais e íntimas. Quando comecei a cantar para as pessoas essas músicas que abordavam esse tema, ou seja, quando levei pro palco (em seu sentido mais amplo), estava iniciado meu ativismo. É absurdo que uma mulher lésbica falar de sua sexualidade seja ativismo. Mas é assim que é. Com o tempo fui percebendo a posição em que estava me colocando e isso fez muito sentido pra mim, me senti bem como compositora, como ativista da luta para poder simplesmente existir e ter minhas liberdades básicas. Me conectei com muitas mulheres a partir desse processo e estamos construindo alguma coisa. Estamos dando continuidade ao muito trabalho que já foi feito pelas outras gerações, que doaram seus corpos à luta, e nos espera um longo caminho.

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Já sofreu algum episódio de intolerância ou discriminação por conta de sua condição sexual?

Sim, mil vezes. Desde quererem levar eu e minha namorada pra encontrar Jesus, até homens querendo participar de beijos para os quais não estavam convidados, passando por falas na rua do tipo 'Vocês não têm vergonha não?' quando eu andava de mãos dadas com minha namorada. Desde que virei mais sapatona, mais ativista, mais assumida, não tem acontecido isso comigo. Acredito que a gente crie campos de defesa onde ninguém chega quando se fortalece. Por isso o ativismo é tão importante para nós ajudarmos nesse fortalecimento.

Desfez alguma amizade ou está sem falar com algum parente por conta das eleições?

Minha família, que sorte, é em sua maioria de esquerda. Tem algumas poucas pessoas de direita mas que não chegam ao ponto de votar no Jair Bolsonaro, o que seria totalmente ofensivo a mim. Tenho conversado com algumas pessoas favoráveis ao 'Bozo' e não sou de desfazer amizades. Acho importante conviver com a diferença e conhecer bem o 'inimigo' - não digo assim de quem vota nele necessariamente, mas do que sua possível eleição provoca e provocaria.

Foto: José de Holanda

Que artista o álbum Cavala aponta?

É um álbum que aponta uma jovem compositora, com bagagem de instrumentista rodada (de Arrigo Barnabé a Elza Soares), que diz de si, do seu tesão, de sua homossexualidade, da história de sua vida a partir da história da vida das mulheres de sua família (para frente e para trás) e dialoga com os homens que, diante de uma estrutura patriarcal, são os pilares de sua composição. O álbum aponta ainda uma artista que está inserida num contexto de coletividades e sororidade, em que a CAVALA são muitas mulheres e ao mesmo tempo a descoberta de sua individualidade.

O que os cariocas podem esperar do seu show?

Podem esperar uma figura monstruosa que faz música de afeto com eletrônicas, guitarras sujas e vozes molhadas, bastante noize e música de sapatão.

Show Maria Beraldo. 26/10, sexta-feira. LEVADA + Lab Oi Futuro. Rua. Dois de Dezembro, 107, 5º andar – Flamengo. Às 19h. Entrada franca. Censura: 18 anos. * Como as vagas são limitadas, o público precisará fazer a inscrição prévia por meio de um link que será disponibilizado nas redes sociais do Oi Futuro (e replicado na página do festival no Facebook) sempre na véspera de cada show, às 10h. De brinde, os inscritos poderão participar de um bate papo com o artistas sobre música independente e curtir DJs no warm up.  



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