Marcelo Quintanilha: “Cazuza viveu e compôs com densidade”

Cantor lança o álbum Caju, com 11 releituras da obra do nosso “poeta”


  • 05 de março de 2018
Foto: Drausio Tuzzolo/Divulgação


Por Luciana Marques

Da escola “santíssima trindade” da música brasileira, como define Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano Veloso, suas grandes referências, Marcelo Quintanilha homenageia em seu mais novo trabalho outro monstro sagrado da nossa música, Cazuza. Em 4 de abril de 2018, o compositor faria 60 anos. No álbum intitulado Caju, apelido do cantor, ele traz 11 releituras da obra do "poeta". “Foi muito difícil fazer a seleção entre tantas e tão lindas canções”, conta Quintanilha.

No repertório, Blues Piedade ganhou versão à capela num coro gospel; Codinome Beija-Flor, uma versão de valsa; ExageradoAzul e Amarelo; e Brasil, com a participação de sua filha Nina Quintanilha. No disco, ainda a canção Caju, composta pelo próprio Marcelo, reverenciando Cazuza com versos. O show de Caju, já disponível em todas as plataformas digitais, deve ser lançado em abril, com direção de Daniela Mercury.

Carreira

Paulistano, Marcelo cresceu no meio musical. Seus pais tocavam acordeom e, desde cedo, o estimularam a aprender alguma instrumento. Depois da flaut e teclado, começou a tocar violão, com 10 anos. Aos 23, classificou-se como o compositor mais jovem entre os finalistas do Festival da Record, com a canção Domingo Outra Vez.

Seu primeiro CD foi Memorfosicamente, em 1995. Hoje, já soma nove álbuns. Como compositor, já teve canções gravadas por Daniela Mercury, Belô Veloso, Vânia Abreu, Padre Fabio de Melo e Nando Reis.

"Cazula circulava por todos os estilos musicais com muita propriedade e talento, sem se importar com rótulos e conceitos. Um artista completo, à frente do seu tempo."

Como surgiu a ideia de lançar o álbum Caju?

Em meados do ano passado, descobri que Cazuza faria 60 anos em 2018. Logo veio a ideia de homenageá-lo com um álbum de releituras de suas canções, já que desde Cassia Eller, ninguém mais tinha lançado um CD só com seu repertório.

O que as pessoas vão poder ouvir no disco, releituras de quase todos os sucessos do Cazuza?

Escolhi as canções, segundo minhas preferências pessoais, claro Mas também percebendo quais músicas de Cazuza se encaixariam no conceito que queríamos imprimir ao álbum: o de valorizar o texto, o lado poético de Caju, e que coubessem numa roupagem mais suave, elegante. Foi muito difícil selecionar 11 canções entre tantas e tão lindas. Mas acho que conseguimos um apanhado geral entre grandes sucessos e canções menos conhecidas, como Azul e Amarelo, por exemplo.

Foto: Drazio Tuzzolo

O que você mais destacaria na pessoa e no artista, cantor e compositor Cazuza?

Sempre digo que Cazuza foi intenso e livre. Viveu e compôs com muita densidade, nos trinta e dois pouquíssimos anos que viveu, e com uma liberdade invejável. Circulava por todos os estilos musicais com muita propriedade e talento, sem se importar com rótulos e conceitos. Um artista completo, à frente do seu tempo, como os artistas completos sempre são.

"Essa era digital está possibilitando a comunicação direta e instantânea entre o artista e seu público, seu nicho de mercado, o que é sensacional, porque se pode cuidar dessa relação de maneira muito mais focada, direcionada, viável e barata!"

Quais as suas referências?

Minhas maiores referências sempre foram os compositores de música brasileira, tanto da velha guarda, como Noel, Cartola, aliás, um dos preferidos de Cazuza, e principalmente a 'santíssima trindade' Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano Veloso. Sem esquecer, claro, de Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Djavan, João Bosco... Passei minha infância e adolescência aprendendo a ouvir, cantar, tocar e compor dentro desse universo sagrado da música popular brasileira.

E se falarmos de estilo, qual definiria o seu, ou prefere não se rotular?

Sou uma cria dessa escola clássica da MPB. Acho que minha produção musical se encaixa nesse espectro, que possui uma abrangência razoavelmente ampla.

Ser músico no Brasil nunca foi tarefa fácil. Acha que agora, nessa nova era digial, com as plataformas, a música ficou mais democrática e, de certa, ajuda a todos os artistas?

Com certeza! Estamos vivendo uma transformação, uma revolução na maneira de se produzir e divulgar a música, e não só ela, tudo o que se possa imaginar. A mídia tradicional, mesmo que ainda detenha grande poder sobre o que chega ou não ao grande público, agora não tem mais o monopólio sobre isso. Essa era digital está possibilitando a comunicação direta e instantânea entre o artista e seu público, seu nicho de mercado, o que é sensacional, porque se pode cuidar dessa relação de maneira muito mais focada, direcionada, viável e barata!

"Minhas canções falam sobre meu jeito de ver o mundo e sobre sentimentos e pensamentos que, quando são gravados por outros artistas, descubro que não são só meus, o que os amplia e dá mais significado a tudo."

 

 

Você tem composições na voz de muitos artistas. Como é o seu processo de criação?

Minhas canções falam sobre meu jeito de ver o mundo e sobre sentimentos e pensamentos que, quando são gravados por outros artistas, descubro que não são só meus, o que os amplia e dá mais significado a tudo. Adoro ouvir minhas canções em outras vozes. Às vezes, claro, componho sob encomenda, mas não é o usual. Componho o que vejo, penso e sinto. Quando se descobre que não se está vendo, pensando e sentindo sozinho, tudo ganha sentido. Seja na voz de outros artistas ou na resposta do público.

"Sou uma cria dessa escola clássica da MPB. Acho que minha produção musical se encaixa nesse espectro, que possui uma abrangência razoavelmente ampla."

Tem alguém da nova geração da música que você destacaria?

Gosto de João Cavalcanti e da sua Casuarina, curto Dani Black, Moreno Veloso. Adoro o português Antonio Zambujo também. Outro dia ouvi cantar um menino, Ayrton Montarroyos, e adorei seu timbre, seu jeito de cantar.

E você escuta de tudo, ou há algum gênero que não curte?

Escuto de música clássica à música de carnaval, o que aliás adoro, e tenho um projeto há 5 anos: Os Marchistas. Não curto mesmo sertanejo e funk carioca.

E como é ter a Daniela Mercury na direção do seu próximo show?

Daniela é sinônimo de surpresas, sempre! Estou super empolgado em tê-la me ajudando nesse show. Contar com ela é a cereja do bolo desse projeto. Quando você acha que o show está pronto, lá vem ela com uma carta na manga e me enlouquece. Tô adorando isso (risos). Devemos estrear em abril. Assim que souber exatamente onde e quando, prometo contar!



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