Ivo Meirelles: “Não é fácil um favelado fazer sucesso na música”

Ele volta com o Funk'n Lata 12 anos depois e lança versão do Hino Nacional


  • 25 de maio de 2018
Foto: Divulgação


Por Luciana Marques

Ele toca repilique desde os 8 anos, é cantor, compositor e multi-instrumentista, já foi mestre de bateria e presidente da escola de samba Mangueira. Ivo Meirelles nem precisa de apresentação. Com seu estilo irreverente, suas falas, para alguns, polêmicas, mas ele é assim, transparente, e não faz tipo. “Sou apenas um ser humano que prima pela liberdade de expressão Às vezes, quebro a cara, mas não me arrependo. Fiz por vontade própria, e quando é assim, está absolvido”, diz.

O certo é que Ivo está sempre se reinventando. Agora, ele acaba voltar com o Funk'n Lata, grupo de percurssão fundado por ele, em 1995, que fez muito sucesso na Europa. Junto da banda, que mistura elementos tradicionais de samba com ritmos como o funk, o rap e o soul, ele gravou o álbum #21, repleto de sucessos e participações de grandes nomes da música, como Gilberto Gil, Samuel Rosa, Seu Jorge, Elba Ramalho.

As 14 faixas do disco estão sendo lançadas separadamente. Hoje, sexta-feira, 25 de maio, ele disponibiliza nas plataformas digitais a versão da banda para o Hino Nacional.

Com vocês, Ivo Meirelles!

Ivo com o Funk'n Lata. Foto: Daniel Pinheiro

Por que relançar o Funk'n Lata agora, 12 anos depois do fim da banda?

Eu lancei o Funk'n Lata acho que numa época errada. Onde não se tinham bandas no setor com as características dela, com surdo, tamborim, repique, caixa, e instrumentos do pop, baixo, guitarra, metais. Então, o Fun'k Lata foi pioneiro num momento em que ninguém ainda tinha know-how para isso. E de tanto malhar em ferro frio, a gente fazia muito show na Europa, mas no Brasil era difícil de colocá-la, até em rádio. A gente ensaiava também para o público debaixo do viaduto da Mangueira. Mas eu gastava muita grana com isso. E resolvi dar uma segurada e lançar um disco solo. A gente não pode ficar sem lançar música durante muito tempo, a memória do brasileiro é muito curta. E aí logo depois que parei com o Funk'n Lata, em 2006, foram surgindo bandas com esse perfil. E agora resolvi relançar, o mercado deu uma afrouxada para esse segmento, e achei que era hora de voltar e mostrar de onde onde surgiu tudo, de onde começaram todas essas bandas.

O que vocês estão trazendo de novo no álbum #21?

A gente está trazendo muita coisa que a gente fazia no palco, inclusive muitas músicas foram regravadas por bandas com o mesmo perfil. Mas a gente tem uma levada diferente, a gente adota para cada música uma levada, de surdo e de caixa diferente, isso dá o toque Funk'n Lata. Então, de uma música para a outra, você percebe que o arranjo muda muito. E aproveitar também esse momento político que o país está vivendo, para lançar o Hino Nacional, que a gente só tocava na Europ. Depois eu levei isso para a bateria da Mangueira e era um frisson quando as pessoas assistiam aquilo. E como o grupo Funk'n Lata é todo da Mangueira, resolvi traduzir isso em disco. E a gente está lançando hoje a versão do Hino Nacional , era mais pelo momento político, mas acabou culminando também que tem uma Copa do Mundo chegando. E pode servir para embalar possíveis vitórias do Brasil.

Teve uma parceria sua com o Frejat na música No Morro Não Tem Play. Acha que falta hoje mais canções assim políticas como tinha muito na década de 80?

Hoje a música está muito pobre. A música que faz sucesso hoje no Brasil, e não é uma crítica a nenhum cantor em especial, a música está pobre, acho que pelo nível nosso, do ouvinte. Eu acho que a gente vê alguém estourado no YouTube e sai ouvindo, cantando, tocando, e não se preocupa muito com o discurso da música. E nos anos 80, e até nos 90, o discurso era muito importante, principalmente o social. E as músicas do Funk'n Lata, pelo menos as músicas que eu escrevo tem esse cunho, de narrar o cotidiano do meu local, da minha cidade, do meu bairro. Então, a gente fez isso com O Coro tá Comendo, muitas músicas. E esta com o Frejat, No Morro Não Tem Play, é dos anos 90, e que a gente não teve a oportunidade de lançar. E achei que era o momento, exército nas favelas, UPP que não deu certo, a criançada tomando bala perdida dentro de colégio. Resolvi fazer para mostrar um pouco da realidade do cotidiano de quem mora numa comunidade dessa e tem seus filhos brincando na rua e, a qualquer momento, pode acontecer uma fatalidade. Então, é só um alerta.

Foto: Reprodução Instagram

Você começou a tocar repilique com 8 anos de idade, foi mestre de bateria da Mangueira, é multi-instrumentista... Mas a gente sabe que ser músico no Brasil não é fácil. Como avalia a sua caminhada, se arrepende de algo, faria algo diferente?

Eu não errei. Eu acho que faltou para mim uma colocação profissional melhor. Não é fácil um favelado fazer sucesso na música do Brasil. A gente vê aí alguns de sucesso, que a gente levanta as mãos para o céu e agradece. Mas dentro do universo que é, esses talentos de favelados que não chegam a lugar nenhum, é muito pequeno. É quase invisível, são pouquíssimos. Na época, então, que tinham os Mcs, era uma época que estava realmente aflorando bastante a quantidade de favelados que alcançavam alguma coisa. Claudinho e Buchecha, Wilian e Duda, Danda e Tafarel, era a época do rap nacional. Depois isso foi mudando. Mas é muito difícil para um favelado se colocar profissionalmente porque falta preparação, instrumentos adequados, um empresário que apoie e invista, falta muita coisa. Então, é um na multidão que consegue virar alguma coisa.

Mas você tem noção de que é uma referência para as crianças da comunidade, né?

É, mas eu acho que sou mais uma referência de luta do que de sucesso. Eu não tenho um estrondo nacional, uma coisa que faça qualquer jovem de outro lugar falar, ah, essa música... Eu tenho certeza que sou referência pela minha luta, pela minha causa, pelas coisas que eu venho batalhando nesses anos de carreira.

Ivo com Sandra de Sá e a banda. Foto: Daniel Pinheiro

O que você escuta hoje?

O que eu escuto hoje é o que eu escuto desde sempre. No Brasil, Nelson Cavaquinho, Cartola, Jorge Ben Jor, Sandra de Sá, Paralamas do Sucesso, Fernanda Abreu, Monarco. Fora, eu tenho meus ídolos de sempre, James Brown, Michael Jackson, Jackson Five, Lenny Kravitz, Led Zeppelin, Eric Clapton. Então, eu misturo muito a minha música com as coisas que eu gosto.

Como está hoje a sua relação com a Mangueira? (ele foi presidente de 2009 a 2013)

As pessoas confundem muito a minha relação com a Mangueira. Eu não sou um mangueirense que chegou lá. Não sou, por exemplo, Alcione, Beth Carvalho, não me tornei mangueirense, eu nasci na Mangueira. Mesmo se não tivesse a escola de samba na minha vida, o que acabou acontecendo naturalmente, eu seria um mangueirense nato porque nasci no Morro da Mangueira, como tantos outros que tem lá, e não são conhecidos. Então, a minha vida na Mangueira acabou se confundindo por conta da paixão pela escola de samba e com o envolvimento que eu tive com a escola. Eu fui presidente da bateria, mestre de bateria, vice presidente da escola, presidente da escola, tive samba-enredo campeão. A Mangueira é minha vida, a minha referência, independente da política. A política quando entra em qualquer setor da sociedade, ela divide. Então, quem está hoje dirigindo a Mangueira não tem a minha aprovação e, automaticamente, é recíproco, eles não me veêm como alguém que pode estar ao lado deles. Mas na política é assim, as pessoas passam, a instituição fica, e eu serei Mangueira para todo o sempre.

Há esperança para o Rio, para o Brasil?

Eu acho que a Lava Jato nos deu essa esperança.. Há muito tempo a gente reclama que o país é rico, mas não tem educação, saúde, segurança... Mas a gente tem visto algumas coisas acontecerem, que não aconteciam antes. De poderosos irem presos, então, é um começo. A gente percebe que toda essa grana desviada ilicitamente, se tivesse sido aplicada no nosso país, o Brasil estaria num outro patamar. Então, eu acho que é um recomeço, eu acho que o Brasil está recomeçando.

Ivo por Ivo, como se definiria?

Me considero uma pessoa normal, tenho gostos e vontades que todo o mundo tem, mas tenho meus princípios. Me chateia muito quando alguém fala assim, ah, o Ivo Meirelles é polêmico. Polêmico é rasgar dinheiro, ficar nu no meio da rua. Então, quando pinto meu cabelo de vermelho, pinto porque posso pintar, sou um ser humano. Tem gente que acha que um negro não pode pintar o cabelo de vermelho, de rosa, fazer isso, fazer aquilo. Então, sou apenas um ser humano que prima pela liberdade de expressão, me considero o dono de mim. Faço aquilo que acho que devo fazer, sem arrependimentos. Às vezes, quebro a cara, mas nem quando quebro a cara, me arrependo. Fiz por vontade própria, e quando você faz por vontade própria, está absolvido.

Agradecimento: Tea Shop Rio Design Barra. Av. das Américas, 7777 – Barra da Tijuca. Piso Térreo – loja 156.



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