Edson Cordeiro: "O talento no Brasil incomoda. Fui um pouco vítima disso, mas sobrevivi"


  • 07 de novembro de 2017
Foto: Selmy Yassuda


Por Ana Júlia

Um dos mais versáteis cantores da atualidade, Edson Cordeiro chega aos 50 anos de idade e 30 de carreira feliz com sua singular caminhada. Arrependimentos? Vários! Mas, segundo o cantor, que hoje vive na Alemanha, onde já recebeu títulos de A Oitava Maravilha do Mundo e Ave do Paraíso por sua variedade tímbrica, o bônus é bem maior do que o ônus. “O legal é poder olhar para trás e ver que, se terminar agora, você deixou uma obra. Tenho muito orgulho da forma que marquei a vida até hoje ”, ressalta.

Na conversa com o Portal ArteBlitz, Edson, que recentemente lotou casas de espetáculos no Brasil com a turnê de seu 12º e mais novo álbum, Fado Tropical, em que interpreta alguns dos mais belos e famosos fados, abriu seu coração. Ele revela por quem deixou o vício da bebida e faz um chamado contra o racismo e a homofobia. “O mundo está cada vez mais perigoso. Não me sinto seguro sendo abertamente homossexual, não nos aceitam ainda”, diz ele, que planeja novo CD e um documentário sobre os 30 anos de trajetória artística.

" Acho que o legal é poder olhar para trás e ver que, se terminar agora, você deixou uma obra. Tenho muito orgulho da forma que marquei a vida até hoje."

- 50 anos é uma idade emblemática. Como se sente?

Com 50 anos você começa a perceber que tem mais passado do que futuro. Brincadeira, não é tão dramático assim (risos). Acho que o legal é poder olhar para trás e ver que, se terminar agora, você deixou uma obra. Tenho muito orgulho da forma que marquei a vida até hoje. Com os CDs, o público que conquistei e como homem também. De estar com 50 me sentindo tranquilo, aceitando a idade e o tempo com elegância e serenidade. Porque é a serenidade de quem sente que realizou um trabalho e está realizando ainda, mas, se morresse agora, sentiria muito orgulho do que já fez.

- Nesses 50 anos de vida e 30 de carreira, se arrepende de algo?

Me arrependo! Essa história de que não me arrependo, de que faria tudo igual... Eu não sou assim! Acho que o impulso na juventude, não só nessa fase, mas nas atitudes e decisões que tomei, sempre poderia fazer melhor. Me arrependo de algumas coisas que fiz porque agora teria mais experiência para fazê-las melhor. Mas já tá feito. Agora, acho que a porcentagem do que acertei é bem maior do que eu fiz errado.

- Além de navegar em vários estilos musicais, no palco você mostra um virtuosismo inigualável. Por conta disso, você disse que já sofreu certo preconceito. Poderia explicar melhor isso?

Uma coisa que eu senti no Brasil, pelo menos na minha carreira, quando a gente tem um certo virtuosismo, que eu acho que eu tenho, com a minha voz, as famosas oitavas e uma extensão muito grande, assusta um pouco. E sempre assustou! Na verdade, acho que o talento no Brasil, às vezes, incomoda, porque muita gente se satisfaz com pouco. No início da carreira  cheguei a ler o seguinte absurdo num jornal: 'Edson usa a voz como marketing'. Eu acho interessante isso porque, o que eu poderia usar como marketing, senão a minha voz. É a minha ferramenta de trabalho. Então, no começo eu me senti perseguido por ter esse talento, esse dom que é natural para mim. Não consigo ir para o palco e oferecer pouco. Quero sempre dar mais. No meu caso, é a voz. Acho que isso é um pouco característica do Brasil, o talento assusta. E quando você tem uma voz extravagante ou alguma coisa que chama a atenção, as pessoas se incomodam. Fui um pouco vítima disso. Mas sobrevivi e estou aqui até hoje.

"Deixei de morar no Brasil, não deixei o Brasil. Sinto que o que eu faço pelo País lá fora, é muito grande."

- Na Europa você já recebeu títulos como A oitava maravilha do mundo, como é para um brasileiro ter esse reconhecimento lá fora?

Acho que títulos, você aceita, resignadamente. Mas com o tempo aprendi a não esperar a opinião dos outros para fazer uma avaliação do que sou. Imagina, se você acredita quando falam que você é um gênio, deve acreditar quando dizem que você é um medíocre. Então, na verdade, não formo a minha autoestima de nenhum lado. Nem do que é bom, nem do que é ruim. Sei o que eu tenho que melhorar, minhas qualidades e defeitos. Mas os títulos elogiosos, agradeço e aceito.

- Qual foi o motivo de ter deixado o Brasil?

Só esse ano, já fui três vezes ao Brasil e fiz muitos shows pelo País inteiro. Gravei até um especial para a TV Brasil, o programa chama Todas as Bossas, em que canto o meu show completo Fado Tropical, com Wallace Oliveira, na guitarra portuguesa, e Sergio Borges, na viola de fado. Então, a minha carreira no Brasil eu nunca deixei, estou trabalhando muito aí. Deixei de morar no Brasil, não deixei o Brasil. Sinto que o que eu faço pelo País lá fora, é muito grande. E percebo que os brasileiros que têm assistido aos meus shows e acompanham a minha carreira na Europa ficam  orgulhosos de verem o Brasil bem representado.

- Atuar novamente, de repente em musical, é algo que sente vontade?

Eu atuei em alguns musicais no fim dos anos 80 , o que foi maravilhoso. O último trabalho no teatro foi com o grupo Ornitorrinco, o Doente Imaginário. Uma experiência fantástica ter trabalhado com Cacá Rosset e toda a equipe. Mas sempre fui o cantor do teatro. O teatro foi a minha opção de trabalho, mas a música e o cantar são a minha profissão. Se um dia recebesse um convite para cantar, fazer um musical, isso poderia acontecer. Mas eu me sinto muito pleno nos meus shows porque sei que ali  exerço tudo o que aprendi no teatro. E não estou sentindo falta, estou feliz do jeito que está.

"Não me sinto seguro sendo abertamente homossexual, a gente vive num mundo que não nos aceita ainda. Então, a gente não pode se calar, falar baixo, a gente tem que gritar pelos nossos direitos."

- Hoje em dia em todo o mundo se pede mais tolerância, porque os preconceitos são os mais diversos e absurdos. Você já sofreu algum tipo de preconceito?

O problema da homofobia, do racismo, acontece em todo o mundo. Sempre digo que o microfone não é só para cantar. Se tenho a oportunidade de ter a atenção da imprensa, uma câmera apontada para mim, não é só para falar do meu trabalho, CD, é para falar da minha posição política em relação aos direitos dos homossexuais, o meu repúdio contra o racismo. E acho que a gente não resolveu esses problemas e está muito longe de resolver para ficar quieto. A gente tem que ir para a rua, participar dos movimentos que lutam pelos direitos dos homossexuais, contra o racismo, porque o mundo está cada vez mais perigoso. Não me sinto seguro sendo abertamente homossexual, a gente vive num mundo que não nos aceita ainda. Em mais de 80 países existe a pena de morte para homossexuais, isso no mundo que a gente vive hoje. É bom que as pessoas saibam que, pior do que a intolerância, a homofobia, ainda em muitos países, a sua orientação sexual pode te levar à cadeia ou à morte. Então, a gente não pode se calar, não tem motivo para ficar calmo, falar baixo, a gente tem que gritar pelos nossos direitos ainda, tem muito o que tem ser conquistado.

- Quem são seus ídolos?

Os meus ídolos na música, na arte, já falei muito sobre. Então, o meu ídolo maior é uma mulher chamada Odete Lima Cordeiro, a minha mãe. Entre muitas das qualidades da dona Odete, a maior que ela me ensinou e  eu tento praticar, é o perdão. Ela é generosa com as pessoas, sabe ver o lado bom e falar, vai, o perdão ajuda a gente a abrir os caminhos. Dona Odete é a minha grande diva. E tudo o que faço, penso nela. Mudei a minha vida, a maneira de me cuidar, deixei de beber, de fazer um monte de besteira, porque amo a minha mãe. Não gostaria de vê-la triste, sendo testemunha de alguma coisa que fizesse mal a mim mesmo. Mudei para deixar a minha mãe mais feliz, porque ela é a mulher que eu mais amo.

"Dona Odete é a minha grande diva. E tudo o que faço, penso nela. Mudei a minha vida, a maneira de me cuidar, deixei de beber, de fazer um monte de besteira, porque amo a minha mãe."

- Há algum dueto que gostaria muito de fazer?

Eu já fiz tantos maravilhosos. Na verdade, eu gostaria de fazer um dueto com alguém que já se foi. Ela nasceu no mesmo dia que eu, 9 de fevereiro, em Portugal e foi a grande representante do samba no mundo. E eu nasci no Brasil e adoro música portuguesa, fado, então, seria interessante fazer um dueto com a Carmem Miranda. Mas talvez em outra esfera a gente se encontre, porque nessa não dá mais...



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