Deborah Blando: “Me sinto plena aos 51 anos, mais feliz, equilibrada, encontrei a paz”

Na Inglaterra, onde faz curso de budismo, ela lança o “premonitório” Polares, álbum gravado há 14 anos


  • 21 de julho de 2020
Foto: Divulgação


Por Luciana Marques

Aos 51 anos, Deborah Blando define a fase atual como a mais equilibrada e plena da sua vida. Muito disso tem a ver com o encontro do seu caminho espiritual no budismo. “Não é mais um hobby pra mim, agora é a minha vida mesmo, deu um outro significado. Acho que eu tive essa grande sorte de ter encontrado esse caminho espiritual que me deu tanta paz e significado para a minha vida”, conta. Tanto que desde outubro de 2019, ela fixou residência no Manjushri Kadampa Meditation Center, na Inglaterra, onde estuda para se tornar professora de budismo e de meditação. Mas sua outra paixão, a música acabou também tendo um espaço aí.

Depois de apresentar, em abril, o single I Will Never Forget You, de sua autoria, que passa uma mensagem de positividade e esperança em meio à pandemia, a cantora lança o álbum Polares, que define como “premonitório”. Gravado há 14 anos, esse trabalho foi encontrado e mostrado a ela pelo amigo, o diretor de arte Erich Baptista. Na época ele não chegou a ser divulgado por ser “inovador demais”. “Tudo o que a gente está vivendo foi falado em alguma das faixas, que naquele momento pareciam tão conceituais. Eu fiquei chocada! Principalmente revendo as letras. Uma delas fala sobre desinfetar a sala de estar, usar máscaras... Outras sobre hipocrisia, discriminação...”, conta.

Como foi pra você “reencontrar” o álbum Polares nesse momento? Eu fiz uma postagem de tbt, em baixa, do clipe de Tanto Faz, que era música de trabalho na época do Polares. E aí o Erich disse, peraí, eu acho que eu tenho esse material. Ele passou dois dias procurando num depósito e foi achando tudo, todo o material masterizado em Nova Iorque, naquela época. E quando eu ouvi ele em alta, eu fiquei chocada. Eu mandei um monte de recado para o Erich falando, gente, não tô acreditando que a gente falou isso tudo. E era coisa que a gente não ouvia há muito tempo.

Foto: Bruno Nucci

Por que você define Polares como um “CD premonitório”? Fiquei muito surpresa com o quanto era atual, até a sonoridade também, ele é muito moderno, atemporal. Mas fiquei ainda mais surpresa com as mensagens falando do ar contaminado, falando de usar máscaras, de desinfetar a sala, “tantos irão restar dessa sua guerra particular”,  extremamente atual. Na verdade, na época, a gente achou que era uma coisa muito conceitual e era. Hoje não, hoje é realista, é um trabalho moderno.

No momento da sua vida em que você fez o álbum, algumas composições tem a ver com o que a fase que você vivia? Tem bastante. Na época eu estava terminando um casamento, então também tem muita coisa sobre um término de relacionamento ali, que hoje em dia não estou vivendo isso, graças a Deus, graças aos Budas. Mas o que tem muito a ver ainda são as músicas que têm um contexto espiritual e budista. A música Illusions é totalmente budista, tem tudo a ver com o que eu estou estudando no meu curso, de que a realidade que existe nada mais é do que uma projeção da mente e que nada existe inerentemente do seu próprio lado. Então quando eu ouvi essa canção eu também fiquei bem emocionada, porque é exatamente o que a gente tá aprendendo no curso. E também tem amúsica Admirável Mundo Outro, que a gente também fez a versão em inglês, é a música da minha idade pessoal, um buda feminino, o aspectro é feminino e representa sabedoria. Então essas canções pra mim são muito atuais e também as outras que foram premonitórias, Admirável Mundo Outro, Juízo Final, A Hora...

O fato de ele não ter sido lançado na época tem a ver com os estilo “futurista” de ritmos, até nisso acha que foram visionários? Na verdade eu acho que a gente foi. Mas acredito que ouvindo esse disco, cada um tira a sua conclusão, mas fica bem óbvio porque na época não existia música pop, ou seja abc, uma estrutura de música pop com sonoridade eletrônica. Música eletrônica naquela época de 2005/2006,  era somente house music, eletro house, e não tinha vocal na época. Então quando a gente entregou esse trabalho para as gravadoras, eles ficam perdidos, acharam sensacional, genial, mas muito à frente do tempo. Na verdade eles nem sabiam que estava frente do seu tempo ainda, quem sabia eu acho era mais a gente. A gente sabia que isso seria uma tendência, que ia vir a existir. Era meio óbvio pra mim, pro Erich também, que o trip hop já rolava, só não tinha em português, a gente fez as letras em português. E era uma coisa mais europeia, mas a música eletrônica com vocais, eles não sabiam onde colocar. Falaram pra mim, olha, as rádios eletrônicas não vão aceitar porque têm vocal, e as pops não vão aceitar porque é música eletrônica. Então a gente não sabia onde encaixar. Hoje em dia a gente sabe que música eletrônica com vocal faz sucesso no mundo todo. E a gente estava fazendo isso bem antes do tempo.

Foto: Divulgação

Nos anos 90 você viveu um boom na carreira, foi recordista de músicas em trilha de novela... Qual o ônus e bônus da fama, se arrepende de algo, faria algo diferente? Eu acho que todo o aprendizado foi válido pra mim, talvez eu não tivesse voltado ao Brasil numa época em que eu estava no auge no Estados Unidos tanto de criação, como de carreira, estava prestes a ser lançada, voltei por problemas de doença na família. E no final das contas a gente acha que vai salvar alguém e a gente não salva ninguém, né? E eu aprendi, a gente não salva ninguém, a gente só consegue se salvar. E Buda até fala que primeiro a gente tem que entrar no barco pra depois a gente salvar os que estão na água se afogando. Eu acho que eu teria ficado mais tempo no Estados Unidos, é a única coisa que eu teria mudado assim na minha história. E não tem ônus, ter música na novela é maravilhoso, eu adorei ter participado de tanta novela, acho que foram 22 músicas temas das novelas da Globo. A fama na época também foi difícil pra mim. Não tinha internet, a gente não tinha privacidade nenhuma, continua não tendo, mas é bem diferente, as pessoas não abordam, não puxam o teu cabelo, não abordam de uma forma física, ainda mais no Brasil. Nos Estados Unidos é uma cultura diferente, não é uma cultura tão cinestésica, no Brasil precisa tocar, né? E eu não sabia como lidar com isso, era muito nova. E aí eu meio que fugi, não quis fazer uma turnê porque não queria encarar isso. Mas eu acho que faz parte, não sei se essas coisas eu mudaria. Sim, hoje em dia eu tenho uma maturidade diferente. Com maturidade, se você olha pra trás, seria diferente. Aliás, a gente não é a mesma pessoa nem por um segundo, a gente está mudando o tempo todo.

O que a Deborah de hoje falaria para aquela Deborah de 20 anos que vivenciou esse sucesso todo? Não se preocupe, esse CD mais cedo ou mais tarde vai ser lançado (risos). Nem que seja 14 anos depois (risos)...

O que mudou na sua vida desde que passou a seguir o budismo? Mudou tudo, a gente significa a vida de uma forma diferente. Buda falou que a vida em si não tem significado, nós é que colocamos um significado nela. Então se eu quero felicidade pra mim, tem certas coisas que eu vou me abster. Vou me abster de negatividade, de responder a alguém que é grosso comigo. Muda o jeito que você vive, leva a vida muito mais leve e mais pacífica, tranquila e também toma mais responsabilidade, não se vitimiza. Você começa a entender a lei do karma. Se eu tô vivenciando isso, ninguém mais fez isso acontecer, sou eu mesma. Eu plantei isso pra mim, nem que seja em vidas passadas. Então quando você começa a entender, através da lógica, da tecnologia budista, porque Buda foi um grande cientista, quando você começa a compreender a ciência da mente, e que ela existe desde tempo sem começo, o que é eterno não tem começo nem fim, a gente começa a entender que a gente já foi de tudo, já fez de tudo. E tudo que a gente vivencia é na verdade uma manifestação do que a gente criou no passado. O budismo é estilo de vida. Eu até recomendo o público a fazer a inscrição no Festival de Verão que começa no dia 24 de julho. Vocês podem ir no site www.kadampafestivals.org e fazer a inscrição. São duas semanas com duas iniciações e ensinamentos. Hoje, mais do que nunca numa situação dessa, a gente está buscando entender como a mente funciona, poder ter controle, ser feliz, ter paz, menos ansiedade, mais significado e ser menos reativo a tudo o que acontece no nosso redor. E a gente poder aproveitar as dificuldades e transformar elas em crescimento emocional, pessoal e espiritual.

Foto: Bruno Nucci

No fim de 2019 você optou por dar uma pausa na sua carreira para estudar budismo. Como foi vivenciar esse momento difícil da pandemia do coronavírus na Inglaterra? Passar a pandemia aqui na Inglaterra durante o curso foi uma proteção muito grande do nosso guia espiritual Venerável Geshe Kelsang Gyatso Rinpoche. Foi uma oportunidade incrível! Do mundo inteiro somente 32 pessoas foram escolhidas para serem patrocinadas pra fazer esse curso de formação de professores, formação de kadampas. Então tem gente que vai ser professor residente, tem gente que vai ajudar como educador espiritual, cada um com uma função diferente. E foi incrível porque a gente ia ficar retirado do mesmo jeito, tinha aula o dia inteiro, tinha que estudar a noite. Antes a gente dava aula presencial, mas com a pandemia tudo mudou. A gente aprendeu a dar aula por câmera.

Acredita que as pessoas sairão transformadas depois disso tudo, você tem acompanhado o que tem acontecido no Brasil, se preocupa? Acho que as pessoas vão sair transformadas. Astrologicamente em cada 800 anos Saturno, Plutão e Júpiter se encontram, existe uma quebra do sistema, que vamos combinar, estava muito injusto. Tinha muito poder para poucas pessoas e falta de recurso pra grande maioria no mundo inteiro. E no Brasil acho que talvez está sendo vivenciado de uma forma mais intensa essa diferença. Eu estou acompanhando mais ou menos, porque eu estava bem retirada. Mas eu acho que os valores vão mudar e muita coisa vai mudar ainda. Acho que a gente ainda não terminou esse processo de mudança, parece que isso vai até o final do ano ainda, a gente ainda vai ter surpresas. Por isso que eu insisto em dividir isso com as pessoas, de tentar controlar a mente, procurar a paz e fazer coisas boas pra nossa mente, porque tem muita situação desafiadora e difícil no mundo, especialmente no Brasil. Então é muito importante que a gente busque uma força dentro da gente através da fé, que a gente tenha compaixão pelas pessoas que estão sofrendo, que a gente não se deixe contaminar pelo ódio, pela raiva. Eu acho muito importante as pessoas se conectarem com uma vibração mais amorosa. O Venerável Geshe diz que o amor é a maior bomba atômica de todas e a mais contagiosa. Então o ódio, a raiva que acontecem no mundo, a gente pode definitivamente  transformar em algo positivo e sair dessa mais forte e melhor, com um mundo mais humano.

A chegada aos 50 bateu algum tipo de crise? Como se sente hoje e como lida com a passagem do tempo? Não, a crise vem nos 30 eu acho, nessa época do Polares que eu não sabia pra que lado que eu ia na vida, Agora não. Os 50 é uma delícia, acho que a melhor fase da minha vida, nunca fui tão plena, me sinto muito plena. Não tenho aquele apego com peso, botóx. Eu estou aceitando muito bem essa minha fase, não trocaria por nada no mundo, pelos meus 30, nem pelos meus 20. Estou muito mais feliz hoje, mais equilibrada, encontrei a paz, meu caminho espiritual, estou dentro dele.

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