Bruna Araújo lança EP autoral: Talento além do sobrenome

Filha de Emanuelle chegou a negar vocação. “Delicado para mim, mas precisava enfrentar”


  • 24 de outubro de 2018
Foto: Rodrigo Lopes


Por Redação

Quando nova, Bruna Araújo tinha na ponta da língua a resposta quando lhe indagavam se gostaria de seguir a carreira da mãe, a atriz e cantora Emanuelle Araújo. “Minha resposta sempre era negativa, dizia que nunca na vida teria essa profissão”, conta. Isso muito por causa de possíveis comparações externas e também internas, dela própria.

Mas no fundo, a jovem nascida na Bahia e criada no Rio, e que aos 5 anos já fazia aulas de piano, flauta, teoria e prática musical, sabia que era difícil fugir desse lugar tão próximo e inspirador para ela. E decidiu enfrentar! Bruna, que já foi vocalista da banda Zarapatéu, formada por amigos como Chicão, filho de Cássia Eller, acaba de lançar o seu primeiro EP, O Ar que Tenho em Mim, totalmente autoral.

No trabalho, as canções misturam ritmos regionais e eletrônicos, além de referências da MPB. “Estou buscando o meu lugar, testando a minha sonoridade”, ressalta ela, que também é psicóloga.

Foto: Rodrigo Lopes

Como você define o seu som? 

Acredito que revela um pouco de todas as influências que tive musicalmente durante minha trajetória de vida até aqui. Sempre escutei muito Milton Nascimento, Clube da Esquina, Luiz Melodia, Gil, Caetano, Os Tincoãs (uma banda baiana da década de 70). Acho que não consigo definir minha música em apenas um conceito. No entanto, percebo misturas de diversos ritmos e texturas sonoras, abarcando desde a música regional brasileira, baiana, até ondas mais progressivas e eletrônicas. Todas as seis canções gravadas no EP são autorais, algumas delas realizadas em parceria. As letras falam sobre tempo, poesia, sobre minha relação com o mundo, com espiritualidade e natureza.

 

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Fale um pouco do processo de gravação do EP...

Eu já havia composto essas canções há algum tempo. Águia foi a última a ser feita, é a quarta faixa do EP e primeira música lançada como single. Acho que sempre quis registrar esse trabalho musicalmente, principalmente porque ele é a marca do que sou e do que quero expressar ao mundo. Acredito que a arte nunca é feita apenas para quem a cria, arte existe quando é compartilhada, transmitida. E eu tinha muito o desejo de transmitir essas músicas, que dizem tanto sobre o que acredito. Foi então que decidi gravar e chamei alguns amigos e incríveis músicos para participar comigo dessa jornada. O EP foi produzido por Gabriel Marinho, criador do selo Mondé Musical e gravado nos estúdios do Sobrado Boemia, um sobradinho que fica na São Salvador, praça de encontros artísticos e boêmios do Rio. O disco contou com a presença dos músicos Bráulio Girão (violão), Pedro Moragas (baixo), Daniel Batalha (guitarra), Frederico Santiago (teclado e eletrônicos) e Gabriel Marinho, que também participou como músico e gravou as baterias e percussões. 

 

Clipe do single Águia do novo EP da cantora. 

Quais são as suas maiores inspirações para compor?

Acredito que a minha maior fonte de inspiração é minha experiência e percepção de mundo. O que vivo e observo em minha vida e ao redor de mim. Mas a inspiração não vem sempre e não é algo que ainda consigo controlar. Acho que de alguma maneira inexplicável, em certos momentos me vejo mais aberta e sensível ao mundo e às pessoas, às histórias que ouço, aos sentimentos que me tomam e a letra da canção simplesmente vem à minha cabeça, sem tanto esforço. Nunca me esforcei para escrever algo, até brinco que componho por 'associação livre' – um conceito psicanalítico que diz sobre falar sobre o que vem à mente (no caso das composições, eu escrevo).  

Quais artistas são suas referências?

Musicalmente hoje, Milton Nascimento sempre foi um grande ídolo. Além dele, Luiz Melodia, Elis Regina, Nina Sinome Lô Borges, Beto Guedes, Caetano Veloso, Djavan Gal Costa (referência grande de cantora). E da galera atual, gosto demais da Céu, Jussara Marçal, Tulipa Ruiz, Luedji Luna, Mayra Andrade.

Com a mãe, Emanuelle Araújo. Foto: Reprodução Instagram

Como ser filha de uma atriz e cantora influenciou a sua vida artística?

No início era difícil. Achei que não conseguiria estar em um lugar de amar e desejar fazer a mesma coisa que ela e me reconhecer como cantora. Acredito que, além da comparação externa, havia também uma comparação interna, minha, e por isso também uma exigência muito grande de minha parte. Lembro que quando criança, quando me perguntavam se eu iria também ser artista, minha resposta sempre era negativa e dizia que nunca na vida teria essa profissão. Acho que por ver a minha mãe trabalhando muito, por necessidade também, e não estando tanto tempo em casa. Mas me recordo que mesmo pequena e mesmo afirmando negativamente esse lugar de artista, já existia um desejo profundo de cantar e transmitir isso às pessoas. Ouvir música sempre me fez muito bem, eu também queria poder propagar ao mundo a sensação gostosa que era ouvir uma canção que me fizesse sentido. 

Em algum momento chegou a pensar que jamais seguiria essa carreira?

Sim, como disse antes, era um lugar delicado para mim. Mas logo entendi que precisava enfrentar isso e me implicar nesse desejo tão meu e que apesar de semelhante, era totalmente diferente do estilo da minha mãe. Hoje vejo que estou buscando meu lugar, testando minha sonoridade. Hoje eu consegui me dar a liberdade de me dizer artista, e isso foi fortalecedor. 

Quais conselhos sua mãe te deu quando você decidiu ser cantora?

A minha mãe sempre apoiou totalmente as minhas escolhas. Acho que sempre teve uma confiança muito grande em mim, até por ter me criado com um grande senso de responsabilidade. Nunca tive vontade de ser famosa ou quis ser artista para conquistar lugar de fama. Para mim isso é consequência de uma entrega grande e intensa com o próprio trabalho artístico. Quanto a isso sempre tive meu pé bem no chão.

Ela canta acompanhada do músico Bráulio Girão. Foto: Reprodução Instagram

Também pensa em trabalhar como atriz?

Acredito que a arte tem diversas facetas, e não me negaria a testar mais essa. Até já fiz alguns trabalhinhos como atriz, mas nada muito sério. Sou aventureira e gosto de me arriscar naquilo que não conheço, então não rejeitaria experiência. 

Você é baiana, mas mora no Rio desde pequena. O que Salvador tem de melhor? 

Acredito que a energia forte da espiritualidade, da fé. A alegria, o cheio de mar e dendê. Acho que Salvador sempre me transmite uma vibração muito forte, por ter uma história muito intensa também. A Bahia foi o primeiro lugar do Brasil e viveu muita coisa. Por isso a cultura rica, diversa e colorida. Não consigo ficar um ano sem visitar minha terra.

Como surgiu o interesse pela psicologia? 

Sempre gostei de escutar. Quando criança, meu hobby era ficar em meio aos amigos da minha mãe ouvindo as histórias, tentando entender aquilo que não fazia parte do meu universo. Acho que começou aí a escuta. O ser humano para mim sempre foi um mistério interessante, que sempre me intrigou. Foi então que decidi arredar para os lados da Psicologia e posso dizer que amo tanto quanto a música. Hoje trabalho com a linha psicanalítica, que tem como objeto de estudo o inconsciente humano. E posso dizer, nada mais artístico do que o inconsciente. Quando atendo os paciente, me sinto fazendo arte também. Apesar disso, deixo bem clara a separação entre a minha vida no canto e minha vivência como psicóloga. Em clínica, nos atendimentos, o que interessa é a vida e história do paciente e não a minha. 



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