Alcides Neves corporifica fartura

Por Diogo Mendes – Pontofervura


  • 30 de janeiro de 2019
Arte: Jeferson Lorenzato


Fraturando, a produção independente no Brasil traz ideias longe do status quo. Fatura menos em relação ao retorno financeiro – quando este esboça algo – contudo, a fidelidade das pessoas que seguem tende às vezes compensar. No quesito música, sobretudo aumenta os decibéis.

O álbum Tempo de Fratura (1979) do poeta, cantor e compositor Alcides Neves comporta em cada faixa uma proposta individual de música. Caso a própria estética da obra haja necessidade de rompimento desde letras até arranjos que carregam experimentação e psicodélico.  

Em meados dos anos setenta o cantor muda do Ceará para São Paulo, nos últimos meses daquele período reuni onze faixas. Com intenso trabalho melódico, Alcides Neves tem de bagagem também outros independentes, (Des)trambelhar... Ou Não (1983) e Dr. Louk´americas (2008).

Música do álbum de mesmo título, Tempo de Fratura apresenta um trabalho vocal aliado com a letra. Ciente da própria potência de voz, o cantor vai decompondo a sintaxe e morfologia dos versos e das palavras até o último quebramento possível, abusando da ampliação de sílabas.

Desencontro das Águas de Alcides Neves e Arnaldo Xavier pulou de um roteiro de filme, que vai apontando toda a região central da cidade de São Paulo. Rio Tamanduateí, Anhangabau, Marginal Tietê, metrópole dormitório, marginal metrópole, fragmentações das águas e outras vivências.

Raízes enaltecidas em Tempo de Fratura, a faixa Lampião com marcante triângulo nos primeiros segundos e cordas dissonantes, não deixa de contar sua perspectiva de uma das figuras mais relevantes da história do Brasil: “ [...] antes da Bossa Nova/ bem antes da Tropicália/ cantava a beleza [...] ”.

Já Hibernante in Tempore acentua o lado da linguagem, e o paradoxo do compositor e poeta, que combinam – para uma música em que a flauta vira espécie de eixo. Zero grau, a preocupação das construções melódicas, como escalas pentatônicas e dodecafônicas rasgam a sugestão.

Preocupado com a execução dos instrumentos e arranjos, Tango desde largada a minutagem realça as teclas. Hibrido de composição-poema é declamado como introdução, em plena América, aliás o continente americano tem determinante presença nas músicas de Tempo de Fratura.

 

 

“ [...] O silêncio em flor/ Os rostos em paz [...] ”, na faixa Banquete na Casa de Pedra encontra-se o segmento mais voltado a ironia do álbum a respeito das relações familiares. Existe também flerte com a baladinha, estilo em voga nas décadas de sessenta e setenta, que depois demorou em atualizar.

Na faixa O Trem desponta o triângulo, flauta e piano – entretanto, o destaque fica na letra. Durante o transcorrer da música as cordas vão afunilando ou acostumando a composição, por sequência chega no efeito sonoro da locomotiva e trilhos. Cosmos, Alcides Neves é nação esfumaçada.

O experimental vem na Urubuzalê de Alcides Neves e Arnaldo Xavier, enquanto as cordas faíscam em Tempo de Fratura. Os arranjos até assemelham alguns instantes aos contemporâneos. Sem ausentar, todavia, a marca registrada do artista que também é médico psiquiatra.

Sopros e mais metais, Aventuras de um Luso-tropical continua mantendo uma das características máximas de Alcides Neves; o equilíbrio da voz, letra, instrumento e arranjo. Apesar que pareça não haver esta estrutura pré-definida em suas músicas, talvez criada por premeditação.

Com título em espanhol, Los Invasores constitui na canção que mais destaca a flauta. Declamativa, quase chega perto da performance, se não fosse o arranjo, destoando de todo o álbum, exceto dentro da proposta, que as músicas não têm um fio estruturado, eis desestruturado.

O manejo das palavras não falta na faixa que fecha Tempo de Fratura, Desen(fado) apresentando uma letra dócil que rivaliza com a agressividade da técnica. Versos potentes, instrumentos cortantes, voz límpida, prolongamento das vogais, arranjos neuróticos, incontáveis vezes.

Alcides Neves corporifica fartura da música popular brasileira, com um dos álbuns mais atemporais, que apesar de influenciado por correntes anteriores e contemporâneas de poesia e música. Bastando pouco apenas segui-las, atado da própria fratura alcança obra vigorosa e pitoresca.

Link: https://pontofervura.wordpress.com/2019/01/24/alcides-neves-corporifica-fartura/



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