“Voz do Metrô”, Zanna narra batalha até a indicação ao Grammy

Cantora, que prepara turnê, lança movimento: “Trazer a música brasileira para a pauta”


  • 15 de janeiro de 2018
Foto: Adriano Fagundes


Por Claudia Dias

No Rio de Janeiro, a voz de Zanna ecoa pelo Metrô. É ela quem avisa aos passageiros as próximas paradas, dá os alertas em português, inglês... E, em breve, também poderá ser ouvida nas rádios, com as músicas do seu primeiro álbum. O disco é a realização de um grande sonho da cantora. Afinal, foram 20 anos de muito trabalho, determinação e paciência.

Para começar, ela montou uma empresa de sound branding – que elabora marcas sonoras para empresas como o próprio Metrô, aeroportos controlados pela Infraero e a operadora de telefonia Vivo, entre outras – com o objetivo de levantar fundos para o seu projeto.

E ela não economizou, buscou para a produção Moogie Canazio e músicos de ponta. A recompensa já chegou: o disco foi indicado a três Grammys Latinos, em 2017: Álbum de Música Popular Brasileira, Engenharia de Som e Produtor do Ano. Na entrevista ao Portal ArteBlitz, Zanna contou sobre o caminho percorrido até aqui e quais são seus próximos passos. Ah, e o mais importante, ela lança um movimento, de "trazer a música popular para a pauta de novo".

 

Foto: Adriano Fagundes

Primeiro disco após 20 anos

Comecei a compor com 13 anos, tenho mais de 300 músicas. Mas, no paralelo, entendi que o mundo estava precisando de um cuidado sonoro que não se tem muito, na experiência dos meios de transporte. Aí, resolvi começar um negócio que se chama 'sound branding' e, com isso, acabei me tornando a voz do Metrô. Além disso, tem a música do Metrô, os sinais e os sons de passarinho. Também trabalhei com os aeroportos. Comecei a desenhar experiências sonoras para outras marcas, entendendo que isso é um atributo fundamental para a vivência das pessoas nas cidades. E vendo o Brasil neste momento tão delicado, fiquei me perguntando se já estava pronta. Morei na Itália por dez anos, compondo, fazendo turnê. Tenho uma música que fez sucesso no mundo inteiro, que é Jack, com a Banda Bossa Nostra. Mas ainda não me sentia pronta. Dei um passo para trás. Abri minha empresa, fui me especializar, aprendi a tocar piano, a falar línguas, continuei compondo e me preparando para um dia chegar aqui, com um conteúdo importante. Entendi que essas músicas que eu vinha trabalhando tinham um conteúdo especial, de música brasileira, sofisticada, mas acessível ao mesmo tempo. Então, fazer esse disco foi uma decisão interna, mas ele foi sendo feito ao longo de, pelo menos, duas décadas.

“Estar pronta”

Significa estar pronta dentro, madura como mulher, profissional e pessoa. Porque também me vi muito jovem na Itália, sem família, amigos e fiquei um pouco perdida. Queria estar pronta, tranquila neste momento. E esse ‘estar pronta’ também significa financeiramente. Queria fazer uma coisa muito grande. Então, na hora de fazer esse disco, fiz do jeito que sonhei. Eu fiz muitas das músicas na Itália, no meio do mato, onde morava. Lá montei um estudiozinho para mim. Ouvia cordas, Clube da Esquina, Tom Jobim... Uma sonoridade enorme. Então, sabia que ia ter que investir. Eu queria fazer isso dessa maneira 'old fashioned', com essa maneira antiga de fazer. Com essa produção 'parruda' e robusta.

"Entendi que as músicas que vinha trabalhando tinham um conteúdo especial, de música brasileira, sofisticada, mas acessível. Então, fazer esse disco foi uma decisão interna, ao longo de duas décadas."

Criação do selo próprio

Foi exatamente aí que criei o meu selo. A empresa também virou um selo e editora para poder, além de lançar os discos da Zanna que ainda virão, apoiar novos artistas. Eu sonho grande, no sentido de trazer a música brasileira para a pauta. A música que eu entendo com os seus ritmos, com a sua riqueza harmônica.

Foto:  Marcelo de Mattos

O melhor da experiência

O melhor de tudo é você poder fazer as coisas exatamente do jeito que quer. A segunda, é que chamei o produtor Moogie Canazio, radicado em Los Angeles. Falei a ele que queria uma coisa como se fazia antigamente: com os melhores músicos, estúdios, finalizações. Tudo o que a gente precisasse, sem esbanjar, mas queria o melhor. Então, chegou o arranjador Eduardo Souto Neto, de quem eu era fã. Quando era pequena, escutava os discos de Simone das décadas de 1970 e 1980, Djavan, discos maravilhosos que me influenciaram e fizeram toda a diferença na minha formação. Quando a gente convidou e ele aceitou, fiquei louca. Depois vieram os músicos Jorge Helder, Jaime Alem, um cara que foi diretor musical da Bethânia, Marcelo Costa, participação de grandes músicos em Los Angeles. Lá, também foi uma fase maravilhosa. Quando entrei no EastWest Studio e no Capital Studios foi um bafo. Lá já gravaram Frank Sinatra, Nat King Cole e os grandes artistas do cenário mundial. E lá, estava a Zanna, para fazer o seu primeiro álbum, uma artista latino-americana, com muito orgulho. Essa foi uma parte linda.

"Quando entrei no EastWest Studio e no Capital Studios foi um bafo. Lá já gravaram Frank Sinatra, Nat King Cole ... E lá, estava a Zanna, uma artista latino-americana, com orgulho. Essa foi uma parte linda!"

Três indicações ao Grammy Latino

Eu me preparei 20 anos, juntei o dinheiro, porque sabia que ia ter que gastar muito, e trabalhei com os melhores músicos. Essa foi uma quarta etapa maravilhosa, onde fomos condecorados, eu e toda a equipe, porque a gente não faz nada sozinho. Então, sabia que a premiação, de alguma maneira, ia vir. Não sabia que ia dar um Grammy, ter três indicações foi muito gostoso. Perdi para o Edu Lobo, isso para mim, significa ganhar. Está tudo certo. Estou feliz!

Ela canta Vento de Praia Nordeste, no Solar de Botafogo, Rio. 

Momento da música brasileira

Em todas as áreas, eu acho que a gente vive momentos cíclicos. Muito me interessa todos os estilos musicais porque, por trás deles, tem as pessoas, um estado antropológico por trás de toda produção, que revela o jeitão das pessoas que estão ali, o local de onde elas vêm. Vejo o forró com muito bons olhos, o nosso samba, o maracatu, o carimbó, o pop gringo, o sertanejo e o funk. São manifestações artísticas e têm o seu lugar. O meu único ponto é que a gente não pode priorizar dois estilos de música em todas as rádios, em todos os conteúdos, em todas as novelas e filme. Isso é o que empobrece a manifestação cultural nesse país hoje. Gente, lá fora, a galera tem o pop, falando de Europa, tem o Eurobeat, aquela coisa mais eletrônica e pop, a Tarantella, na Itália, mas é pobre. Nos Estados Unidos, tem o jazz, que é legal e tem uma música mais rica. Mas aqui no Brasil, a gente tem milhões de ritmos, uma cultura incrível. Pega só o Nordeste e fatia. No Recife, todo dia se faz estilos e novas tendências. Isso é maravilhoso e a gente não pode perder a oportunidade de saborear isso tudo. Meu ponto em trazer essa música e fazer questão de colocar um dinheiro firme, de fazer uma produção linda, é como se estivesse devolvendo tudo o que a música brasileira me deu, tudo o que essa terra linda me deu. Toma de volta, uma música brasileira de qualidade.

"Muito me interessa todos os estilos musicais porque, por trás deles, tem as pessoas, um estado antropológico. O meu único ponto é que a gente não pode priorizar dois estilos em todas as rádios, novelas..."

Canções Pop

Eu também tenho músicas pop, que poderiam fazer parte desse grupo de músicas mais conhecidas. Mas fiz questão de fazer um disco que tem uma pegada regional, que lembra um pouco da bossa nova, que tem samba. Eu revisito estilos que fazem parte da minha verdade, da minha experiência cultural, justamente para dizer 'olha, essa música está viva, e as pessoas estão querendo, sim, ouvir isso'.

Próximos planos

Esse disco foi lançado há menos de um ano e nesse tempo, já conseguimos a indicação ao Grammy, já fomos capa de vários jornais, e continuamos na divulgação dele. Já fizemos show de lançamento, até para ver como levaríamos esse disco para o palco. Estamos nos preparando para começar a tocar nas rádios no Rio de Janeiro e, aos poucos, até o final desse primeiro semestre, cobrir o Brasil todo e começar a fazer turnê. Tenho novidades lindas, que eu não posso falar, mas estarão lá.

"Tenho essa cabeça empreendedora de trazer outros artistas e fazer um grande movimento de música brasileira. Isso é que é o tesão da história."

Carreira

Mais do que qualquer coisa, o meu tesão não é a Zanna, o fato de estarmos construindo a carreira dessa cantora. É o fato de colocarmos a música brasileira na pauta de novo. Porque a Zanna é a música brasileira, é um personagem novo e fresco, com um repertório novo, inédito. É lindo esse movimento. Depois, quero outros. Porque tenho essa cabeça empreendedora de trazer outros artistas e fazer um grande movimento de música brasileira. Isso é que é o tesão da história. É a gente chegar e dizer a que veio. Então, vamos conviver funk, galera do passinho, do sertanejo, mas também temos um movimento de música brasileira com outra pegada: Tiago Iorc, Ana Vitória, tem um monte de coisas acontecendo. Mas quero música brasileira de qualidade. Ela precisa ser preservada porque o público quer. Vocês querem ouvir e eu sei. Por isso, vamos lançar um grande movimento. Me aguardem!



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