Verte do insolar

Por Diogo Mendes – Pontofervura


  • 21 de fevereiro de 2019
Lucia (Simone Spoladore), no longa Insolação, de 2009. Foto: Divulgação


Como o mistério circunda a dúvida, confundido. Derrama o susto dos seres existenciais, o frisson dos seres vivos, o abandono das construções, o inabitável das vias, o soar das dormências. Enquanto a cidade tremeluzente seja assentada pelo sol se desorganizando em completa ordem.

O filme *Insolação (2009) de Daniela Thomas e Felipe Hirsch faz do alegórico, gradação principal para atingir subjetivo. Entre cenas geométricas e diálogos desconexos, opta por uma obra em que as expressões solares dizem mais frases pinçadas, apesar de pouco faltar bagagem para tal.

De roteiro do dramaturgo Will Eno e o escritor Sam Lipsyte, imobilizando o sol. Causticante em alguns momentos, o elenco conta com nomes de Paulo José, Leandra Leal, Simone Spoladore, Maria Luísa Mendonça, Leonardo Medeiros, Daniela Piepszyk, Antônio Medeiros, André Frateschi e outros.

Passando por uma espécie de deserto, pessoas pararam e construíram uma cidade – que não sabem o nome, ora não querem conhecer. Onde não existia mais essência, e ainda parece não haver, por meio de cenas em looping de certas etapas, a pergunta gerada; realidade ou heliose?

Insolação atormenta por parecer que cada cena continua no clímax, sendo um filme para quem tem determinada vontade de paisagens diferidas junto de si. Perto as expressões do elenco provocam um sentimento, longe a mesma tomada causa o oposto do sentido antes ou agora.

Agora e antes, o médico, a paciente, o vendedor, o arquiteto, a jornalista; de repente, mãe, pai, irmão; de novo, adolescente, criança, transeunte. Todos são passantes nesta cidade conhecida e de formas modernistas fácies de assimilar, ou até mesmo pelo mistério, afinal adivinhação.

Com narrações em off orquestradas por Andrei/ Paulo José, que aponta as decadências, tendo ligação ao decaimento de seus habitantes de Insolação. Em uma loja de alimentação se encontram os personagens Lucia/ Simone Spoladore, Vladimir/Antônio Medeiros, Leo/ Leonardo Medeiros e Ricardo/ André Frateschi.

De repente, interpusera as investidas sexuais de Lucia que permanece não sabendo lidar com a própria solidão. E a necessidade dela deixar aquela localidade, asseverando a retirada do passaporte, perdida naquela cidade sente confortável, quando conversa com alguns estranhos naquele estabelecimento.

O adolescente Vladimir apaixona pela Liuba/ Leandra Leal, paciente de seu pai que é médico psiquiatra. Até que um momento, a relação terna vira insustentável – o recurso, para o menino é perambular de bicicleta. O filme Insolação deixa em cintilância, os barulhos mais cotidianos e humanos.

Uma entrevista, assim fora marcada com o arquiteto, que talvez tenha algo concreto a se dizer sobre as construções. Pouco se diz, pouco se pergunta na entrevista realizada por Ana/ Maria Luisa Mendonça ao arquiteto/ Eduardo Tornaghi com intermediação do titubeante Leo/ Leonardo Medeiros.

Mais perdido e que menos apresenta falas no longa-metragem, Ricardo/ André Frateschi espera um transporte público que não aparece, comendo cerejas passadas, desiste da volta e vaga por uma cidade golpeada. Encontra um homem com uma faca levando a cabo uma ameaça.

Paginações de Andrei não impressionam esses personagens centrais que desembocam em outros. A cidade – personagem nuclear – jorra por enquadramentos a própria destruição, também o aniquilamento daqueles que ainda acreditam, caso houveram, também como a decadência.  

Em vigor a trilha sonora de Arthur de Faria transmite a volubilidade do sol resplandecente nas peles enrugadas e desenrugadas. Os arranjos incorporados as imagens em primeiro e segundo plano acarretam os sentimentos relacionados ao vazio, abandono, solidão, perda – devendo serInsolação.

Demais artistas do elenco possuem voz off, conforme urbanização vai dialogando com o sol. Congênita a conversa não leva para considerações, senão ser passada através de um diálogo convencional e aleatório, logo em função daqueles personagens estarem revestidos de futilidade.

Verte do insolar deste filme, o sonho inviável dos personagens e da própria cidade planejada de Brasília em ruínas e vazia. Ruínas, porque não tem mais uma volta ao estado que era praticável. Vazia, pois as pessoas que a deixaram não regressaram. Chuva não resolve a insolação.

*Insolação faz parte da sessão Cinema Nacional disponível na plataforma Looke, de maneira gentil forneceu acesso para o blog realizar a postagem. Confira mais: https://www.looke.com.br 

https://pontofervura.wordpress.com/2019/02/07/verte-do-insolar/



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