Sara Antunes lança filmes: “Obras que são formas de resistência”

Em "fase de cinema", atriz atua em Deslembro e Alma Clandestina, sobre a ditadura


  • 20 de novembro de 2018
Foto: Jessica Leite


Por Luciana Marques

Filha de um ex-padre exilado político, a atriz Sara Antunes se vê em trabalhos recentes sobre a ditadura fazendo “um acerto com o passado”. Mas mais do que isso, a peça Guerrilheiras ou Para a Terra não há Desaparecidos, encenada em 2015, e os longas Deslembro e Alma Clandestina - o primeiro premiado no cinema francês -, que estão rodando festivais pelo Brasil e pelo mundo, são formas de resistência. “De repente, me vejo através dessas obras atualizando a mesma luta”, diz ela, em referência ao atual cenário político “cinza” do país.

Mas além dessa “fase de cinema”, Sara apresentou há poucos dias a peça Sonhos para Vestir, em que atua e assina o texto, no Festival Internacional de Teatro Mindelact, na África. A direção é de Vera Holtz. Até o início do mês, ela também estava em cartaz, no Rio, com Corpos Opacos. Conhecida por trabalhos em textos mais densos e profundos, a atriz diz que, apesar de nunca ter batalhado, gostaria de fazer TV. “Tenho curiosidade e vontade pela linguagem, o alcance popular” diz ela, que é casada com o também ator Vinícius de Oliveira, do emblemático filme Central do Brasil, com que tem Benjamin, de 5 anos, e Antonio, de 3.

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Em cena do longa Alma Clandestina. Foto: Divulgação

O longa Deslembro já foi premiado na França, e tem tido boa repercussão em festivais. Por que acha que ele tem sido tão bem aceito?

Deslembro é um filme muito atual, embora Flavia Castro (roteirista e diretora) tenha começado a escrever o roteiro em 2009, o filme estreou agora, num momento de efervescência política em que o questionamento sobre a ditadura, liberdade, o conhecimento da nossa história está na cabeça de todos. Pretendíamos olhar para uma ferida histórica mal cicatrizada e, de repente, os acontecimentos dessa ultima eleição, além da onda conservadora mundo afora, redimensionaram o filme fazendo dele uma obra urgente para agora. Tenho certeza que ele tem qualidades artísticas, uma força que seria apreciada em qualquer momento histórico, mas casou de estarmos completamente à flor da pele e, nesse sentido, ele se potencializa. 

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Fale um pouco da sua personagem, de que forma ela age na questão do desaparecimento político do marido?

O filme todo gira em torno de Joana, feita lindamente por Jeanne Boudier, que faz minha filha. E a Ana, minha personagem, carrega a força de quem viveu e foi ferida pela ditadura, perdeu o companheiro e foi exilada com a filha. Ela carrega essa dor abafada por um silêncio ensurdecedor, uma mulher que para sobreviver e seguir silenciou ou foi silenciada pelo mesmo Estado que não reconhece as torturas e os crimes que cometeu. Sua filha, Joana, em fase de reconhecimento da identidade, volta do exílio para o país de origem, ou seja, um Brasil desconhecido. A partir daí, ela vai querendo conhecer sua história, mesmo a contragosto de Ana, e vai tentando lidar com as memórias daquele lugar, do pai, do desaparecimento do corpo do pai, enquanto ela mesma, num percurso belíssimo,  descobre o próprio corpo.  

Você também rodou Alma Clandestina, em que vive uma guerrilheira na época da ditadura. O que mais a instigou ao fazer essa protagonista?

Maria Auxiliadora Lara Barcelos, a Dora, foi uma mulher excepcional, linda, inteligente, forte e com uma vida muito sofrida, dedicada à luta contra a ditadura e à construção de um outro mundo. Quando surgiu o filme, por coincidência, eu estava numa peça sobre guerrilheiras, estava entendendo a história do meu pai exilado político, então muitos fatores me levaram a Alma Clandestina. Não posso acreditar que fazer dois filmes sobre o tema e uma peça de teatro tenha sido coincidência. Eu, como artista, também estava e estou querendo expurgar, entender alguma coisa com tudo isso. Quando fui chamada para fazer o teste de Dora, eu tinha certeza que pegaria o papel, que era pra mim aquilo. Eu queria dizer as palavras dela, honrar aquela vida. A única diferença é que achava que faríamos uma homenagem a ela e agora entendo que a existência dela, dedicada à resistência, veio ao nosso encontro. Veio nos apoiar para os tempos que virão, que já estão ai. 

A atriz com o marido, o também ator Vinícius de Oliveira. Foto: Reprodução Instagram

O quanto a sua história de vida, o fato de seu pai ter sido exilado na ditadura militar, a instigam a participar de trabalhos que falam dessa temática?

Bom, vou por partes. Eu sou muito autoral e idealizo muitas obras, mas não foi o caso de nenhum desses projetos. Em 2015, fui convidada para fazer uma peça chamada Guerrilheiras ou Para a Terra não há Desaparecidos, sobre corpos de mulheres guerrilheiras mortas pela exército brasileiro e que, até hoje, não foram encontrados. Corpos que se misturaram com a terra e estão ainda em alguma parte do Brasil. Tocar na história de pessoas que lutaram pelas mudanças profundas, mexeu muito comigo. Obviamente, a história do meu pai que foi padre, preso na época da ditadura, exilado político, além de ter sido a pessoa mais luminosa que conheci, traz tudo isso à tona, claro. Potencializa a minha curiosidade e aproximação ao tema! Fui tocada em lugares muito profundos por uma geração que acreditou e deu a vida para um mundo mais justo.

Vivemos um momento político "cinza", de conservadorismo, com um presidente recém-eleito que tem como ídolo o Brilhante Ustra... Qual a importância para você de poder se falar nesse momento sobre as agruras e fatos reais da ditadura em textos de peça e filmes?

Quando comecei tudo isso, como disse, era um acerto com o passado, um entendimento da minha vida, da vida do meu pai e de uma história recente implicada na minha. De repente, me vejo através dessas obras atualizando a mesma luta. Tem uma força imensa pra mim ser um veículo, dar passagem para que essas vidas se recoloquem hoje. Foi inusitado me ver nessa posição combativa. Esses trabalhos restaurativos de uma época dolorosa vieram junto com a ascensão das mesmas forças opressoras e destruidoras daquela época. Vejo horrorizada um homem como o coronel Ustra, que deveria ser motivo de vergonha em qualquer país do mundo, ser louvado por aqui. Um homem que matou e provocou as torturas mais bárbaras e indizíveis é o ídolo do presidente eleito, ou seja, ainda estamos na mesma batalha. Um país que vive do desconhecimento da história, obviamente é presa fácil da fake news. Em tempos tão sombrios, me parece fundamental convocar a inteligência dessas pessoas e preservar nossa capacidade de sonhar porque, como Dora escreveu, “Continuo sonhando. Dentro da minha represa não tem lei nesse mundo que vai impedir o boi de voar".

No palco da peça  Corpos Opacos. Foto: Reprodução Instagram

Você atua e também escreveu a peça Corpos Opacos, que fala da representação da mulher dentro da igreja... Que tipo de reflexão quer passar com esse texto?

Corpos Opacos foi dirigido por Yara de Novaes e idealizado e escrito por mim e Carolina Virguez. Aqui o forte não é o texto, mas os corpos. Colocamos mulheres que viveram em conventos de clausura absoluta, que só foram vistas depois de mortas (através de quadros pintados por homens) para se mostrarem, dançarem, viverem êxtases místicos. Uma peça toda artesanal, cheia de música, sonoridade. É uma espécie de poema visual, um trabalho muito singular, preciso e belo plasticamente. Esta sendo muito bem recebido.  

Você encenou Sonhos para Vestir recentemente na África. De que trata o espetáculo, e como é ter essa parceria com a Vera Holtz na direção?

Sonhos Para Vestir é uma peça lúdica, delicada. Em cena, só eu e o pianista Daniel Valentini com um cenário belíssimo e premiado feito por Analu Prestes. É uma reflexão poética, interativa sobre o que separa nossos sonhos do dia-a-dia, sobre as nossas primeiras memórias. O que fizemos com as palavras que recebemos? E com as que imaginamos, projetamos? A peça se desenvolve numa espécie de jam. Eu costuro as memórias que o público compartilha com as da personagem numa dramaturgia porosa que vai mudando a cada apresentação. Vera dirigiu e orquestrou essa criação. Foi uma parceira fundamental para trazer a humanidade e a poesia. Lapidou e harmonizou a criação da equipe. Foi a primeira vez que levamos essa peça para outro país, outra cultura.

Em Cabo Verde, onde encenou Sonhos para Vestir, com Vera Holtz, diretora da peça. Foto: Reprodução Instagram

A cultura em geral no Brasil passa por uma grande crise, está em total em segundo plano. De que forma você, enquanto artista, está lidando com isso, ainda mais que seus trabalhos no teatro geralmente são de textos mais fortes, com pegada política?

Pois é, lutei muito contra o golpe contra Dilma que abriu brechas para essa avalanche conservadora. Eu digo que o fascismo saiu do armário desde então e, de alguma forma, estamos novamente de cara para o horror. O nosso tempo nos convocou. Não tenho dúvidas que vai ter (como já esta tendo) sangue, censura, dificuldades. Os artistas, obviamente, estão todos preocupados. O que fazemos (independente até do conteúdo das obras) é o oposto do que esta aí. Enquanto eles desmatam as nossas florestas, a diversidade, a arte e tudo o que isso representa como potência de vida, a gente, como formiguinhas, tenta reconstruir tudo no campo do simbólico, da subjetividade e da existência. Os tempos exigem mais dos trabalhadores de cultura, que criemos mais, com mais força e mais qualidade.

Qual a importância desse boom de séries produzidas agora no país. O mercado vem se modificando, na sua opinião?

Vinicius (de Oliveira - ator), meu marido, faz muita série. Eu, obviamente, vejo com entusiasmo esse boom porque foi uma conquista recente, uma abertura enorme para desenvolvimento de roteiristas, para atores ganharem experiência no campo audiovisual e todos os trabalhadores envolvidos. São muitas áreas de criação que se beneficiam com essa produção. A obrigação de termos esses produtos culturais brasileiros na TV a cabo (criada pela Ancine) foi uma pequena revolução na área. Precisamos proteger e ampliar essas conquistas.

Você fez também algumas séries. Tem vontade de fazer mais novela, um produto mais popular?

Tenho curiosidade e vontade pela linguagem, pelo alcance popular. A televisão é muito poderosa nesse sentido. Sim, gostaria de receber mais convites, mas nunca batalhei muito para isso. Sei que a luta é brava nesse campo e consome muita energia. 



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