Rafaela Mandelli em fase de cinema: “A comodidade limita”

Em Intimidade Entre Estranhos, ela mostra lado visceral nunca visto, e estreará A Divisão


  • 28 de janeiro de 2019
Foto: Sergio Baia


Por Luciana Marques

Ao completar 20 anos de carreira, Rafaela Mandelli admite que para ela as coisas nunca caíram do céu. “Sempre tive e tenho que correr atrás. E isso me impulsiona, não me deixa ficar acomodada”, conta. Tanto que ela foi uma das primeiras atrizes a apostar no gênero série no Brasil.

Assim, ao viver a prostituta de luxo Karin, uma das protagonistas do sucesso O Negócio, da HBO, que teve quatro temporadas, viu sua carreira dar uma guinada. “Com certeza foi um divisor de águas”, admite. A partir daí passou a ser conhecida lá fora, e conta ter recebido recentemente dois convites para atuar no exterior. Mas as boas oportunidades no cinema aqui a fizeram optar por trabalhar no Brasil.

Ela protagonizou Intimidade Entre Estranhos, exibido recentemente no Festival do Rio e agora disponível na plataforma de streaming Now. Sua atuação entregue como a solitária Maria, que, mesmo casada, acaba se envolvendo com um jovem de 17 anos e conhecendo um mundo novo, foi bastante elogiada. “Muitas pessoas se identificam com ela”, diz a atriz, que este ano lança também A Divisão.

Na entrevista, Rafaela fala ainda da criação baseada no diálogo, confiança e amor, da filha, Catarina, de 13 anos, e do término de O Tempo Não Para, em que deu vida à médica Helen, em sua volta à Globo após 12 anos.

Helen (Rafaela Mandelli), em O Tempo Não Para. Foto: Globo

Qual o balanço você faz de sua participação em O Tempo Não Para como a Helen nesse seu retorno à Globo?

Uma volta calma e tranquila, digna de uma novela das 19h. As pessoas adoraram a novela. Temos que olhar o trabalho como um todo, elenco, direção, texto e principalmente o retorno do público. O saldo foi muito positivo.

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Enquanto muitos artistas da sua geração ficaram focados na TV aberta, você partiu há algum tempo para o formato série. Diria que a participação em O Négócio foi um divisor na sua carreira?

Com toda a certeza. Nunca imaginei que fosse ter a oportunidade de levar o meu trabalho para tão longe, e ser reconhecida por ele dessa maneira. Ter tido a oportunidade de fazer uma série de altíssima qualidade durante tanto tempo, foi fundamental para o meu amadurecimento como atriz e também para o aprendizado desse formato com o qual me identifico muito. 

O fato de você já ter uma entrada no mercado lá de fora por causa da HBO, acaba dando mais vontade de fazer trabalhos no exterior, você busca isso?

Não busco isso agora não. Tive dois convites para atuar fora e não aceitei porque estava filmando dois longas aqui. Se houver uma outra oportunidade, e eu não estiver trabalhando aqui, onde é a minha prioridade, posso considerar sim.

E pessoalmente, ao viver a prostituta de luxo Karin, o que você mais aprendeu, até em termos de empoderamento feminino?

O caso da Karin é muito específico porque ela estar nessa profissão foi única e exclusivamente uma escolha dela. Não foi a vida que a levou pra isso. Ela escolheu, ela decidiu. Ela teve nas mãos o poder de escolher o que e quis da maneira dela. Essa mensagem foi muito bem entendida e recebida pelo público, que em sua maioria é de mulheres. O que mais aprendi com a Karin foi enfrentar os desafios sem medo, e a segurança dela.

Maria (Rafaela Mandelli) em Intimidade Entre Estranhos. Foto: Divulgação

Você é mãe de uma menina, adolescente. Quais os cuidados que tem, até nas conversas com ela, em relação a isso, ao posicionamento da mulher, de ter suas próprias escolhas?

Tenho esse canal de diálogo muito claro com a minha filha. Ela já vê isso em mim há muito tempo. Sempre trabalhei, nunca dependi de ninguém, ela acompanha a minha luta diária. Existe uma relação de confiança mútua e de muita troca entre nós. Ela é extremamente segura e sabe exatamente o que quer. O amor é a base de tudo. Sempre!

O que mais instigou você ao fazer o filme Intimidade Entre Estranhos?

A complexidade da Maria (protagonista do filme). Ela é visceral,  impulsiva, meio bipolar. Deu pra mostrar um lado meu de atriz que ninguém nunca tinha visto. A entrega foi imensa e não poderia ser diferente. Descobri lugares de interpretação que eu desconhecia e até hoje quando vejo o filme, me assusto um pouco. Foi um trabalho importantíssimo e no momento certo da minha vida. E agradeço muito ao José Alvarenga Jr. (diretor do filme) de ter me dado essa oportunidade.

Acha que há várias “Marias” solitárias por aí, mesmo casadas?

Com certeza! Muitas pessoas se identificaram nesse lugar. 
Cada dia que passa, com a rapidez da informação e a correria da vida, vemos pessoas muito sozinhas, mesmo cercadas de gente. A sensação da Maria é de um enorme vazio interno. E isso acontece muito. 

Foto: Isabella Pinheiro/Gshow

Esse ano você completa 20 anos de televisão, fora o tempo anterior no teatro. Como avalia a sua carreira, faria tudo de novo, se arrepende de algo ou é só orgulho por tudo o que vem conquistando?

Não me arrependo de nada do que fiz até hoje. Cada um tem a sua trajetória. Para uns é mais fácil do que para outros. Pra mim nunca foi fácil, sempre tive e tenho que correr muito atrás. É o que me impulsiona e não me faz ser uma pessoa acomodada. Acho a comodidade chata e limitada. Pra mim nunca vai estar bom, vou sempre tentar me superar. Como mãe, como profissional, como ser humano. É uma busca diária e incessante.

Há alguma novidade de trabalho que já possa falar ou vai tirar umas férias agora?

Agora, imediatamente vou descansar um pouco. Mas tenho pra estrear esse ano o filme A Divisão, do diretor Vicente Amorim, que virará támbém uma série. Já filmamos o longa e a série juntos.



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