Leonardo Franco: 9 filmes em 2 anos, sendo um com Ricardo Darín

Dono do Solar de Botafogo, ele diz que a falta de segurança no Rio está destruindo a cultura


  • 16 de maio de 2018
Foto: Arquivo Pessoal


Por Luciana Marques

Desde que inaugurou o Centro Cultural Solar de Botafogo, no Rio, em 2006, Leonardo Franco viu sua vida se transformar. Pessoalmente, teve a primeira filha, Valentina, e profissionalmente, diz que “deslanchou”. Teve indicações aos Prêmios Shell e APTR pela atuação em Traição, de Harold Pinter. “Só conheci pessoas maravilhosas, companheiros de trajetória, depois conheci a minha segunda esposa (a produtora Maria Griffith), também em função da minha arte”, ressalta

E as novidades não paravam. Ele protagonizou a série Preamar, da HBO, em 2012, fez várias peças, novelas... Mas há dois anos, vive uma fase cinematográfica. Ele rodou 9 filmes, sendo um deles, La Cordillera, um drama político rodado na Argentina e no Chile, ao lado do célebre ator argentino Ricardo Dárin. Na trama, que deve estrear no Brasil este ano, Leo dá vida ao presidente brasileiro. E aguarda os lançamentos de Minha Família, Candidato Honesto 2 e O Paciente. E roda na metade do ano, Kardec.

Nesta entrevista ao Portal ArteBlitz, Leo esbraveja contra a tentativa de desregulamentação da profissão de artista e a falta de segurança no Rio, que, segundo ele, está “destruindo a cultura”. E fala ainda como tem sido administrar um teatro do porte do Solar em meio a essa crise gravíssima na área.

Leo no set de La Cordillera, com Ricardo Darín, na Argentina. Foto: Arquivo Pessoal

O que o Solar de Botafogo representa para você, sempre foi um sonho seu, né?

O Solar de Botafogo está completando 12 anos. Comprei esta casa em 2001, foram cinco anos de obra. Eu estou aqui dedicando toda a minha vida como artista, como criador de arte para contribuir com essa cidade. Era um sonho que eu tinha desde muito cedo. Na verdade, eu me formei em psicologia, mas na faculdade me interessei em fazer teatro, e desde sempre eu procurei um espaço cultural.

Como você chegou até esse local?

Lembro que quando o Darcy Ribeiro ainda era secretário de cultura, fui até ele dizendo que tinha encontrado no Humaitá um Instituto de Nutrição abandonado, fiz um projeto lindo e mostrei a ao Darcy. Ele disse, adorei, vou chamar vocês para conversar. Não chamou, e um ano depois eu vi no jornal: o Espaço Sérgio Porto vai ser inaugurado no Humaitá. Naquele momento percebi, tive uma boa ideia, mas preciso ter o meu próprio espaço, que não dependa de nenhuma secretaria estadual ou municipal. Passei 15 anos reunindo recursos e vontade para encontrar uma casa como essa. Foi difícil! Precisei colocar um teatro dentro de uma casa antiga.

Foto: Divulgação

Mas tudo valeu à pena?

Depois que eu abri o Solar de Botafogo, a minha vida se transformou, foi no dia 17 de outubro. Uma semana depois nasceu a minha primeira filha, a Valentina, no dia 21 de outubro de 2006. E tudo o que veio depois foi do melhor. A minha carreira deslanchou, conhei companheiros maravilhosos de trajetória, depois conheci a minha segunda esposa. Ela veio trabalhar comigo, aí nasceu a Maria Flor. Então, estou agradecido a tudo isso que vem acontecendo na minha vida. Claro que cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Nesses anos todos tenho recebido bençãos, mas posso dizer que a gente tem que trabalhar. Eu venho semeando há 30 anos, são 30 de carreira, mas posso dizer que agora estou colhendo, com responsabilidade, respeito, dignidade. Eu sou um artista que trabalha para teatro, eu sou uma pessoa que pensa teatro e que agora também estou descobrindo o cinema.

Você tem feito muita coisa legal, né? Até filme internacional com o Darín?

Sim. E isso do cinema veio nesse meu bom momento como ator. Há sete anos, fui protagonista de uma série chamada Preamar, e ela correu o mundo. Daí grandes trabalhos surgiram para mim. Inclusive, o diretor Santiago Mitre, um dos maiores diretores do cinema argentino viu e me chamou para fazer um filme com o Ricardo Darín, chamado La Cordillera. É um elenco internacional, estreou no festival de Cannes. Então, me abriu as portas para a América Latina, para o mundo. Nós útimos 24 meses, fiz 9 filmes, e tem quatro para serem lançados agora em 2018. Estou muito feliz, num momento cinematográfico.

Foto: Arquivo Pessoal

Como você otimiza o seu tempo?

É muito dificil, e nesse meio tempo eu ainda fiz duas novelas, Belaventura e A Terra prometida. Mas eu tive sorte, as agendas foram se ajustando. Foi uma conjunção de fatores, cheguei a perder dois filmes, mas, enfim, a gente tem que achar também espaço para a família e para ter alguns momentos de descanso.

E como você, ator e também dono de teatro, tem enfrentado essa crise toda na cultura?

Nós nunca passamos por um momento cultural tão difícil na nossa cidade no Rio de Janeiro, no nosso estado Rio de janeiro e no Brasil. Nós, atores, inclusive, estamos lutando pela não desregulamentação da nossa profissão. Uma coisa impensável! Nos reunimos com vários movimentos aqui no teatro XP, estamos mandando uma comissão a Brasília para conversar com a Carmen Lúcia. Mas a gente não sabe se há um poder em nossas mãos para regulamentar a nossa profissão, o que é um absurdo. Mas é uma luta iniciada lá por Procópio Ferreira, para quem não sabe, pai de Bibi Ferreira, para regulamentar a profissão, nos tirar das sombras. E agora, por incrivel que pareça, não sei porque alguém pensa nisso. Não tem mais o que fazer, o que inventar? Não é por causa disso que as pessoas vão deixar de ser artistas ou não. Enfim, eu acho que as pessoas tem que se preparar. O meu intuito foi sempre estar preparado para a minha profissão. E também como empresário, como dono de teatro, para que o meu trabalho não renda só para mim, renda para a comunidade, e orgulhe as minhas filhas, a minha esposa, a minha mãe, a minha família.

Ator vive o Presidente do Brasil em La Cordillera. Foto: Arquivo Pessoal

O que tem feito no Solar para driblar essa crise, ainda mais sendo também ator?

Muitas vezes aqui nestes 12 anos recebi não só parceiros de profissão, mas parceiros de vida. Um exemplo, Ary Coslov, que me apresentou Harold Pinter de uma maneira que nunca esperava, fomos muito felizes nessa peça, premiados. Então, crio as melhores condições para projetos não só que eu participe, mas que eu acredito. A arte hoje em dia vive de parcerias, de permuta, de trocas, porque muitas vezes a gente não tem patrocínio. A gente oferece nosso trabalho e vai apostar na bilheteria. Isso está acontecendo cada vez mais. Nos primeiros anos do Solar tive algumas facilidades, existiam mais patrocínios, uma quantidade maior de produções procurando teatro. E agora está diminuindo.

Vocês acabam recebendo outros tipos de eventos?

Eu tenho recebido muitos eventos musicais porque também perderam outros palcos na cidade. Mas os eventos teatrais estão cada vez mais raros. Isso diminui o dinheiro, isso me dificulta a manutenção do espaço. Por sorte, fiz grande produções esses dois anos, que me pagaram muito bem, mas tive que utilizar esse dinheiro para manter o meu espaço cultural. O que fiz com orgulho e carinho, mas confesso que, às vezes, é difícil. Você vive um dia atrás do outro, ganhando um dinheiro e gastando ele no dia seguinte. Tem que fazer a bola girar. Isso falo abertamente porque todos os profissionnais, em qualquer área, estão vivendo essa dificuldade. Estou falando da minha cidade, o Rio de Janeiro... Porque a falta de segurança está destruindo a cultura, o entretenimento. Eu também tenho um bar, o Teatro Solar, anexo ao teatro, nós diminuimos, porque a quantidade de pessoas que saem à noite é cada vez menor. As pessoas agora chegam mais cedo, saem mais cedo, consomem menos, têm receio de tudo. Então, a gente se depara com todas as dificuldades possíveis, as que já existiam e as novas. Mas não tem jeito! A paixão por isso é incomensurável, então, eu acho que a gente tem que seguir em frente, não pode parar.

Leonardo por Leonardo, como se definiria?

Acho que sou um homem apaixonado pela minha família, pelo meu trabalho, um homem orgulhoso de tudo o que conseguiu e um homem que trabalha em função da generosidade. Para mim, generosiddade é tudo, não só minha com as pessoas, mas do mundo comigo e com a minha família.



Veja Também