Maíra Charken relembra grupo de humor Deznecessários. “Era libertador!”

Canal da atriz sobre maternidade, Tô de Mãe Humor vai virar monólogo


  • 23 de janeiro de 2018
Foto: César Dutra


Por Redação

Há cerca de três meses, a vida de Maíra Charken sofreu uma transformação. A chegada de Gael, para quem nem se imaginava mãe, foi quase uma "catarse". Isso, desde o início da gravidez, quando ela não se reconhecia, de tão irritada! E foi nessa fase, em uma conversa com o marido, Renato Antunes, que surgiu a ideia de fazer uma canal na internet sobre o assunto. E o nome não poderia ser mais criativo e propício: Tô de Mãe de Humor. A empreitada deu tão certo, que vai virar um monólogo.

Na entrevista ao Portal ArteBlitz, a atriz, de 39 anos, aponta a passagem pelo grupo teatral de humor Deznecessários como uma virada em sua trajetória artística. “Era libertador!”, diz. No seu currículo ainda participação em tramas como Cobras e Lagartos, de 2006, e Babilônia, de 2015, os espetáculos Evita Perón e O Musical dos Musicais. Em 2016, ficou um ano no Vídeo Show, como apresentadora e repórter.

"No início da gravidez fiquei bem alterada, irritada. Aí o meu marido falava, 'ai, esse mau humor'. Aí, eu falei, 'mãe humor'. É esse o nome do canal: ‘Tô de Mãe Humor’"

Com o marido, Renato, e o filho, Gael. Foto: Dani Badaró

- Em que momento percebeu que devia fazer um canal desses, e como surgiu o nome?

Na verdade, sempre quis fazer um canal. Mas nunca achava um tema. Aí engravidei e o tema veio no meu colo, aliás, do meu útero. Pronto, já tinha o assunto. E o nome já veio logo, porque fiquei bem irritada no início da gravidez, passei muito mal. Fiquei um mês mal, fui abduzida e colocaram um demônio no lugar, eu era outra pessoa. Não que eu seja uma santinha, mas fiquei bem alterada. Aí o meu marido falava, ai, esse mau humor. Aí, eu falei, mãe humor, ‘Tô de Mãe Humor’, esse é o nome.

Um dos primeiro vídeos do canal quando ela estava no início da gravidez.

- O que quer mostrar às mães e ao público em geral?

Não quero ensinar nada, dar lição nenhuma. Na verdade, quero mostrar a nossa vida, como está sendo a minha experiência com o Gael. Como foi com a gravidez, mãe de primeira viagem. E eu tenho sempre essa vontade de mostrar minha vida, o que a gente está fazendo, até para rolar uma troca. Porque a minha dificuldade é a de muitas mulheres. Então, você expondo a sua, acaba que achando a solução. Foi um meio legal que achei até para descobrir respostas.

Foto: Reprodução Instagram

- Você mostra um pouco da intimidade, de seu marido, filho. Até onde vai esse limite?

É tudo muito natural. Tem uma coisa de um senso, ah, isso é demais a gente mostrar. Mas vai surgindo normalmente. Tem muito vídeo que nem faço pauta, vou no improviso. E o Renato, meu marido, de cueca, também tem dado ibope, e eu mostro, sim. A cuequinha está liberada.

"Tive milhões de frustrações na carreira. Quem é ator, quem trabalha com arte e não se frustra, em alguma coisa errada aí..."

- Que retorno você tem tido com o canal, o que ouve das pessoas?

Bom, tô rica, fiquei milionária, mentira (risos). Mas é impressionante! É um mundo paralelo o da maternidade, que eu não fazia ideia de que existia. E quantas dúvidas, fases, não acaba nunca. Se você é mãe uma vez, é para sempre. E acho que é a coisa que mais gera insegurança que vivenciei até hoje. E tem muito material sobre isso e parece que não supre. Vai se renovando a cada dia e toda a hora tem que ter uma literatura nova. É uma loucura!

- Você tem experiência em TV, teatro. Qual é o maior desafio em um canal de internet?

A minha dificuldade com o canal é bem prática mesmo, de estar com o Gael no colo, amamentando e, de repente, é o momento do vídeo. E não ter ninguém para montar a câmera, segurar, ver o áudio ou ver se o meu sutiã está aparecendo, se o bico do peito pulou para fora. Mas é tão gostoso, fazer e pensar que isso vai ficar registrado, cada evoluçãozinha do Gael. Porque agora, com o canal, eu não existo mais, é só Gael, se eu faço um vídeo em que ele não aparece, zero views.

Vídeo do canal com Gael já com três meses.

"Não quero ensinar nada, dar lição nenhuma com o canal. Na verdade, quero mostrar como está sendo a minha experiência com o Gael, de mãe de primeira viagem. E acaba acontecendo trocas com outras mães, vamos achando respostas para questões."

- Podem sair frutos desse trabalho, como uma peça, livro?

Tudo o que eu estou fazendo, quero que vire filme, peça. Estava com um texto, um projeto sendo encaminhado de um monólogo. Agora já está mudando tudo, vai virar o monólogo Tô de Mãe Humor. Será de piadas de gravidez, maternidade, família, filhos. Era um monólogo de muitos assuntos, agora a gente vai focar nesse tema. E, em breve, espero conseguir já começar a ensaiar, apresentar e viajar.

- Qual a diferença da Maíra hoje para a de antes da chegada do Gael?

Os seios! Eu não tinha, não sei quanto tempo vou ter... Mas, fora isso, fiquei mais medrosa. Imagina eu, que me jogava em tudo, vide o quadro Saltibum (do Domingão do Faustão). Imagina se hoje subiria numa plataforma daquelas? Podem me oferecer carro, que não irei.

Na bancada do Vídeo Show. Foto: Globo/Renato Rocha Miranda

- Tem se surpreendido com você como mãe?

Só de eu ter sido mãe, foi uma surpresa. Minha família já nem sabia mais o que era uma criança. Surpreendeu todo o mundo e, olha, tenho recebido elogios. Mas não pensei que fosse assim. Eu falo muito para o Renato, você me via fazendo isso? Quem diria! Fazendo as festinhas, ‘mesversários’. Antes, eu dizia, que coisa fútil! Agora, se passa um mês que eu não faça um bolinho, me dá uma dor no coração. Tudo o que falei que eu não ia ser, estou sendo.

"Cada parto é um parto, cada corpo é um corpo. Se você tem um parto dos sonhos, tem que ir atrás dele até onde você puder. No meu caso, chegou num momento que já não era mais uma opção. Tive que fazer cesárea, é protocolo de segurança."

- No canal você mostra um momento do parto delicado, em que tentou o natural, mas acabou tendo no hospital. O que diria a outras futuras mamães sobre essa experiência?

Cada parto é um parto, cada corpo é um corpo. Se você tem um parto dos sonhos, tem que ir atrás dele até onde você puder. No meu caso, chegou num momento que já não era mais uma decisão. E já estava meio que preparando a minha cabeça. Falava, gente, o parto domiciliar, natural, que quero, é um desejo. Nunca falei, ah, vai ser assim. Na minha cabeça tinha certeza que ia dar certo. Mas, na verdade, não é que não consegui, cheguei na dilatação máxima, só que pela presença de mecônio no líquido amniótico, não rola de fazer parto natural. Então, fomos para a maternidade, aí teve que fazer cesárea. Protocolo mesmo deles, de segurança. Acho que o importante é informação, saber de todos os tipos de partos, o que pode acontecer, o que não pode, e ter uma equipe que você confie, se sinta segura e esteja alinhada com você.

Com os parceiros do grupo teatral de humor Deznecessários. Foto: Divulgação

"Recebia sempre papel da mocinha, e queria ser a amiga engraçada, não a mocinha chata. E com os Deznecessários pude finalmente fazer. Ali achei o a minha galera, o meu lugar!"

- Você é cofundadora do Deznecessários. Qual a importância de ter participado desse grupo para a sua trajetória artística?

É sempre tão gostoso lembrar. Foi antes e depois desse grupo a minha carreira. Sempre sabia o que queria fazer, mas nunca me dava esse crédito de comediante. Recebia sempre papel da mocinha, e queria ser a amiga engraçada, não a mocinha chata. E com os Deznecessários pude finalmente mostrar que sou a amiga da mocinha. E um grupo muito bom. Foi uma escola, de verdade. O que a gente fazia naqueles palcos era libertador. Achei minha galera, meu lugar.

Em cena de Babilônia. Foto: Globo/Divulgação

Quais as maiores lembranças daquela época?

Nossa, tem muita coisa! Primeiro, ter Jô Soares de padrinho, indo quase todas as noites assistir a gente. Quando o vi pela primeira vez na plateia, suava frio. Isso marcou muito. Tinha o Zé Wilker também que ia, muitas pessoas maravilhosas foram nos ver. E a gente também viajou o Brasil inteiro. Fui para o Japão, fiquei 15 dias lá fazendo show. Uma experiência maravilhosa! Fora os trabalhos que vieram depois disso, como com o Tom Cavalcante. E quando a gente reeencontra a turma é sempre uma farra.

-  Você tem uma caminhada singular na carreira, foi dançarina do Faustão, fez novelas, muito teatro, sucesso no Deznecessários, apresentou e foi repórter do Vídeo Show... Há frustrações nesse caminho?

Óbvio, tive milhões de frustrações. Quem é ator, quem trabalha com arte e não se frustra, não sei o que está acontecendo. É tanto não que a gente leva. Você faz um teste, quando tem certeza que foi bem, aí vem um não. Aí quando você faz aquele teste horrível , pensa, que vergonha, você passa. Não dá para saber! Ninguém mandou manual antes. Quem trabalha com arte se mistura muito com a vida, olha, quem não se frustra na arte e na vida é porque não está vivendo direito. Tem alguma coisa errada aí!



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