Vagner Fernandes: “A morte de Clara Nunes ainda desperta dúvidas”

Autor relança biografia da cantora em edição revista com autógrafos hoje na Portela


  • 02 de fevereiro de 2019
Foto: Divulgação


Uma das maiores intérpretes do Brasil, Clara Nunes terá a sua biografia, escrita por Vagner Fernandes, relançada neste sábado, 2 de fevereiro, em edição revista e com novo projeto gráfico. O cenário para a sessão de autógrafos não poderia ser outro: a quadra da Portela, no Rio, escola do coração da cantora, e da qual ela será enredo no Carnaval 2019. O lançamento, às 16h, integra a programação da tradicional Feijoada da azul e branco, e contará com as participações de Alcione e Roberta Sá em show tributo à mineira.

O livro Clara Nunes - Guerreira da Utopia foi publicado em 2007, e narra a trajetória da cantora desde a infância até a morte prematura, aos 40 anos, em 1983, durante uma cirurgia de varizes. Da mudança de Minas Gerais para o Rio, a busca por um espaço, a desconhecida passagem pela jovem guarda e os festivais da canção, até a paixão pelo samba e a consagração na MPB. Sua vida pessoal também é tratada, mas com muita delicadeza, mostrando uma mulher foram do comum e à frente do seu tempo. “Para ser fiel, os dissabores também precisam ser narrados”, ressalta Vagner.

Foram quatro anos de pesquisa, mais de 300 entrevistados, reunindo cerca de 400 horas de depoimentos. No miolo da obra, dois grandes cadernos de fotos das diversas fases da vida da cantora. Confira a entrevista com o autor!

A capa do livro. Foto: Divulgação

Quando e como surgiu a ideia de fazer um livro sobre a vida de Clara Nunes?

A Clara sempre me fascinou. Mas a Clara que eu e outras pessoas da minha geração conhecíamos era o personagem, com vestimentas brancas que aludiam às vestes das filhas de santo da umbanda e/ou do candomblé. Em 2003 iniciei a pesquisa para a redação da biografia a partir de um material audiovisual raro dela que chegou até mim. Fiquei estarrecido com a atemporalidade de Clara, uma cantora ainda tão presente e cuja obra se mostra para lá de atual. Aquelas imagens remeteram à minha infância, quando meu tio e minha mãe me levavam à quadra da Portela. Em uma dessas idas, a Clara estava lá, no palco, cantando. Eu fiquei hipnotizado quando vi aquela mulher, linda, toda de branco, com aquela energia cênica incrível. Todos esses fatores me levaram a ir em busca de informações que me direcionassem para a descoberta daquele personagem que todos idolatravam, mas cuja história encontrava-se dispersa, sem registro no mercado editorial. Foi por isso que a escolhi: movido pelo interesse que sempre me despertou.

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Descobriu muitos fatos até então não revelados publicamente sobre a vida da cantora?

Seria leviano destacar este ou aquele ponto descoberto durante o processo de produção da biografia. Muitos detalhes sobre a vida e a obra da Clara poucas pessoas conhecem, mas o que importa no trabalho é o conjunto. É isso o que me interessa: a possibilidade de apresentar ao maior número de pessoas possível que o biografado era um ser-humano como qualquer outro. No Brasil e no mundo há uma tendência à heroicização das pessoas famosas, sobretudo as que morrem de forma trágica e precocemente. Todos tendem a mitificá-la. O que mais me agrada na redação de uma biografia é o fato de poder trabalhar com as nuances humanas do personagem. Por isso, a necessidade de se tratar o biografado com certo distanciamento crítico, como um objeto de estudo mesmo, por mais admiração e respeito que tenhamos por ele.

Pode contar casos interessantes que aconteceram ao longo do processo de produção do livro?

O mais interessante foi a forma como decidi encontrar personagens que me ajudariam na reconstituição da vida e obra da Clara. Com uma mochila nas costas, fui a Belo Horizonte, a Caetanópolis (MG), terra natal da cantora, Paraopeba (MG), Salvador, Recife... Estabeleci contato com uma moradora de Caetanópolis, professora. Ela era fã de Clara, colecionava tudo. Nos falamos algumas vezes por telefone e, como a cidade era pequena, pedi a ela que fizesse uma reserva num hotel próximo. Quando cheguei, ela foi me receber na rodoviária, e disse que fazia questão de me hospedar na casa dela. Eu tomei um susto. Ela nunca tinha me visto. Aquilo me fez pensar na bondade de nosso povo, na importância do resgate de valores, como a cordialidade, a solidariedade, o respeito, a confiança no próximo. Valores esses tão peculiares a nós, brasileiros, e que, dia a dia, nos escorregam das mãos diante das mazelas pelas quais somos todos responsáveis. Pode parecer mera bobagem falar tudo isso. Não o é. Therezinha Mascarenhas é o nome dela. Há que se registrar.

Foto: Wilton Montenegro

A morte de Clara Nunes ficou bem esclarecida?

A morte da Clara sempre me intrigou, assim como desperta dúvidas a muitas pessoas até hoje. Eu fui cauteloso ao narrar o fim trágico do personagem. Clara morreu em função de um choque anafilático durante uma cirurgia de varizes. Ela teve uma reação alérgica a um dos componentes do anestésico e isso evoluiu para uma parada cardiorrespiratória. Em seu cérebro formou-se um enorme edema. Clara teve morte cerebral imediata, mas os médicos só descobriram que estava descerebrada cerca de 10 dias depois da intercorrência na Clínica São Vicente, na Gávea, onde ela se internou. Na época, tomógrafo era um aparelho “top de linha”. No Rio só havia dois: um na Santa Casa e outro na Clínica São Vicente. O da clínica estava quebrado. Pela primeira vez, o médico que chefiou a equipe que operou a Clara concedeu uma entrevista. Ele não só falou comigo sobre detalhes da cirurgia e tudo o que aconteceu nos 28 dias de agonia até a morte da cantora, como solicitou o desarquivamento da Sindicância aberta pelo Conselho Regional de Medicina do Rio para a apuração do caso. Eu me pautei em documentos, não em versões. Segundo a documentação a que tive acesso, um calhamaço de papel disposto em 815 páginas, não houve erro médico. Mas persistem os boatos de que o anestesista teria abandonado a sala ou que houvera suposta falha dos equipamentos. Clara não morreu porque foi tentar um aborto ou fazer uma inseminação artificial ou ainda porque usava drogas. Esses boatos também foram propagados. Ela foi fazer uma cirurgia de varizes e o seu organismo reagiu mal a uma das substâncias do anestésico. Qual? Ninguém sabe e jamais saberá. Uma pessoa que é alérgica hoje a uma substância, amanhã pode não ser mais. E vice-versa.

Foto: Wilton Montenegro

Como foi a aceitação da família e dos fãs quando saiu o livro?

Dividida. Alguns amaram, outros não. Eu era fascinado pelo personagem Clara. Era aquela imagem que nos deixava embevecidos. A mim e a minha família. Mas, no livro, procurei desvendar a mulher Clara Nunes que se encontrava por trás do personagem, com todas as suas virtudes e defeitos, alegrias e tristezas. Era uma mulher como qualquer outra. Enfrentava conflitos emocionais, idolatrava a maternidade, amava, sofria, sonhava. O meu trabalho foi pautado pela seriedade e respeito aos fatos. Fossem esses "doces" ou "amargos". Isso incomoda fãs e familiares que prezam pela “manutenção do mito”. O livro não tem proposta de levantar polêmicas, mas de procurar ser fiel à história do personagem. E, claro, para ser fiel, os dissabores também precisam ser narrados.

Como você definiria Clara Nunes?

Uma mulher absolutamente generosa e crente no seu ofício. Por isso, o título do livro “Guerreira da Utopia”. Clara acreditava nos amigos, no amor, no seu canto como instrumento de conciliação, na sua arte como veículo de transformação social.



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