Orides Fontela adianta adiante

Por Diogo Mendes - Pontofervura


  • 15 de janeiro de 2019
Arte: Jeferson Lorenzato


Afeita às últimas consequências, a poeta Orides Fontela uniu vida e poesia, às vezes mais poesia do que necessariamente vida pessoal. Em si mergulhou, de tal forma que preferiu formatar a própria filosofia poética ou poesia filosófica negligenciando dificuldades cotidianas.

No livro *Transposição (1969), o equilíbrio do conteúdo e forma aparece definido, dividido em 4 partes e com o total de 56 poemas de diferentes tamanhos. Embora nas obras seguintes busque uma economia cáustica, os elementos imagéticos/ agregadores como pássaros, sóis e flores já são motrizes.

Poema que impulsiona e de mesmo título do livro na primeira parte de nome BASE, Transposição surge com uma estrofe inicial que lamenta a descontinuidade. O descontinuado parecido com um alívio ao passo que gera consumição, sentimentos opostos dentro de igual contexto.

Redescobrindo foi e o não fora, ainda no mesmo poema entre a quadrada da terceira estrofe. Abstratas e reais essas flores pouco são processos de acalentar o contemplativo da artista que partiu da cidade de São João da Boa Vista e morou boa parte da vida na rua Dr. Cesário Mota Jr., centro de São Paulo.

Mais à frente no poema Meada de mesmo segmento, os fios podem ser ponderados sustentáculos para desenho daquela trança. A relação do couro cabeludo é implodida na penúltima estrofe, página 17: “ [...] as mãos buscam o fim/ do tempo e o início/ de si mesmas, antes/ da trama criada [...]”.

Enquanto a memória blinda o tempo metafísico, formada em filosofia, a poeta não deixa enganar e enganar-se por sofismas. Durante os dezoitos versos do mesmo poema, o amoroso é dito de uma maneira abrangente visto do sentido que a trança vira fortaleza do que fraqueza.

Já na segunda parte (-), o símbolo negativo aponta para a negação do real em detrimento de Fala, poema bastante associado a Orides Fontela. Transposição traz nesta seção os poemas mais próximos de como a artista enxergava o processo criativo sem cair em armadilhas de linguagem.

Ferimentos, a capacidade que tudo causa, não apenas no estado físico, contudo no ato da escrita, crueldade vira a chave usual, enquanto a alma pede. As cinco estrofes seguindo sua cadência não deixam de trazer musicalidade que se impõe, jamais imposta da poeta em poesia.

 

 

Quente, o sol desta segunda parte acarreta o poema Meio-dia. A iluminação, estado poético ou estado de criação em Orides Fontela incorre longe do mormaço de Transposição. Direto do astro que reina este universo, olhando o máximo possível para claridade e clarividência.

Claridade naquele meio-dia originou algum tipo de clarividência da autora a respeito do impossível. Segredos destruídos pelo conhecimento alvo, oposto ao negativo, a lucidez para Orides Fontela só pode ser por meio do impossível – impossibilidades cruas contra os olhos míopes.

O símbolo (+) atenua no terceiro segmento do livro não colocado à revelia. As construções dos poemas de Orides Fontela chegam ao arreigado, por exemplo Gesto responde com voz sui generis rigor e sonoridade de Francisca Júlia, poeta dos livros Mármores (1895) e Esfinges (1903).

Por mais que apenas seja dentro daquelas 31 palavras, a percepção de ovacionar à imobilidade da vida em natureza. De muita astucia o poema gesticula desde a primeira estrofe, e figura à oscilação de bater palmas, repetindo na penúltima estrofe alocada na não possibilidade de movimento.

“ Madrugada/ negação da vertigem/ redescoberta infinita/ da luz [...] ”, abrindo com estes versos o poema Aurora, página 54. Como os dessa porção lidam com as realidades, ademais humanas e cruéis, paralelas em simultaneidade, logo o simultâneo proporcionando cruel e humano.

Núcleos humanos, negativos e positivos, misturados em um nascimento do sol, fagulha que aquece e queima. Madrugada chamada em tom de despedida, pois a impiedade não cessará o antepenúltimo poema, talvez o terceiro dependendo da leitura. Ganha-se sempre em releitura Orides Fontela.

Transposição recebe a quarta divisão de nome FIM, bem como a que menos têm poemas. Breve, caso nas duas anteriores o metafísico foi exaltado e condenado. O fim desta plataforma livro abandona o que não valia água, vida possível da onda, conturbação da morte do poema Advento.

Consistindo no poema que fecha o livro Transposição, se caso possa considerar que coleções de poemas tenham remate, A estátua jacente, não atoa fragmentado também em quatro partes. Número emblemático imbricado de significados conglutinando às demais peças compostas.

Orides Fontela adianta adiante por evitar concessões em sua obra poética, aglutinando e superando como uma das poucas representações de artistas; os procedimentos e vicissitudes do modernismo, poesia de protesto e concretismo. Labuta até quando podia e pode, ao seu modo de transpor.

* Trata-se da edição Poesia Reunida – Orides Fontela, Coleção Ás de colete, Cosac Naify, São Paulo, 7 Letras, Rio de Janeiro, 2006.

Link: https://pontofervura.wordpress.com/2019/01/11/orides-fontela-adianta-adiante/

 



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