Espelho que retrata Djanira

Por Diogo Mendes – Pontofervura


  • 26 de março de 2019
Fla-Flu, de 1975. Foto: Reprodução


Ser autodidata cujo ainda é um estigma no Brasil. Antes mesmo de ocorrer a migração de artistas de diferentes áreas aos bancos acadêmicos, pois adquirir instrução por si afasta da considerada for art (para arte), assim não tendo ora recebendo condições de viver fora dessa formalidade. 

O caso da pintora Djanira *, conhecida como Djanira da Motta e Silva também Djanira Motta, estabelece fronteira do fazer despojado remetendo um imagético no cotidiano brasileiro. Similaridades, horizontes, folclores, contrastes, religiosidades, feições; sua visão do individual e coletivo.

Nascida em 1914 na cidade de Avaré, interior de São Paulo, além de pintora, dividiu-se entre o desenho, ilustração e afins. Apesar das passagens nas instituições de ensino de arte, fazendo algumas residências, a trajetória da artista até o falecimento no ano de 1979 foi marcada por evitar vernizes.

Admirada por demais artistas da literatura, pintura, música, teatro da época. Da crítica de seu tempo recebeu elogios e rótulos, inclusive o último é perpassado nas gerações seguintes, ligando a pintora ao aprazível à medida que todo tipo de arte tem o próprio caráter de densidade.

Da Vendedora de Flores (1947), óleo sobre tela, surge o relacionamento dos seres sagrados e místicos em torno da figura feminina que carrega flores para o comércio. Dentro de uma possibilidade urbana, estes entes cercam o epicentro do quadro para poderem transformar.

Fica inconfundível o poder de transformação deste quadro, enquanto a cidade embrutece, e precisa embrutecer, ou a urgência emitida pelo semblante da vendedora. Lembrando, aliás, algumas das aparências, que circundam as flores colidas ou ainda a possibilidade daquela ingenuidade.

Pintando o Brasil, pessoas negras e traços negroides são de maneira habitual acentuados nos quadros de Djanira. Ainda desse período, a óleo sobre tela, O circo (1944) concentra em dilatar – mostrando, cena corriqueira de um estabelecimento de entretenimento e de mesmo nome da época da pintora.

Irreal, marca a vida pessoal e artística de Djanira, igual neste quadro um artista do picadeiro sendo identificado como palhaço sobe a escada ou estrutura similar de trapézio. Em consequência deixando sua bengala e chapéu, entrementes que outros trapezistas caem direto no chão.

Mais atenta as questões técnicas da pintura, à exemplo profundidade, na década de cinquenta a pintora aparece com a óleo sobre tela Peixes (1950), que se não fosse um detalhe na lateral do quadro, seria estimada como tela de treino. O estudo de profundidade da artista já havia consolidado.

 

 

Lá na mesa, os peixes estão permeados da geometria, por consequência indica como se fosse o ocular de alguém que estivesse aproveitando aquela imagem, firmando mais, a pintora entre artistas do modernismo. Diante disso, uma quadro que enleva em técnica e narrativa de seu tempo.

Caboclinhos (1952), óleo sobre tela, a solução em estudo e técnica da imagem da pintora consiste na suavidade que mostra um grupo de menino brincando em uma espécie de floresta. A brincadeira de fazer música com instrumentos quase que rudimentares, entre árvores tropicais.

Um dos elementos mais instintivos desse quadro, a necessidade da artista evidenciar a variedade das crianças brasileiras. A vermelha, negra, amarela, branca, todas em completa harmonia e ascendendo música, nomeando a maioria dos semblantes da criançada em constante movimento.

Já em um dos quadros mais emblemáticos de Djanira, óleo sobre tela, Galo (1951) aparece uma ave que está sem cabeça. Não indicando uma violência sofrida, visto que não aponta sangue ou indícios de algum ferimento, por outro lado existe a interpretação do mesmo esteja dormindo.

Vista da baía de Guanabara tomada de Santa Teresa, Rio de Janeiro, de 1979. Foto: Reprodução

Bastante aves guardam, como forma de proteção, as cabeças dentro dos próprios corpos. Em segundo plano no mesmo quadro se encontra o choque da aridez do país. Além disso, uma perspectiva, de como esse galo consegue utilizar da artimanha para confundir. De jeito, Djanira é o povo brasileiro.

Talvez mais associadas, a assinatura da pintora, as desconstruções de imagens do catolicismo e indagações das religiões afro-brasileiras acarretaram inúmeras obras. Sobretudo a de óleo sobre tela, Nossa Senhora Aparecida (1971) e a tela Orixás (1962) que fora arrancada do Palácio do Planalto.

Espelho que retrata Djanira constitui no Brasil proveniente de todas as contradições possíveis. Mais ainda, jogando este reflexo difuso em assuntos negligenciados por muita gente. Dependendo da luz proporcionada, incomodando vários olhos desapercebidos. A fragilidade do real.

< Parte do acervo da pintora está na exposição Djanira: a memória de seu povo, no Museu de Arte de São Paulo Assis Chatubear (MASP). Entre 1 de março até 19 de maio, entrada gratuita às terças-feiras, outros dias R$ 30,00. >

Link: https://pontofervura.wordpress.com/2019/03/01/espelho-que-retrata-djanira/



Veja Também