Desune Celina Portella unindo

Por Diogo Mendes – Pontofervura


  • 14 de fevereiro de 2019
Foto: Divulgação


Gesto sendo vital expressão. Por parte de artistas contemporâneos, entrementes as histórias das artes e humanidades, o gesticular das obras indicam entradas para o pensamento, ideia ligada a produção de performance, projeções, videoinstalações, fotopinturas, foto-objetos e afins. 

Na amostra *Reunião (2019) de Celina Portella há 27 peças criadas entre 2009 e 2018 apresentando proximidade com aspecto comedido à medida que exerce adversidade. Estranheza e humor perpassam metáfora convencional rumo esses monitores, molduras e caixas de acrílico.

Formas e desformas, a artista multimídia tem graduação em Artes Visuais com trajetória na dança. Lá o processo do corpo acendendo movimento teve incentivo até no caráter de agitação, inclusive do próprio vislumbrar às artes como estrutura que aglutina corpos coreografando.

Da bagagem da coreografia, Celina Portella ativa sinais corpóreos das representações das figuras humanas às vezes inteiras, noutras fragmentadas em Reunião. Comunicando nas obras, nomes escolhidos sem qualquer hermetismo, tido dentro das artes performáticas, zona de conforto.

Oco 1. Foto: Divulgação

Pela perspectiva de infindos questionamentos do real e abstrato, largando para união, logo traz a fotografia, fio e peso de chumbo, sem título (2015). Com curadoria de Daniela Labra e coordenação geral de Anderson Eleotério, a exposição oferece plataformas que fogem do cômodo.

Longe da comodidade, Reunião possui a foto-objeto, Colo (2017) uma das obras mais chamativas dentro do sentido espaço e não espaço físico da artista. Enquanto pernas ficam arcadas indo até as coxas, criando uma espécie de ternura fora da dimensão habituada, ou se espera.

Deságua de beber (2014) pertence ao tríptico de vídeos, não idênticos já que causam quereres e desqueres. A repetição neste vídeo em looping vai provocando várias interpretações da figura feminina toda vestida de enegrecido dentro de uma piscina que tenta degustar uma taça.

Em Deságua na cachoeira (2014) é uma das poucas obras que aparece a figura masculina, aqui por inteiro um homem está de baixo de uma cachoeira vestido com uma roupa típica urbana – até mesmo considerada uma vestimenta de funcionário de uma corporação. A água não o deixa dilatar a percepção, abrindo os olhos.

Deságua na cachoeira. Foto: Divulgação

Mesmo que neste tríptico de vídeos os personagens estejam de olhos semicerrados quase em transe. Na Deságua na paisagem (2014), além do movimento dos ferros de passar roupa incitado por uma mulher no trampolim de uma piscina vazia, atrás existe uma cidade de contrastes sociais.

Não (2017) consiste na foto-objeto que mais suscita interação, pouco seja pelo fato do sensor estimular a reação negativa do suporte, por sua vez carrega a fotografia dentro de uma moldura. Contudo, na necessidade quase que mecânica do impactar as relações humanas de Reunião.

Já na foto-instalação, O legado da herança (2015) encontra-se uma imagem de beleza imagética da fotografia, se não fosse a recontextualização feita pela artista colocando uma pequena esfera sendo puxada por alguém de dentro da imagem. Espacial e proporção são detalhes em Celina Portella.

Outra foto-objeto que causa tendência é Morcego (2017), obra com dois pés em uma posição que parece desse animal. As minúcias fornecidas pela artista ofertam todo o fascínio, visto que essas extremidades estão de uma maneira tensa, perceptíveis nas musculaturas daqueles calcanhares.

Foto: Divulgação

Opondo com a foto-objeto, Escora (2017) que apesar de ser do mesmo ano de realização segue composição e nomenclatura dialogando mais com uma interpretação abstrata ao invés da humorística. As mãos abertas em sinal de força de jeito literal podem segurar qualquer estrutura.

Cinema, imagem, fotografia, dança, performance, escultura - todas essas facetas alimentam o fazer da arte de Reunião. Também, igual a relação do espaço com o corpo, de mesmo modo a manutenção e deterioração dos espaços e corpos, embora esta última não seja percebida a princípio.

Desune Celina Portella unindo as maneiras de cometer vida ao passo que arte. Compreendendo que maneirismos de estilo esquivam dos olhares apurados e comunicáveis. Dualidade gesticulada, temáticas conflitantes, jogos de espaços, plurais de significados; para revelação da essência.

*Reunião é uma amostra em cartaz na Caixa Cultural São Paulo. Praça da Sé, 111. Sé, São Paulo, SP, entrada franca.

https://pontofervura.wordpress.com/2019/02/01/desune-celina-portella-unindo/

 



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