Caco Ciocler lança livro, fala da carreira e de censura: "Acho que a gente vive uma sociedade binária"


  • 05 de novembro de 2017
Foto: Amon R. / Portal ArteBlitz


Por Claudia Dias

Dizem que para uma pessoa se realizar plenamente, ela precisa plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. Se essa máxima for verdadeira, Caco Ciocler atingiu a realização plena com o lançamento de seu primeiro livro, Zeide. A obra de ficção é baseada na história de seu avô, contada ao longo de três gerações de uma família judaica. "Quando recebi o convite da Editora Planeta, me dei conta de que era um descendente de imigrantes. Então, achei besteira fingir que não tinha nada a ver comigo. Lembrava de poucas histórias muito interessantes, quase surreais, que ouvia desde pequeno. E decidi escrever a minha história. Não a minha, mas sobre como esse imigrante, que é meu avô, saiu do país dele e chegou no Brasil e como isso chegou até mim. Na verdade, são quatro gerações, já que vou até o nascimento do meu filho", explicou, referindo-se a Bruno, de 20 anos.

Caco, que atuou em Novo Mundo, teve que se desdobrar para dar conta dos compromissos de lançamento do livro. No teatro, estava envolvido com os espetáculos A Tragédia e a Comédia Latino-Americana Constelações. Agora, além de estar em cartaz com o drama Selvageria, em SP, fará uma participação de três capítulos em Deus Salve o Rei, trama global das 7 no ar em janeiro, razão do novo visual com megahair. Na conversa com o Portal ArteBlitz, o ator e diretor também opinou sobre os casos recentes de censura à arte. “Mais do que 'encaretar', eu acho que a gente vive uma sociedade binária”, diz. 

Mergulho na literatura

“A ideia da editora era convidar não autores para escreverem uma ficção sobre descendentes de imigrantes vivendo no Brasil. Chamaram uma descendente japonesa, uma italiana e eu para escrever uma ficção sobre um judeu, descendente de imigrantes, vivendo no Brasil”.

"O mais doído foi quando comecei a reler o que tinha escrito. Cada vez que relia, gostava menos. Foi um processo meio esquizofrênico."

Inspiração ou pânico

“Nenhum dos dois. Eu já sabia mais ou menos como eu gostaria de escrever o primeiro capítulo. Então, foi tudo muito natural. O mais doído foi quando comecei a reler o que tinha escrito. Cada vez que relia, gostava menos. Como não tenho um estilo literário, o único critério era o meu próprio gosto. Só que o nosso gosto muda. Então, foi um processo meio esquizofrênico”

Diversão

“Curti. Todo esse processo me fez muito bem. Agora, eu estou vivendo um outro momento: como as pessoas vão receber, entender o que é esse livro. Para mim, foi muito revelador, quase um processo de cura. Para a minha família, eu sei que foi muito importante, a gente já se reuniu, já conversou sobre ele. Agora, a minha curiosidade é saber como ele vai bater para quem não tem nada a ver com isso, embora tenha. Eu acho que ele, embora muito particular, seja um livro universal”.

"Para mim, escrever esse livro foi muito revelador, quase um processo de cura. Para a minha família, eu sei que foi muito importante também."

Texto para peça

“Eu escrevi há muito tempo, gosto da ideia. Mas preciso voltar a ela e ver se eu teria coragem de mostrar para as outras pessoas”.

Vaidade

“Eu acho que escrever foi a coisa mais íntima e difícil que eu já fiz e, por incrível que pareça, está me dando mais medo de mostrar. Porque o teatro, mal ou bem, você tem um personagem, pode fazer ajustes. Aqui não. É uma coisa que já está e vai ficar. É um processo que não tem fim. As pessoas vão ler e eu não vou estar perto para saber como elas vão reagir”.

Realização de vida

“Já plantei uma árvore, já tive um filho, já escrevi um livro, agora, acho que para me realizar completamente falta construir, comprar ou ter um lugar meu no meio do mato”.

"A gente está vivendo uma sociedade cada vez mais em que as pessoas param de crescer, de evoluir e tornam-se ditadoras e violentas, embora não percebam, e pregam a extinção do diferente. Isso é muito perigoso!"

Cerceamentoo à cultura

"Mais do que 'encaretar', acho que a gente vive uma sociedade binária. Antigamente, a sociedade era bipolar, mas você respeitava a existência do outro e, em alguns momentos, até o temia. Talvez, por causa do celular e da internet, passamos a viver uma lógica binária: ou é zero ou é um. Não tem um meio termo: ou pensa como eu ou te excluo da minha rede. Isso é muito perigoso, porque a arte e a poesia nascem justamente do que está entre o zero e o um. Então, a gente está vivendo uma sociedade cada vez mais em que as pessoas param de crescer, de evoluir e tornam-se ditadoras e violentas, embora não percebam, e pregam a extinção do diferente. Isso é muito perigoso. Qualquer sociedade da história que foi por aí não teve um bom final. Deu 'merda'"

Novelas mais lúdicas

“Acho que as novelas recuperaram uma coisa essencial que é o melodrama. Teve uma fase em que quiseram escapar do melodrama e isso é tão próprio da novela, tão lúdico. As pessoas ficaram com saudades. Eu sou otimista. Acho que essa sociedade violenta é uma reação a uma liberdade que nunca se viu na história. É tudo muito cíclico. Acho que as pessoas, agora, estão com saudades da poesia. Voltamos a ter saudades do lúdico, da fita cassete, do LP. Acho que a realidade, a câmera na mão, o documento, teve a sua interferência, mas, agora, estamos em outro momento"


 



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